Após início morno, horário eleitoral em SP termina com ataques entre rivais

RENAN MARRA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após início morno, com poucas novidades e muitas repetições, o programa eleitoral dos candidatos à Prefeitura de São Paulo teve, na sua reta final, ataques entre os candidatos, citações com apelidos irônicos entre eles e direito de resposta garantido na Justiça. O horário eleitoral foi exibido pela última vez antes do primeiro turno nesta quinta-feira (12). Partidos intensificaram críticas a adversários e seus padrinhos políticos principalmente depois da publicação de pesquisas de intenção de voto que mostraram acirramento na disputa pela segunda colocação na corrida eleitoral. Os embates mais duros foram protagonizados por Guilherme Boulos (PSOL) e Celso Russomanno (Republicanos), segundo (16% das intenções de voto) e terceiro (14%) colocados, respectivamente, na última pesquisa do instituto Datafolha, divulgada nesta quarta (11). Em novembro, Russomanno teve duas de suas peças substituídas após a Justiça eleitoral ter concedido direito de resposta ao PSOL em caso que envolveu a atendente de supermercado Cleide Cruz. Ela declarou apoio a Boulos e afirmou ter sido humilhada em reportagem de 2005 feita pelo candidato do Republicanos. Na TV, após pesquisas indicarem tendência de queda, o deputado chamou o psolista de "farsante de esquerda" e o acusou de ter manipulado a eleitora. "Aqui não, Celso Russomanno. O senhor está mentindo. O senhor me humilhou naquele dia. O senhor me deixou sentindo péssima, um lixo. O senhor me causou dor. O senhor me causou problemas. E o senhor não tem a hombridade de se desculpar do que fez", disse Cleide em vídeo gravado pelo PSOL e exibido no horário de Russomanno. O episódio, único direito de resposta concedido pela Justiça nos blocos horários eleitorais da TV, foi um dos que mais impactaram o programa eleitoral de Russomanno. Explorado em 2016, o caso envolvendo Cleide voltou a ganhar força nestas eleições após Boulos acusar Russomanno em debate na TV Bandeirantes de "falar fino com os poderosos e grosso com o povo". Antes da polêmica ser discutida na televisão, um trecho da reportagem em que o deputado bate-boca com atendentes de um supermercado ao exigir que produtos como rolos de papel higiênico fossem vendidos por unidade viralizou nas redes sociais. O deputado chegou a chamar a polícia antes de finalizar a compra. Elsinho Mouco, marqueteiro de Russomanno, minimizou o efeito da polêmica na campanha com a argumentação de que a Justiça eleitoral concedeu ao deputado "mais direitos de resposta do que os tirou". Ele considera direitos de resposta concedidos pela Justiça nas redes sociais de adversários e também a uma decisão do TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) favorável a Russomanno obtida na quarta contra peça na TV e no rádio de Joice Hasselmann (PSL), mas que acabou revertida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). "Hoje Celso Russomanno tem uma energia, um conhecimento que vai além do defensor dos direitos do consumidor", diz o marqueteiro Mouco, que classifica os 35 dias de programa eleitoral como "extremamente positivos" mesmo com o derretimento do deputado nas pesquisas eleitorais. Russomanno perdeu 15 pontos desde pesquisa Datafolha publicada em 24 de setembro, quando ele aparecia com 29% das intenções de voto. A campanha decidiu mostrar no programa eleitoral o padrinho político do deputado, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que tem 48% de rejeição na capital paulista de acordo com o mesmo instituto. Além do confronto com Boulos, Russomanno disparou ataques contra Bruno Covas (PSDB), líder na última pesquisa Datafolha, com 32% das intenções de voto. O deputado fez questão de associá-lo ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), escondido pelo prefeito na campanha até aqui. "Gente, cadê o Doria? Vocês viram o Doria por aí? Ele não aparece nem na propaganda do Bruno [Covas]. Será que o prefeito esconde o governador com medo de atrapalhar? Ah, eu acho que eu sei. Eu acho que é porque ele abandonou a cidade. Fugiu. Ou será que foi porque ele usou o 'BolsoDoria' para se eleger governador e depois virou as costas?" disse Russomanno em programa exibido pela primeira vez em 26 de outubro. O petista Jilmar Tatto adotou estratégia parecida. No último dia 4, ele aumentou o tom contra Covas e disse que o prefeito "não sabe ou não quer governar". Na mesma peça, um narrador afirmou que o prefeito matriculou crianças em creches "que não existem" e que deixou "obras paradas por toda a cidade". "Ele e Doria ficaram quatro anos e não fizeram quase nada até agora", disse Tatto, que também ironizou a ausência do padrinho político do prefeito na campanha. Desde o começo do programa eleitoral, Tatto tem criticado cortes que teriam sido feitos nas gestões dos tucanos João Doria e Bruno Covas que, segundo o petista, provocaram retrocesso em políticas sociais da capital. Mas as peças publicitárias não haviam, até então, dedicado tanto tempo com críticas ao adversário como no programa exibido na semana passada. A assessoria da campanha de Tatto, com apenas 4% das intenções de voto, nega que o petista tenha mudado de estratégia na reta final antes do primeiro turno. Afirma também que as críticas aos tucanos foram feitas por causa da diferença da forma de governar, e que a administração petista olha com "mais atenção aos que mais precisam, diferentemente dos tucanos". Também na semana passada, Boulos lançou o mascote Boulinhos, inspirado nos cavalinhos do programa Fantástico, da TV Globo, que faz críticas em tom de descontração. Simulando uma corrida de cavalos, Boulinhos chama seus adversários de "pangaré". Em uma das peças, com alfinetada a Russomanno, aparece o desenho de outro cavalo com as palavras "Cavalo paraguaio - em picolé". "Sabe por que eu não gosto de picolé? Porque assim como eu, ele derrete! Tá russo, mano", diz o cavalinho na peça. O candidato Orlando Silva (PC do B) foi outro que subiu o tom contra Russomanno. No dia 28 de outubro usou pela primeira vez uma peça em que diz que "é hora de enfrentar o fascismo e derrotar Bolsonaro e Russomanno em São Paulo". A peça irritou o deputado, que neste mês teve três pedidos de direito de resposta, com inserção no programa eleitoral de Orlando Silva, negados pela Justiça. Ele alegava difamação, mas o TRE entendeu como críticas. "Mesmo com poucos segundos na TV, nosso programa eleitoral teve êxito em denunciar a escalada autoritária na sociedade através de Bolsonaro e de seu candidato em São Paulo, Russomanno", afirma o candidato Orlando Silva, que não pontuou na última pesquisa Datafolha. Com os maiores tempos de televisão, Covas e Márcio França evitaram ataques aos concorrentes. O primeiro se tornou alvo preferido dos adversários. Além de Russomanno e Tatto, o prefeito foi atacado também por Arthur do Val (Patrioca), Joice Hasselman (PSL) e Guilherme Boulos (PSOL). A campanha do tucano, porém, optou por poupar energia para o segundo turno. A estratégia usada, segundo assessores, foi a lógica de "não mexer em time que está ganhando". Sobre os ataques recebidos, afirma que já eram esperados pelo fato de Covas tentar a reeleição, o que o coloca em evidência diante dos concorrentes. "É claro que agora o jogo sujo vai começar, os ataques vão aparecer. Mas vamos deixar a raiva de lado e vamos com amor falar da nossa cidade", disse o tucano quase que diariamente, após pesquisas apontarem crescimento nas intenções de voto. Já a campanha de Márcio França afirma que a linearidade das suas peças mostrou ao eleitor que a candidatura tem um planejamento focado. "Criamos um caminho, uma forma, uma linguagem, um tom de voz para o Márcio, e mantivemos isso até o final, ao contrário de outras campanhas, que ficaram mudando no meio do caminho", afirma o publicitário Raul Cruz Lima. "E quando você muda no meio do caminho, você confunde as pessoas". De acordo com Lima, apesar de ter avançado ao segundo turno em 2018, os eleitores não se lembravam direito de Márcio no início da campanha. "Por isso resolvemos botar a cara dele o tempo todo e não dar espaço aos adversários nesses programas". Nesta quinta, no último dia do programa eleitoral antes do primeiro turno, os adversários não atacaram uns aos outros. Até mesmo Joice Hasselmann e Arthur do Val, que fizeram programas com tom mais críticos aos adversários, optaram por pedir votos e falar sobre propostas. No segundo turno, os programas eleitorais serão veiculados de 20 a 27 de novembro. Serão 25 minutos para serem usados em inserções entre os dois candidatos, com tempo dividido igualitariamente entre os partidos políticos ou as coligações.