Após pandemia, cresce número de aves que compartilham casa com seres humanos

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Uma garrafa pet cortada, um vaso de plantas sem uso, uma luminária esquecida. A vida precisa de pouco para chegar. Basta que lhe deem chance. E no Rio chega voando, cantando, com a delicadeza dos pássaros que perderam o medo das pessoas e constroem ninhos urbanos sustentados por garrafas, vasos, caixas de ar-condicionado e o que mais houver.

Metrópole das aves, com 520 espécies registradas, o Rio de Janeiro coleciona incontáveis casos de ninhos urbanos, prova que a conexão entre pessoas e animais floresce, mesmo em tempos sombrios para o ambiente e ainda sob o jugo da pandemia de Covid-19. Biólogos e cariocas amantes das aves acreditam que o isolamento social dos primeiros meses da pandemia acabou por aumentar o número de aves que se sentem à vontade na cidade. O isolamento enfraqueceu, mas muitos pássaros perderam o medo e mantiveram o gosto por compartilhar suas vidas com os humanos, dizem especialistas.

— É maravilhoso ver a conexão entre pessoas e animais, vidas em harmonia. Os ninhos urbanos são um belo símbolo de integração da cidade à floresta. O Rio tem imenso potencial, e não apenas nas matas. Mas também em pequenos parques e praças, ruas arborizadas — afirma Henrique Rajão, professor de Biologia da PUC-Rio, um dos autores do guia de aves do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A casa do artista plástico Smael Vagner, no Jardim Botânico, tem varanda onde canta o sabiá. Não apenas um, mas uma família inteira, que até a semana passada vivia no ninho tecido sobre um vaso de plantas sem uso.

Os sabiás estão entre os maiores construtores de ninhos urbanos, diz Rajão. Muitas das 520 espécies da cidade são raras ou fazem seus ninhos na mata ou nas ilhas oceânicas. Mas há um número considerável daquelas que resolveram criar a família junto do ser humano.

Entre as mais comuns estão a onipresente rolinha-caldo-de-feijão, o sanhaço-do-barranco, o sanhaço-do coqueiro, o sabiá-laranjeira, o sabiá-barranco, a cambaxirra, o gibão-de-couro, o bem-te-vi-rajado, a tiriba, a andorinha-pequena-de-casa, o bacurau-da-telha e o tico-tico.

A primavera se despede, mas o período de reprodução das aves na Mata Atlântica é mais generoso do que apenas uma estação. Segundo Rajão, vai normalmente de junho até fevereiro. E algumas aves, como as rolinhas, podem se reproduzir o ano todo.

Na Rua São Clemente, em Botafogo, uma rolinha montou residência dentro de uma garrafa pet cortada que serve de vaso de plantas numa varanda de condomínio. Terminou seu ninho em meio às flores e passa os dias ali à espera da eclosão de seu ovinho. Perto dali, na Rua Voluntários da Pátria, uma cambaxirra fez de casa a luminária de uma varanda térrea.

Um dos construtores de ninhos urbanos mais comuns é o sanhaço-do-coqueiro. Rajão diz que esse passarinho verde adora fazer ninhos em caixa de ar-condicionado. Basta um espacinho para este sanhaço, que mede 17cm e pesa cerca de 30 gramas, se sentir literalmente em casa.

Outro com particular predileção pelos buracos de instalação de ar-condicionado é o bem-te-vi-rajado. Mais discretas, as andorinhas gostam dos espaços estreitos entre os prédios, tubulações, muros de contenção. O tico-tico procura muros cobertos por hera para construir e esconder seu ninho.

Os pássaros também oferecem companhia. O designer gráfico Sérgio de Carvalho Filgueiras mora com a mulher, a filha e dois gatos num apartamento na Rua Maria Angélica, no Jardim Botânico, e diz que as aves fizeram sua vida melhor durante o auge da pandemia em 2020. Cariocas como Filgueiras dão vida à sabedoria de Riobaldo, o protagonista de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa: “Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação.”

— A pandemia nos ensinou a prestar mais atenção à nossa volta e a valorizar vida. Estamos mais atentos, e as aves, mais confiantes. Um ninho é um presente — diz o designer gráfico.

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