Após período de queda no Rio, mortes durante roubos sobem em outubro no estado do Rio

O latrocínio — crime em que a vítima é morta durante um roubo ou uma tentativa de assalto — vinha apresentando, até setembro deste ano, trajetória de queda no Estado do Rio. Nos nove primeiros meses de 2022, foram 40 registros, média de aproximadamente um por semana. O número é quase metade das 78 ocorrências do mesmo período do ano passado e o menor desde 2003, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Em outubro, porém, o índice deu um salto: chegou a 11 casos registrados na Polícia Civil até esta quarta-feira, cerca de um a cada dois dias e meio, em média.

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Apenas entre a noite de terça-feira e a madrugada de ontem, bandidos mataram duas pessoas durante assaltos na mesma altura da Avenida Brasil, em Bonsucesso, na Zona Norte. Por volta das 22h do dia 25, o subtenente Deilson Santiago Rodrigues, de 51 anos, foi morto ao reagir a uma tentativa de roubo. O policial chegou a ser socorrido e levado para o Hospital Federal de Bonsucesso, mas não resistiu aos ferimentos.

Um suspeito de envolvimento no crime deu entrada ferido na mesma unidade de saúde e também teria morrido. Um carregador e munições foram apreendidas com ele. A ocorrência foi encaminhada para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC).

Deilson Santiago era lotado na Diretoria Geral de Pessoal (DGP) e encontrava-se adido, ou seja, era um policial da ativa, que continuava recebendo vencimentos, mas estava afastado do expediente. Ele ingressou na corporação em 1997.

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Sobrinho do subtenente, o estudante de Direito Igor Rodrigues usou as redes sociais para se lamentar sobre o ocorrido com Deilson Santiago. Em uma postagem no Instagram, o jovem escreveu que essa foi uma das piores perdas de sua vida.

“Foi um privilégio ter você em minha vida, meu tio, padrinho e pai. Sim, você foi meu pai. Foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Quem vai me levar pra pescar? Quem vai ficar até de madrugada vendo satélites e planetas comigo? Quem vai brincar de jiu-jítsu comigo? Te amo infinitamente, não consigo mensurar a dor que estou sentindo”, escreveu o sobrinho.

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Pouco depois das 5h desta quarta-feira, o motorista de caminhão Jean Lucas Benjamin de Oliveira Alves, de 31 anos, foi morto durante uma tentativa de roubo de carga. Após ser baleado, ele perdeu o controle do veículo, que colidiu com uma mureta da Avenida Brasil. O motorista foi arremessado para fora do caminhão, que só parou 400 metros adiante.

— Ele trabalhava como motorista desde sempre. Era o último (de um comboio) de três caminhões. Hoje não havia escolta, mas normalmente tem quando a gente vem do Porto. Os outros motoristas perceberam que ele desapareceu no retrovisor, e ficaram sabendo quando alguém no trânsito avisou. Ele saiu de Resende e vinha para o Rio. Antigamente podíamos sair de madrugada e chegar com o caminhão aqui, hoje não podemos mais — revelou um amigo, que pediu para não ser identificado.

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Segundo o amigo de Jean Lucas, o caminhão transportava peças para ônibus. O veículo ficou com pelo menos 15 marcas de tiros.

— Chassi de caminhão, lataria de carro, não têm valia nenhuma, mas os criminosos não sabem disso. Eu mesmo já fui sequestrado duas vezes. Aqui no Rio, todas as cargas são visadas. Quando é baú ou contêiner, abordam. A gente fica triste pela situação e com medo. Não sabemos se vamos voltar para casa. Vou sair ainda hoje com um caminhão e não sei como vai ser — lamentou ele.

Ainda de acordo com o amigo, a viúva da vítima passou mal e foi para o hospital depois de saber da morte. Os pais de Jean Lucas também se sentiram mal após a notícia e precisaram de socorro. Ele deixa um filho de 1 ano.

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Outro caminhoneiro disse que sai de casa aterrorizado e pediu aumento do policiamento na Avenida Brasil:

— Recebemos uma notícia dessas, uma notícia triste. Perdemos mais um irmão de profissão, mais um amigo. Não aguentamos mais. Era um cara do bem, trabalhador, que não media esforços pra ajudar os outros. A gente pede aqui encarecidamente socorro.

No fim da tarde desta quarta-feira, caminhoneiros fizeram um protesto na Avenida Brasil com pedidos de paz.

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Dos 11 casos registrados em outubro, seis ocorreram na capital. Um deles foi o da atriz Eliane Lorett de Campos, de 58 anos. Bandidos tentaram roubar seu carro na noite de 5 de outubro, em Marechal Hermes, na Zona Norte. Ontem, o Ministério Público do Rio (MPRJ) informou ter denunciado pelo crime, no dia 18, Ely Luiz da Silva, de 20 anos, conhecido como Di Racinha. Ele estava com um adolescente no momento do crime.

Na denúncia encaminhada à Vara Criminal de Madureira, o MPRJ pede reparação por danos causados aos parentes da vítima e manutenção da prisão preventiva de Ely. A dupla abordou Eliane, que acelerou o veículo. O menor de idade, armado, fez o disparo que matou a atriz. Os dois saíram do local sem levar o carro nem qualquer outro pertence. Ely foi denunciado por latrocínio e corrupção de menores.

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Outro motorista foi vítima de latrocínio na madrugada do último domingo. O empresário Alexandre Pinheiro Ignez, de 37 anos, foi morto a tiros quando saía de uma casa de shows no Flamengo, Zona Sul do Rio. Ele estava em seu carro, um BMW, quando foi abordado pelos criminosos. A vítima levou um tiro no peito, chegou a ser levada para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, mas não resistiu aos ferimentos.

Na terça-feira, policiais da 82ª DP (Maricá) prenderam um dos acusados de participação na tentativa de latrocínio contra Marcelo Delaroli, prefeito de Itaboraí. Ontem, mais dois suspeitos foram detidos por agentes do Segurança Presente. A dupla estava no carro usado na tentativa de assalto e não apresentou documentos do veículo — que consta como roubado no sistema da polícia. Delaroli e integrantes da sua equipe não ficaram feridos no crime ocorrido no último sábado, na rodovia RJ-114.

Colaboraram Felipe Grinberg e Leonardo Nogueira