Após mais de 60 mortos em protestos, Colômbia anuncia modernização da polícia

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RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou neste domingo (6) um conjunto de medidas para modernizar o Ministério da Defesa e promover a "transformação integral" da polícia. As mudanças surgem após mais de um mês de protestos em que ao menos 61 pessoas foram mortas, gerando uma série de acusações de violações de direitos humanos por parte dos agentes do Estado.

Em publicações nas redes sociais, Duque prometeu a criação de um novo estatuto disciplinar e de um novo sistema de recebimento de reclamações e denúncias para "alcançar a excelência" no trabalho policial. Sem dar detalhes, o presidente disse ainda que serão implementados "padrões profissionais em questões como uso da força, direitos humanos, serviço ao cidadão e procedimentos policiais".

As mudanças incluem ainda uma revisão nos protocolos para o "uso legítimo da força" —algo que vinha sendo questionado por manifestantes e entidades de defesa dos direitos humanos, que viam excessos na conduta dos agentes deslocados para coibir os protestos.

A própria pasta da Defesa mudará de nome e passará a ser Ministério da Defesa Nacional e Segurança Cidadã. Além disso, os policiais colombianos ganharão um novo uniforme, em cor azul, que, segundo Duque, "transmite empatia, cortesia, tranquilidade e confiança aos cidadãos".

Pelo menos dois civis foram mortos e um policial foi baleado na sexta-feira (4) durante manifestações em Cali, que se tornou o epicentro dos protestos e para onde Duque chegou a enviar tropas do Exército. Segundo autoridades, um grupo de agentes armados tentava impedir o bloqueio de um dos acessos à cidade, a terceira maior do país.

Em comunicado, o comandante da polícia local disse que um de seus homens foi ferido à bala na perna e confirmou a morte de dois civis. O confronto aconteceu em uma área conhecida como Paso del Comercio, onde manifestantes mantêm bloqueio desde 28 de abril, o primeiro dia da atual onda de protestos.

Com essas mortes, o número total de vítimas durante os atos chega a 61, dos quais 59 são civis, de acordo com um levantamento da agência de notícias AFP a partir de fontes oficiais. O Ministério Público colombiano afirma que apenas 20 dessas mortes estão diretamente relacionadas aos protestos. Por sua vez, a ONG Human Rights Watch diz ter recebido denúncias críveis sobre 67 mortes ocorridas desde o início dos protestos, das quais 32 estariam ligadas às manifestações.

Neste domingo (6), a Comissão Interamericana de Direitos Humanos chegou ao país para avaliar a situação e visitará até quinta (10) Bogotá e Cali, duas das cidades mais impactadas pelos protestos.

Representantes do órgão com sede em Washington e ligado à Organização dos Estados Americanos se reunirão com autoridades do governo, entidades civis, coletivos, sindicatos, entre outros, buscando escutar principalmente "as vítimas de violações de direitos humanos e familiares", disse a comissão, em comunicado.

No mês passado, as autoridades colombianas e os líderes dos protestos disseram que chegaram a um "pré-acordo" para encerrar o período de manifestações, mas o governo acabou voltando atrás porque parte das lideranças grevistas se recusa a condenar os bloqueios nas estradas —exigência que o governo considera inegociável.

Segundo a Defesa, há pelo menos 45 pontos em que o bloqueio segue vigente, apesar de o Comitê Nacional de Greve ter retirado grande parte deles em um "gesto de boa vontade". O governo Duque atribui perdas milionárias aos grevistas, além da morte de dois bebês presos em ambulâncias que não conseguiram seguir caminho.

Por sua vez, o Comitê Nacional de Greve exige garantias para a liberdade de manifestações e que o presidente se desculpe pelos excessos da polícia, denunciados por uma série de vídeos amadores publicados nas redes sociais.

Inicialmente, os atos eram contra a reforma tributária proposta pelo presidente. Apesar de ele ter retirado o projeto legislativo, a violenta repressão aos protestos seguiu alimentando o descontentamento. Desde então, os atos se multiplicaram, sem agenda ou direção definida, mas com demandas que exigem um país mais justo e um Estado mais solidário e que garanta vida e segurança.

Em resposta à pressão popular, o governo de Duque já sofreu duas baixas no alto escalão. A primeira foi o chefe das Finanças, Alberto Carrasquilla, que deixou o cargo devido às críticas à proposta de aumentar impostos da classe média. Dias depois, foi a vez da ministra das Relações Exteriores, Claudia Blum.