Após invasão, Congresso confirma vitória de Biden, e Trump promete 'transição ordeira'

·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - ​Após o Congresso dos Estados Unidos confirmar a vitória do democrata Joe Biden nas eleições de novembro em uma sessão histórica marcada por cenas de violência no Capitólio, o presidente Donald Trump prometeu na manhã desta quinta-feira (7) que "haverá uma transição ordeira em 20 de janeiro", o dia em que ele deverá deixar a Casa Branca. Trump desiste de reverter o resultado das urnas um dia depois de insuflar uma multidão de apoiadores a invadir o Capitólio, a sede do Legislativo, em um ataque sem precedentes à democracia americana. "Embora eu discorde totalmente do resultado das eleições, e os fatos estão do meu lado, ainda assim haverá uma transição ordeira em 20 de janeiro", disse Trump em um comunicado publicado no Twitter de seu diretor de redes sociais, Dan Scavino. "Eu sempre disse que nós seguiríamos nossa luta para garantir que apenas os votos legais fossem contados. Ainda que isto represente o fim do maior primeiro mandato na história presidencial, é apenas o começo da nossa luta para Fazer a América Grandiosa Novamente", acrescentou Trump, mencionando seu slogan de campanha. Plataformas de redes sociais bloquearam temporariamente a conta de Trump após os episódios de violência registrados nesta quarta-feira. A confirmação dos votos do Colégio Eleitoral pelo Congresso era a última etapa processual antes da posse de Biden, que ocorrerá no próximo dia 20. No entanto, o ritual de transição pacífica de poder foi ameaçado quando extremistas interromperam a sessão e forçaram os legisladores a procurar abrigo. A invasão aconteceu poucos minutos depois de o próprio presidente americano, durante manifestação na capital do país, Washington, insuflar ativistas a se dirigirem até a sede do Legislativo. O Capitólio viu um cenário de caos. Ao menos quatro pessoas morreram na região do Capitólio durante os enfrentamentos, dentre elas uma mulher baleada por agentes de segurança. Outros três óbitos foram registrados em decorrência de “emergências médicas”, segundo a polícia de Washington. Jornalistas foram trancados num porão, pessoas fantasiadas de vikings confrontaram assessores, e testemunhas dizem ter sentido cheiro de fumaça dentro do prédio. Os manifestantes carregavam símbolos de movimentos de extrema direita e bandeiras dos EUA, além de faixas da campanha presidencial de Trump. De acordo com o chefe do departamento de polícia de Washington, Robert J. Contee, 52 pessoas foram presas, 47 delas por desrespeitar o toque de recolher em vigor desde as 18h locais (20h em Brasília). Após as forças de segurança retirarem os invasores do local, em ações que também deixaram vários policiais feridos, de acordo com a imprensa americana, os congressistas puderam retomar os trabalhos. Ainda assim, a sessão seguiu madrugada adentro, pois aliados de Trump no Congresso apresentaram objeções em uma tentativa fracassada de invalidar o resultado das urnas no Arizona e na Pensilvânia. A escalada da violência isolou Trump dentro de seu partido. Membros de seu governo, bem como congressistas da oposição e organizações empresariais, chegaram a discutir medidas para retirar Trump do poder antes dos 13 dias que faltam para o término de seu mandato.​ Os democratas do Comitê Judiciário da Câmara enviaram uma carta ao vice-presidente Mike Pence argumentando que a conduta recente de Trump se enquadra na hipótese prevista na 25ª Emenda da Constituição dos EUA, que permite que um presidente seja removido caso seja considerado incapaz de seguir no cargo pelo vice-presidente e pela maioria de seu gabinete. Para invocar o dispositivo constitucional, o vice deve comunicar por escrito ao comando do Congresso que o titular está incapacitado. Em seguida, ele assume imediatamente a Presidência de forma interina. O titular do cargo, porém, pode, a qualquer momento, enviar uma carta ao comando do Congresso para questionar a decisão, o que dá quatro dias para o vice e o gabinete se posicionarem. Se eles não se manifestarem nesse período, o presidente volta ao cargo normalmente. Mas se o grupo novamente informar ao Legislativo que o presidente segue incapacitado, o caso terá que ser resolvido pelos deputados e senadores —seria necessária uma maioria de dois terços em cada Casa para que o presidente seja afastado. Pouco antes da invasão, o próprio Pence, assim como líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, haviam rompido publicamente com Trump por rejeitarem sua tentativa de impedir a confirmação do resultado das eleições. "Àqueles que criaram caos na nossa capital hoje: vocês não venceram. A violência nunca ganha", disse Pence ao retomar a sessão de certificação referindo-se aos extremistas que invadiram o Capitólio. Os três últimos antecessores de Trump na Casa Branca também condenaram o que se viu na capital americana nesta quarta. "Momento de grande desonra e vergonha ao nosso país", escreveu o democrata Barack Obama em um comunicado publicado no Twitter. O republicano George W. Bush, referindo-se à invasão do Congresso, disse que "é assim que os resultados são disputados em uma república de bananas" e, sem mencionar Trump, afirmou estar "chocado com o comportamento imprudente de alguns líderes políticos desde as eleições" de 3 de novembro. O ex-presidente democrata Bill Clinton também se manifestou sobre o ocorrido, chamando a invasão do Capitólio de um "ataque sem precedentes ao país". "O ataque foi incentivado por mais de quatro anos de política venenosa espalhando informações falsas, semeando desconfiança em nossos sistema e colocando americanos uns contra os outros", escreveu. Após os incidentes desta quarta, ao menos três importantes funcionários da Casa Branca anunciaram suas demissões. De acordo com a CNN americana, Matthew Pottinger, vice-conselheiro de segurança nacional, Anna Cristina Niceta, responsável pelo cerimonial da Casa Branca, e Stephanie Grisham, chefe de gabinete da primeira dama Melania Trump e ex-porta-voz do governo, já deixaram seus cargos. Chris Liddell, vice-chefe de gabinete de Trump, e Elaine Chao, secretária dos transportes, também estariam considerando abandonar o governo, segundo diferentes veículos da imprensa americana.