Após passar por ansiedade e frustração, Débora Nascimento diz: 'Sairei disso tudo muito mais forte como mulher'

Marcelle Carvalho / fotos: Glin + Mira / Styling: Samantha Szczerb / Beleza: Titto Vidal / Agradecimento: Le Chateaux Joá
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Cabelo ao vento, pés descalços e figurino básico. A exuberância de Débora Nascimento está nela mesma. Do alto de seu 1,78m, a atriz preza pela simplicidade, traduzida, inclusive, na escolha das roupas e acessórios para este ensaio da Canal Extra. Menos é mais para a bela, que se encaixou perfeitamente no universo sem luxo de Taís, sua personagem em “Flor do Caribe”. A reprise da trama no horário das seis, aliás, traz as melhores lembranças a Débora, que quase pode sentir novamente a quentura de Natal, no Rio Grande do Norte, onde começaram as primeiras gravações da novela, há sete anos.

— É um Nordeste surpreendente. O calor, o sol, o clima, tudo é diferente. E Taís é leve, sorridente, supersolar, colorida. Olha, foi uma viagem de trabalho deliciosa. Somos amigos, conversamos bastante até hoje. Grazi (Massafera), Igor (Rickli), Rafael (Viana), Henri (Castelli), a gente se chama de irmão toda vez que se vê. Gisela (Alves) é uma das minhas melhores amigas. Nas folgas, íamos experimentando a cidade, fazendo passeios turísticos pela região. E voltamos para o Rio, para gravarmos nos Estúdios Globo, com aquela cor maravilhosa, com cheiro de sal e sol — poetiza a atriz, de 35 anos .

Animada com a recordação, a artista que viveu uma guia turística na história de Walther Negrão, ao mesmo tempo em que tinha que saber de cor e salteado os pontos exuberantes para mostrar aos visitantes da cidade, surpreendia-se na vida real por estar conhecendo os lugares pela primera vez.

— Inesquecíveis foram os passeios de buggy nas dunas de Genipabu, nas falésias da Praia do Amor, na Praia da Pipa, e nos barcos dos locais, que servem almoço na própria embarcação. E, claro, as conversas com o povo dali. Super recomendo — diz a atriz, que, revivendo a função de sua personagem, aponta os cinco pontos turísticos no Rio de Janeiro que mais aprecia: — O MAR (Museu de Arte do Rio), o Parque Lage... Gosto de subir a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita, além de pedalar na orla até a Praia de Grumari.

Curiosamente, ao encorporar a profissional do turismo, que tinha em um buggy seu instrumento de trabalho, Débora entrou em contato com uma de suas angtigas paixões.

— Adoro dirigir, pegar a estrada, sentir o motor do carro... É uma sensação de liberdade, independência... Já tinha isso desde os 18 anos, quando tirei carteira. E eu dirijo bem, tá? Sempre me coloco à disposição para pegar o volante, dirijo à noite... — conta ela, surpreendendo com uma revelação: — Houve um momento na minha adolescencia, lá pelos anos 2000, que eu era aficionada por carro modificado, tunado. Eu tunei meu primeiro carro. Coloquei saia, cortei mola... Quem me vê nem imagina que tive esse passado (risos). Eu era uma menina, que havia conseguido comprar o automóvel com o próprio dinheiro. Brinquei de casinha com o carro. Montei as pecinhas dele e foi maravilhoso. Eu andava na maior marra, passando em lombada de lado... E não era cafona não, era tudo black, pretinho. Comprei rodas bonitas, gastava com essas coisas, veja só isso (risos).

A empolgação na voz da moça é nítida. Ela conta que, antes de pegar o buggy, carro em que andou pela primeira vez na novela, bateu um papo com os donos para entender as especificidades.

— O motor de cada carro tem suas particularidades, então, conversei com os proprietários, dirigi antes das gravaçoes para sentir a embreagem, o ponto de aceleração, a potência, o volante... — relembra a atriz, deixando a repórter cada vez mais admirada com a propriedade com que ela discorre sobre o assunto automobilístico.

Débora, porém, apressa-se em dizer que não é expert em mecânica, apesar de perceber quando há um barulho ou um balanço diferente no veículo.

— Quando acontece isso, já paro para ver se é pneu, se o carro está desalinhado... Já troquei pneu sozinha... Não entendo de mecânica, mas não sou totalmente leiga. Houve uma vez de eu ter um familiar no hospital e, agoniada, indo pra lá, acabei colocando gasolina num carro a diesel. Mas estava com a cabeça completamente em outro lugar. O básico de sentir a máquina que está ali na minha mão eu sei. Mecânico não passa a perna em mim — garante.

O mesmo não se pode dizer do destino que, ano passado, deu uma pernada na atriz. No susto, ela viu a engrenagem de seu casamento com o ator José Loreto se desalinhar em meio à especulação de que ele teria tido um caso com uma colega de trabalho. O fim da união deixou a artista totalmente exposta e, hoje em dia, ela rechaça qualquer tipo de indagação sobre o acontecido.

— Prefiro evitar esses comentários. O que importa mesmo é o que quero mostrar, meus trabalhos, que são momentos positivos e amorosos que estou ofertando para o mundo — corta Débora, referindo-se, além da reprise da novela, ao filme “Pacificado” e ao projeto “Amor de quarentena”, uma produção via WhatsApp junto dos atores Reynaldo Gianecchini, Mariana Ximenes e Jonathan Azevedo (adquirindo o ingresso através do www.amordequarentena.com, a pessoa recebe por 13 dias seguidos mensagens amorosas de texto, voz, fotos, vídeos e canções produzidas pelo ator escolhido):

— É lindo demais, tive um feedback positivo. É o doar, emprestar sua voz, seu tempo, sua energia para uma escolha íntima da pessoa. O aplicativo que traz essa interação é uma ferramenta pessoal. E essas sensações, essa troca também acontece em um momento particular para nós. A pessoa escolhe ouvir nossa emoção nesse período, durante uma pandemia.

Fato é que, mesmo procurando sobrepor seus projetos à exposição de sua separação conturbada, a reprise de “Flor do Caribe” traz à memória do público uma época em que os dois eram um casal. Afinal, Loreto dá vida a Candinho na trama e, em determinado momento, seus personagens se interessam um pelo outro. Ainda este ano, eles apareceram também na reexibição de “Avenida Brasil’’, no “Vale a pena ver de novo”, justamente a novela “cupido” dos atores, em que levaram a paixão de Darkson e Tessália para fora da ficção:

— Procuro ficar o mais reservada possível. Mas entendo a curiosidade das pessoas, que é inerente do ser humano. Mas, quando chega no limite em que a pessoa presta mais atenção na vida do outro do que na sua própria, isso fala muito mais sobre a história dela do que sobre a minha. Aprendi, ao longo dos anos, que o julgamento alheio se trata muito mais da outra pessoa do que de mim. O que se refere a mim, só os meus íntimos sabem — afirma a mãe de Bella, de 2 anos, que ainda tem em seu Instagram fotos românticas com o pai de sua filha.

Os cuidados com a menina, aliás, são divididos entre o ex-casal. A atriz, inclusive, acha graça ao ver Bella reconhecendo os dois na televisão:

— Ela começou a identificar agora. Já coloquei cena para Bella ver e ela fica olhando, acha graça... Mas ela não é muito de TV, celular, tablet... Quando vê, é pouquinho tempo, não chega a meia hora.

As reprises, no entanto, tiveram um outro efeito sobre a atriz, que está solteira desde o fim de seu namoro com o médico Luiz Perez, em agosto. Ela conta que no momento em que estava olhando para dentro de si, acabou revendo seu processo criativo. E assistir a esses trabalhos fez com que enxergasse uma Débora que não é mais a mesma.

— “Avenida Brasil” mudou minha vida profissional e pessoal; “Flor do Caribe” fez com que as pessoas vissem que eu havia chegado para ficar; e “Êta mundo bom!” me deu minha primeira protagonista. Lembro de cada momento que vivi nesses trabalhos, a fase que estava passando na vida. Mas hoje olho para cada uma delas e percebo que não sou mais aquela mulher e artista que estavam ali. É um arquivo confidencial de mim — analisa ela, que não gosta quando a colocam em outro patamar por conta da profissão: — Os artistas, muitas vezes, são vistos como pessoas diferentes, especiais. Só que não. Tenho muitas falhas e qualidades como todo mundo. A diferença é que as pessoas veem mais meu trabalho. Mas quero sempre mostrar que sou uma mulher normal, choro, fico feliz, tenho problemas, pago contas, erro, acerto e aprendo. Não sou perfeita.

Aliás, o isolamento social devido à pandemia mexeu profundamente com Débora. Fazendo uma autoanálise, a paulista de Suzano diz ter vivido uma montanha russa de sensações.

— Passei por momentos de ansiedade, de frustração, de reconexão. Sou uma pessoa que transborda, que sente tudo. Então, entrei em contato com o que não queria entrar, abri gavetinhas que não queria e, a partir daí, entendi por que aquela gavetinha estava fechada, por que me coloquei em situações e relações que não me faziam bem... Isso é importante para o autoconhecimento. Mergulhei profundamente em mim e, realmente, sairei muito mais forte como mulher, artista e mãe. Afinal, o tempo, a dedicação e o olhar que tive que dar a minha filha foram outros — avalia Débora: — Como profissional, aproveitei para estudar mais, voltei a aprender violão. Estou pintando também, escrevendo... Projetos estão acontecendo! Está sendo um ano de certa forma produtivo, porém, nada fácil. Não tem como falar que se está plenamente feliz vendo tudo o que está acontecendo, principalmente, no nosso país.