Após liderar invasões, Boulos atrai jovens e foge de fama de radical

THIAGO AMÂNCIO
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 29.10.2020 - Candidato Guilherme Boulos (PSOL). (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 29.10.2020 - Candidato Guilherme Boulos (PSOL). (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem dissesse há seis anos que o líder sem-teto que comandava milhares pelas ruas da cidade bloqueando avenidas e fazendo barricadas contra a Copa do Mundo seria um candidato com chances reais de ir para o segundo turno em uma eleição em São Paulo provavelmente seria desacreditado.

Guilherme Boulos (PSOL), líder do maior movimento de moradia do país, que já foi detido por vandalismo, coordenou invasões de terrenos e conseguiu forçar negociações com presidente e prefeito, moderou o discurso, mirou a campanha na internet, conquistou o apoio de petistas históricos e virou o preferido entre os mais jovens e os mais escolarizados.

Agora, empatado com Celso Russomanno (Republicanos) e Márcio França (PSB) na disputa por uma vaga no segundo turno, precisa conseguir dialogar com as camadas mais pobres se quiser se eleger prefeito de São Paulo.

Se vencer, terá como pedra no sapato sua inexperiência em cargos públicos e precisará negociar com o movimento social que hoje coordena.

Filho de médicos conhecidos, Boulos trocou na adolescência o Colégio Equipe, tradicional escola particular, por uma pública. Chegou a morar em ocupações depois que entrou em movimentos de moradia e hoje vive hoje no Campo Limpo, com só um carro popular como bem declarado.

Boulos milita desde o começo dos anos 2000 no MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), grupo que luta por moradias em áreas urbanas. Ganhou espaço no movimento mesmo sem vir de sua base e comandou invasões com milhares de assentados.

O primeiro episódio de barulho foi na desocupação do Pinheirinho, terreno em São José dos Campos (SP), quando Boulos foi agredido por guardas civis e foi detido. Houve denúncias de abusos cometidos na reintegração de posse e o nome do militante foi estampado nos jornais.

Por esse episódio, Boulos é reu sob acusação de dano ao patrimônio público. A Promotoria propõe um acordo para extinguir a ação em que ele deve pagar a reparação ao patrimônio e não pode sair da cidade por mais de 15 dias sem avisar a Justiça.

O segundo grande momento que projetou seu nome foi em 2014, quando o MTST convocou protestos contra a Copa que paravam a cidade.

O grupo ocupou um terreno em Itaquera, a 3 km do estádio que sediou a abertura do Mundial. Para tentar tirar a multidão das ruas e garantir um evento sem protestos, a então presidente Dilma Rousseff (PT) se reuniu com Boulos, junto do então prefeito Fernando Haddad (PT).

Da reunião saiu a promessa de que a prefeitura estudaria a desapropriação do terreno e que o governo estudaria o acesso do MTST ao Minha Casa, Minha Vida. Já naquele dia os manifestantes começaram a suspender os atos.

É dessa época um vídeo resgatado na atual campanha, em que Boulos diz que a polícia não deve ser chamada para resolver problemas, inclusive de violência doméstica, em acampamentos sem-teto.

Outro movimento decisivo na trajetória política de Boulos foi a não adesão à Frente Brasil Popular, união de partidos e sindicatos contra o impeachment de Dilma.

Boulos e o MTST preferiram lançar um grupo próprio, a Frente Povo Sem Medo, sem o PT. Como podia levar uma multidão às ruas --o MTST cobra dos membros participação em protestos, com direito a lista de presença--, conseguiu manter o protagonismo.

O grupo manteve protestos nas ruas depois do impeachment, contra as reformas de Michel Temer, e não deixou de ocupar terrenos. Enquanto isso, Boulos ganhava apoio entre intelectuais e artistas, com direito a show de Caetano Veloso e Péricles no aniversário do MTST em 2017.

Apesar das críticas ao PT no governo Dilma, Boulos foi atuante nas mobilizações contra a prisão do ex-presidente Lula e foi colocado pelo petista no alto de palanques.

Já nome de peso na esquerda, ele se filiou ao PSOL em 2018 para concorrer à Presidência, o que gerou insatisfação em alas do partido, que acusaram os líderes da sigla de desrespeitarem as prévias.

Com a eleição muito polarizada desde o começo, porém, o PSOL teve só 0,58% dos votos, seu pior desempenho em campanhas presidenciais.

Apesar do número pífio, Boulos ganhou projeção aparecendo em debates e começou a articular a candidatura à prefeitura. Para tornar o nome mais palatável ao eleitor paulistano, abandonou a cor vermelha e usa na campanha o roxo e o amarelo. Sem um nome forte do PT como concorrente, ganhou o apoio de apoiadores históricos do partido, como Chico Buarque.

Deixou de lado a sisudez dos tempos de militância e lançou uma espécie de "Boulos paz e amor", mirando os jovens. Na internet, encontrou um nicho receptivo. É ativo no TikTok e apostou em memes à exaustão, a exemplo do que fizeram as campanhas do MBL e de Jair Bolsonaro.

Também transformou em meme seu único bem declarado, um carro Celta avaliado em R$ 15,4 mil, fazendo dele jingle de campanha ao ritmo de pisadinha.

Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou, porém, que a declaração de bens Justiça Eleitoral omitiu uma conta bancária, que, depois de declarada, constava com saldo de R$ 579,53.

O foco na internet, em partes, deu resultado. Boulos é o candidato preferido entre eleitores com até 34 anos, com mais de 23% da preferência nessas fatias, segundo o Datafolha, e entre eleitores com curso superior (29%).

Mas a mesma aferição mostra que o candidato não tem conseguido falar com os eleitores mais pobres (tem 8% de intenção de voto entre quem ganha até 6 salários) e que têm apenas o ensino fundamental (4%). Nessas fatias, a população prefere Bruno Covas (PSDB) e Celso Russomano (Republicanos).

Boulos diz hoje viver de seus textos e das aulas que dá --embora a FESPSP, faculdade a qual ele diz ser ligado, negue vínculo desde novembro de 2018.

As pesquisas mostram que, se quiser incluir o salário de prefeito em sua renda mensal, ele terá que furar a bolha de jovens e escolarizados e conquistar os votos da periferia que diz defender.

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RAIO-X

Guilherme Boulos, 38

Formado em filosofia e mestre em psiquiatria pela USP, é coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Foi candidato a presidente da República em 2018 pelo PSOL, quando recebeu 617 mil votos e ficou em 10º lugar.