Após pedido de Boulos, Justiça determina retirada de vídeo com acusação citada por Russomano

PAULA SOPRANA E WÁLTER NUNES
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Guilherme Boulos (PSOL) e Celso Russomanno (Republicanos) - Foto: Getty Images/Câmara dos Deputados/Montagem
Guilherme Boulos (PSOL) e Celso Russomanno (Republicanos) - Foto: Getty Images/Câmara dos Deputados/Montagem

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O juiz eleitoral Emílio Migliano Neto acolheu reclamação da candidatura de Guilherme Boulos (PSOL) e determinou ao Google Brasil a imediata retirada de vídeo em que Osvaldo Eustáquio faz acusações contra a campanha do candidato do PSOL. A publicação feita na internet foi citada por Celso Russomanno (Republicanos) durante o debate dos candidatos à Prefeitura de São Paulo nesta quarta-feira (11) realizado por Folha de S.Paulo e UOL.

O vídeo que diz revelar o "laranjal de Boulos" é de Oswaldo Eustáquio, blogueiro apoiador de Jair Bolsonaro (sem partido) que foi preso em junho e que é investigado em inquérito do STF que apura a articulação de atos antidemocráticos.

"O laranjal de Boulos: PSOL utiliza empresas fantasmas para lavar dinheiro na corrida eleitoral em SP" foi publicado no canal de Eustáquio no YouTube, que conta com 361 mil inscritos.

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Durante o debate, Russomanno questionou Boulos três vezes sobre a existência de duas empresas cujos gastos estão registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral): a Filmes de Vagabundo, uma produtora audiovisual independente, e a Kyrion Consultoria e Análise em Comunicação, que faz acompanhamento de pesquisas quantitativas e qualitativas.

Ambas estão nos relatórios de despesa do candidato e, juntas, totalizam gastos de R$ 528.000 (a Kyrion representa o maior dispêndio da campanha, de R$ 500 mil).

A defesa psolista diz que as empresas existem, mas justifica que o endereço de uma delas mudou e não foi atualizado na Junta Comercial e que o contrato com a outra permite a prestação remota de serviço, em razão da pandemia de Covid0-19.

"A fake news lançada por Celso Russomanno comprova, de uma vez por todas, que o gabinete do ódio de Bolsonaro quer espalhar mentiras e influenciar no resultado das eleições. A nossa campanha vai tomar as medidas jurídicas cabíveis", disse o PSOL em nota.

No debate pela manhã, Russomano afirmou que, vendo a prestação de contas do Boulos, havia encontrado a "Kirion Vagabundo Limitada, que não está no endereço certo". "Ou seja, é empresa que o senhor deu de R$ 24 mil a R$ 28 mil, e a empresa não se encontra no local, é fantasma."

Ele disse que isso estava circulando em "redes sociais", sem especificar o canal de origem.

"Celso, eu desconheço essa reportagem, é do seu site? Do seu programa? Precisa dizer de onde tira as coisas. Você colocou nas redes sociais e veio fazer pegadinha em debate?", respondeu o candidato do PSOL.

Quando entrou no estúdio do debate, às 10h, Russomanno já tinha a informação de que as empresas não funcionavam no endereço indicado e que Eustáquio iria publicar um vídeo a respeito disso. Durante o debate, Russomanno leu a informação ao vivo.

O vídeo de Eustáquio era conhecido pela campanha de Russomanno desde o dia anterior. As suspeitas sobre Boulos foram informadas à equipe do Republicanos na terça (10) pela manhã, quando a campanha deu início a uma investigação própria. Por meio de bolsonaristas que integram a base de apoio a Russomanno, a informação chegou também a Eustáquio, que fez a gravação naquele dia.

A ação de divulgação por Eustáquio durante o debate, quando Russomanno mencionou o tema, e Boulos não tinha acesso à internet, foi coordenada. A reportagem foi postada pelo blogueiro no Twitter às 11h02, com um link para o material no YouTube. Pouco antes, às 10h50, o vídeo começara a ser distribuído em grupos bolsonaristas no WhatsApp.

A base de eleitores bolsonaristas, além de circular o vídeo, passou a incentivar a hashtag "laranjal do Boulos", que ficou entre as mais citadas no Twitter ao longo do dia.

Segundo auxiliares da campanha do Republicanos, nesta quarta (11), o próprio Russomanno foi ao endereço das empresas, como disse que faria no debate. O vídeo da sua visita ainda será divulgado.

A descrição do conteúdo diz que o "núcleo de jornalismo investigativo de Oswaldo Eustáquio descobriu o laranjal de Boulos em São Paulo" e que "uma empresa foi aberta apenas para receber R$ 500 mil e desviar o dinheiro público".

No vídeo, Eustáquio vai à rua Marquesa de Santos, na Vila Dom Pedro I, onde afirma que "deveria funcionar a Vagabundos Filmes" (o nome correto da produtora é Filmes de Vagabundo). Esse endereço é um dos dois já registrados no nome da produtora na Junta Comercial de São Paulo.

Ao conversar com um morador da casa, Eustáquio questiona se ali funciona a produtora. O interlocutor, Adilson, diz residir no local há um ano e trabalhar em um restaurante de comida japonesa.

"O que acha de uma produtora que ganha R$ 28 mil para nem ter o endereço, você acha justo isso com teu dinheiro?", questiona.

Em um segundo momento, Eustáquio vai a um bar, que fica ao lado da casa, e pergunta ao atendente se ele presenciou alguém fazendo campanha para Boulos no local. Ele aborda pessoas na rua dizendo "Produtora dos Vagabundos".

Além da Kyrion e da Filmes de Vagabundo, Eustáquio também cita em seu vídeo a Einsten Tecnologia, cujo gasto pela campanha foi de R$ 113.500.

"A empresa não funciona no local. O senhor Marcos Quintanilha nos recebeu com muito respeito e disse que apenas emprestou o endereço fiscal ao seu amigo, que estava morando no exterior quando abriu a empresa para o laranjal de Boulos", afirmou.

A reportagem foi ao locais citados por Eustáquio. Um dos endereços da Filmes de Vagabundo registrados na Junta Comercial de São Paulo fica na rua Martins Fontes, no Centro da capital paulista. Ninguém atendeu o interfone.

O porteiro, que trabalha no local há seis anos, afirmou que já chegou correspondência para a produtora, mas que não conhece Amina Jorge, que é sócia da Filmes de Vagabundo.

Já na casa do endereço da Marquesa de Santos, na Vila Dom Pedro I, que também consta como um registro arquivado na Junta Comercial, ninguém atendeu.

No endereço que consta como sendo da sede da empresa Kyrion Consultoria e Análise em Comunicação, no bairro Vila Pirajussara, dois homens que não quiseram se identificar disseram que a Kyrion foi registrada lá, mas havia mudado de endereço.

A reportagem foi também nos endereços que constam na ficha cadastral da empresa na Junta Comercial como sendo as residências de Marcelo Vasques de Campos Araujo e seu sócio, Roberto Vasques de Campos Araujo. Nos dois locais, a informação foi de que eles não moravam mais naqueles imóveis.

A campanha de Boulos afirma que a Filmes de Vagabundo pertence à cineasta Amina Jorge, diretora de audiovisual da comunicação digital da campanha. Segundo a campanha, ela trabalha como freelancer e o valor de R$ 28 mil diz respeito à sua remuneração por todo o período eleitoral.

A produtora lançou seu primeiro longa metragem há quatro anos. O filme, coproduzido pelo Canal Brasil, ganhou em um prêmio no Festival de Cinema de Gramado.

"Como muitos profissionais que trabalham como freelancer, ela registrou a empresa, em 11 de setembro de 2018, em seu endereço residencial, como consta no CNPJ: rua Marquesa de Santos, número 253, casa 3. Em dezembro de 2018, ela mudou de residência e não atualizou o novo endereço jurídico na Junta Comercial", diz o PSOL.

Sobre a Kyrion, a campanha afirma que foi fundada em maio de 2020 com sede administrativa na rua Caxingui, no Butantã.

"O contrato entre a campanha e a Kyrion permite que, por razão da pandemia de Covid-19, os serviços sejam prestados remotamente pela equipe, razão pela qual não há atividade de campanha na sede administrativa da empresa."

O PSOL diz que um dos sócios da Kyrion é Beto Vasques, que trabalha há 20 anos com comunicação política. "Até março de 2020, Vasques morava e trabalhava com comunicação digital na Espanha, onde também tem cidadania", afirma.