Após mais de 50 anos, túnel que leva esgoto da Zona Sul para o oceano vai passar pela primeira limpeza

Mais de meio século após ser construído, o trecho de Copacabana do túnel subterrâneo que leva o esgoto e as águas pluviais de bairros da Zona Sul até o emissário submarino de Ipanema será limpo pela primeira vez. No mês do Meio Ambiente, a operação inédita está prevista para começar no dia 20, e deve durar nove meses. A expectativa é a redução de transbordamentos em dias de chuva e das línguas negras nas areias das praias.

Esta é a segunda fase de limpeza do chamado interceptor oceânico. Entre abril e maio, a Águas do Rio, empresa que assumiu em novembro o saneamento da região, retirou 600 toneladas de resíduos do trecho do túnel entre os bairros da Glória e de Botafogo. Agora, a previsão é de que 2 mil toneladas de detritos sejam removidas nos 2,4 quilômetros da Avenida Atlântica, a um custo de R$ 3,4 milhões, segundo a concessionária. O trecho da Avenida Princesa Isabel, que divide os bairros do Leme e Copacabana, ainda não têm previsão para receber as obras.

Sinval Andrade, diretor superintendente da empresa, explica que, antes da Copa do Mundo de 2014, o túnel foi desobstruído, exceto o trecho de Copacabana, que segue sem limpeza desde quando foi construído, em 1971.

— A ideia é devolver o funcionamento pleno do interceptor, reduzindo o nível de trabalho. A limpeza vai dar mais capacidade de absorção para o túnel, o que contribui para evitar enchentes e o fenômeno da língua negra, com saída de sujeira e detritos. Queremos que todas essas estruturas funcionem em sua plenitude antes de novas obras — explica.

O interceptor oceânico começa na Glória e termina em Copacabana, com nove quilômetros de extensão e trechos com diâmetro de até 5,5 metros. Na época, para sua implementação no trecho de Copacabana, a Avenida Atlântica precisou ser duplicada. A intervenção mudou a cara de um dos cartões postais da cidade e era a maior obra de saneamento do Rio até então.

O interceptor capta as águas do Centro, Lapa, Glória, Catete, Flamengo, Botafogo, Humaitá, Urca, Leme, Copacabana, Laranjeiras, Cosme Velho e parte de Santa Teresa. Recentemente, as águas do Rio Carioca deixaram de ser direcionadas para a Unidade de Tratamento (UTR) do Flamengo, e foram desviadas para o interceptor oceânico.

A estrutura funciona como um cinturão que vai da Glória, na altura da Rua do Russel, até a Estação Elevatória do Parafuso, na altura do posto 5 da praia de Copacabana, uma estrutura com vazão de 2 mil litros por segundo. De lá, a água é direcionada para uma segunda elevatória, a André Azevedo, na Rua Francisco Sá, via que liga Copacabana e Ipanema. Por fim, os efluentes são despejados nos emissário submarino de Ipanema, na altura da Rua Teixeira de Melo, avançando quatro quilômetros da orla.

Antes de serem lançados no interceptor oceânico, os efluentes passam por um sistema de gradeamento mecanizado, com caixas de areia e grades que recolhem resíduos na elevatória André Azevedo.

A previsão é de que a operação de limpeza desafogue a estrutura, sobrecarregada pela quantidade de resíduos acumulados durante cinco décadas. Com o canal sem a vazão completa, o esgoto não escorre da maneira devida, e em dias de fortes chuvas, por exemplo, há possibilidade de transbordamento ou do surgimento das línguas negras, como a que é vista frequentemente na praia de Copacabana, na altura da Rua República do Peru.

— A língua negra não tem só esgoto de ligações irregulares retidas, mas também sujeira de rua, restos de borracha de pneus e outros detritos que são levados pela chuva para os bueiros — resume Andrade.

Professor de Recursos Hídricos da Coppe/UFRJ, Paulo Canedo explica que, por conta da falta de estrutura de saneamento da cidade, que ainda registra ligações com despejo irregular de esgoto sanitário, o resíduo se mistura às águas pluviais. Após a limpeza, a estrutura deverá continuar sendo monitorada para que os benefícios sejam mantidos, ressalta o especialista:

— É uma das melhores notícias dos últimos anos. Ambos os esgotos deveriam ser geridos e organizados pela mesma entidade, mas nunca foi assim. Era uma terra de ninguém, com os órgãos responsáveis se eximindo da responsabilidade. Em tese, o cano da prefeitura é pluvial, mas o esgoto doméstico suja o sistema, porque não temos estrutura. É vantajoso para a companhia assumir a limpeza para prevenir transtornos lá na frente.

Para a operação, serão utilizados três caminhões. Um dos veículos vai injetar água em alta pressão para que os detritos acumulados se desprendam do túnel, enquanto o segundo suga, filtra e separa os resíduos, que são depositados num terceiro caminhão com destino ao Centro de Tratamento de Resíduos (CTR) de Seropédica. A água excedente sem resíduos sólidos, por sua vez, é devolvida ao túnel.

O acesso ao interceptor ocorre por meio dos pontos de acesso da estrutura, que ficam no canteiro central da Avenida Atlântica. A Águas do Rio já fez testes no local para garantir o adequado andamento das intervenções. Por conta da dimensão dos veículos, uma das faixas de trânsito da via deve ser interditada durante a operação, com apoio da CET-Rio para desvio de tráfego.

De acordo com a empresa, as intervenções devem acontecer durante a noite, em horários de menor fluxo, para reduzir possíveis transtornos aos moradores e turistas.

— Desde que houve a concessão estamos em contato permanente com a concessionária. As línguas negras sempre foram motivo de muita discussão sobre de quem era a responsabilidade. Vemos a iniciativa com bons olhos, e a expectativa é de que essas ações possam minimizar essas ocorrências desagradáveis — diz Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana.

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