Após pedido de prisão da Interpol, Justiça libanesa quer convocar Ghosn a depor

O Globo, com agências internacionais

BEIRUTE - A justiça do Líbano quer convocar Carlos Ghosn após receber uma ordem de prisão emitida pela Interpol contra o ex-titã da indústria automobilistica, que fugiu do Japão onde foi acusado de peculato financeiro, disse uma fonte judicial à AFP nesta sexta-feira.

As autoridades libanesas anunciaram que o ex-presidente da aliança Nissan-Renault entrou no país "legalmente" na segunda-feira e lembraram que não há acordo de extradição com o Japão.

Na quinta-feira, o governo disse ter recebido uma ação judicial da Interpol e, conforme o procedimento exige, Ghosn será convocado na próxima semana disse uma fonte judicial à AFP.

"A justiça libanesa é obrigada a ouvi-lo. Mas você pode decidir se deseja detê-lo ou libertá-lo", disse a fonte, explicando que Ghosn poderia ser convocado terça ou quarta-feira.

Ghosn, que se tornou o empresário mais bem pago do Japão, foi preso em Tóquio em novembro de 2018, e deve começar a ser julgado este ano. Depois de passar um total de 130 dias na prisão, ele cumpria prisão domiciliar.

O ex-executivo deve conceder uma entrevista coletiva na próxima semana, em Beirute, segundo sua assessoria de imprensa, para falar das circunstâncias de sua fuga do Japão.

A Interpol não emite mandados de prisão e não pode iniciar investigações ou acusações, mas seus avisos de busca internacional são baseados em mandados de prisão emitidos por um país.

Advogados entram com processo contra Ghosn

Se Ghosn pensou que estaria seguro no Líbano, ele pode ter se enganado. De acordo com o jornal The Washington Post, na quinta-feira, um grupo de advogados abriu um processo contra Ghosn por ele ter visitado Israel quando presidia as montadoras Nissan e Renault, o que constitui um crime, segundo as leis locais que proíbem os cidadãos de interagir com os israelenses. Os dois países estão em estado de guerra nos últimos 60 anos.

O jornal americano aponta que isso poderia colocá-lo em uma posição mais difícil do que qualquer acusação de peculato ou irregularidade financeira, que é a norma entre as elites na sociedade profundamente corrupta do Líbano.

"Colaborar com o inimigo é considerado uma ofensa potencialmente mais séria do que as acusações que o ex-executivo da Nissan-Renault estava enfrentando quando saiu do Japão no início desta semana e desembarcou em Beirute, esperando uma recepção calorosa", acrescenta o Washington Post.

Se for considerado culpado, o brasileiro Ghosn, que também possui nacionalidades libanesa e francesa, pode enfrentar uma pena de prisão de até 15 anos no Líbano, segundo autoridades judiciais.

Diante disso, acrescenta o jornal, a narrativa predominante de que Ghosn é um herói no Líbano, um filho nativo que partiu para o mundo e fez fortuna, parece prestes a sofrer um grande estrago.

- Se ele acha que realmente pode estar protegido aqui, isso não vai acontecer, porque, segundo a lei libanesa, ele visitou Israel, que é um estado inimigo - explicou Mohammed Obeid, analista político libanês ao Washington Post. - Primeiro, ele é corrupto e, segundo, é um traidor. Então, como ele pode ser um herói libanês? - perguntou. - Talvez ele seja popular com alguns de seus amigos, mas para a maioria dos libaneses ele é um traidor.

Fotografias circularam nas mídias sociais, mostrando-o se encontrando com o então presidente israelense Shimon Peres e o então primeiro-ministro Ehud Olmert durante uma visita que fez em 2008 para selar um acordo entre Renault e Israel para produzir carros elétricos.

As fotografias têm mais de 10 anos, no entanto, e sob o estatuto de limitações do Líbano, essas visitas não podem ser alvo de processos. Os advogados, no entanto, alegam que Ghosn visitou Israel mais recentemente e agora cabe ao judiciário libanês investigar se isso é verdade, disse o promotor público Ghassan Oweidat.