Após Lula expor desconfiança com militares, Múcio tenta agendar reunião do presidente com comandantes das Forças Armadas

Pressionado após suspeitas de omissão de militares para conter os atos terroristas de 8 de janeiro, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, trabalha para reatar a confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas Forças Armadas e agendar uma nova reunião com os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica com o petista. A intenção é o que encontro ocorra até o fim da semana, antes de o presidente viajar à Argentina, no domingo.

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Na semana passada, ao falar do episódio em café da manhã com jornalistas, Lula disse ter perdido a confiança em uma parcela dos militares, que ele acusa de ter facilitado a entrada de manifestantes golpistas no Palácio do Planalto. Segundo ele, era preciso esperar a "poeira baixar" para voltar ao assunto.

Ao mesmo tempo, Múcio enfrenta desgastes no governo por não ter atuado de forma mais efetiva para acabar com os acampamentos bolsonaristas armados em frente aos quartéis generais desde novembro. Ao ser tomar posse no cargo, no dia 2, ele chegou a afirrmar que considerava os atos como manifestações democráticas e admitiu que tinha parentes acampados. Na semana passada, setores do PT defendera sua saída do governo. Foi preciso que Lula reafirmasse publicamente sua confiança em Múcio para amainar a fritura.

Ao levar os comandantes novamente ao Planalto, Múcio quer desfazer o clima da primeira reunião com os comandantes das três Forças após os atos terroristas. Nesse encontro, que ocorreu no dia seguinte aos ataques, Lula foi duro ao demonstrar a indignação com a conduta dos militares durante os atos de vandalismo. Como mostrou a colunista Bela Megale, a principal queixa do presidente nessa conversa foi a demora para que as Forças Armadas agissem na Praça dos Três Poderes.

A tensão do Palácio do Planalto com os militares está concentrada no comandante do Exército, general Júlio Cesar de Arruda. Foi em frente a quartéis do Exército que milhares de manifestantes acamparam por mais de 60 dias contestando a vitória de Lula. Entre integrantes do governo, há a leitura de que o próprio Exército não poderia ter permitido a permanência desses acampamentos. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou em entrevista ao GLOBO que estas manifestações não deveriam “ter sido permitidas em momento algum”.

Nesta terça-feira, após almoço com Múcio e os comandantes, Costa contemporizou, afirmando que não é possível confundir ações individuais com a posição das instituições:

— Não podemos misturar isso (instituições de estado) com eventuais comportamentos inadequados de um, de dois, de dez, seja a quantidade de pessoas que for, de instituições diferentes que tiveram ao longo desse período um comportamento que não deveria ter ocorrido.

Arruda assumiu o comando do Exército em 30 de dezembro. Quando os ataques às sedes dos três poderes aconteceram, em 8 de janeiro, o general estava há dez dias no cargo.

Um ponto de insatisfação entre integrantes do governo é a participação de parentes e amigos de integrantes do Exército, que deixaram o acampamento em frente ao QG do Exército, em Brasília, antes das 6h da manhã de segunda-feira, 9 de janeiro, quando houve a operação da Polícia Militar que deteve quem ainda permanecia no local. Essa foi uma saída costurada na noite de domingo, entre os ministros Múcio, Flávio Dino (Justiça) e Rui Costa (Casa Civil) com o comando do Exército.

A chegada de ônibus na madrugada de sábado para domingo, 7 e 8 de janeiro, transportando manifestantes de diversas regiões do Brasil para a frente ao QG do Exército, além do retorno de parte deles ao acampamento no QG após a depredações na Praça dos Três poderes também desgastou o general.

Para tentar virar a página, Múcio deve levar a Lula pautas que possam superar o desgaste sofrido pelas forças neste episódio, tratando de demandas específicas do Exército, Marinha e Aeronáutica, em uma tentativa de empregar uma agenda positiva. Nesta terça-feira, o ministro da Casa Civil Rui Costa almoçou com Múcio e os comandantes das Três Forças no Ministério da Defesa. Na saída, Costa falou a jornalistas que possivelmente Lula se encontrará com os comandantes até sexta, para tratar da apresentação da modernização das Forças:

— A ideia é discutir com a Defesa e as Forças Armadas para modernizá-las. Queremos modernizar o investimento nas forças com formação de mão de obra, aumentar o investimento em Defesa, e queremos que esse investimento esteja alinhado com as políticas do governo — afirmou Costa.

Em reunião com Múcio nesta segunda-feira, Lula questionou sobre o andamento de um relatório com demandas e necessidades de investimento em cada força. O material foi solicitado pelo presidente em 16 de dezembro, no primeiro encontro que teve com os novos comandantes das Forças Armadas. O relatório do Exército está concluído e Múcio pretende acelerar a conclusão dos pareceres da Marinha e da Aeronáutica para agendar uma nova reunião entre Lula e os comandantes das forças até o fim da semana.