Após primeiro caso confirmado de varíola dos macacos no Brasil, médicos reforçam que não é preciso ter pânico

O primeiro caso de varíola dos macacos no Brasil foi identificado ontem, em um paciente na cidade de São Paulo. Trata-se de um homem de 41 anos que veio da Espanha e está em isolamento no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na capital paulista. Fontes ligadas ao Palácio dos Bandeirantes confirmaram o diagnóstico. Segundo o infectologista Julio Croda, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), a doença tem baixa taxa de contágio e baixa letalidade. Para que a transmissão ocorra, explica, é preciso ter uma exposição prolongada, com contato íntimo ou muito próximo.

— É totalmente diferente da Covid-19. As medidas de isolamento são muito mais efetivas, a chance de controlar a doença é maior e seu impacto potencial é muito menor — diz o infectologista.

A infecção é semelhante à varíola humana (smallpox) — única doença erradicada no mundo —, mas muito mais leve. Para fator de comparação, a taxa de mortalidade da varíola era de 30% enquanto para a varíola dos macacos varia de 1% a 10%.

Em nota, a secretaria de Saúde do estado de São Paulo diz que as amostras do paciente ainda estão em análise pelo Instituto Adolfo Lutz, referência em sequenciamento genômico. A secretaria diz que o paciente teve dor no corpo e febre, em 28 de maio, mas não forneceu mais informações sobre seu estado de saúde, sua viagens prévias nem rastreio de contatos.

Para Croda, a chegada da doença ao país não traz nenhuma surpresa.

— Em algum momento, esse vírus seria confirmado no Brasil. Era apenas questão de tempo — diz Croda.

O médico e pesquisador da Fiocruz ressalta que o mais importante para o país, neste momento, é garantir que todos os contatos do paciente infectado sejam rastreados.

— A investigação de contatos deve ser feita quando há suspeita, não após a confirmação. Caso isso não tenha acontecido, é preciso fazer a busca ativa dessas pessoas, investigar a presença de sintomas suspeitos e, se necessário, isolá-las e coletar material para a confirmação — explica.

O secretário da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, afirmou que o laudo laboratorial do paciente internado no Emílio Ribas e de um outro quadro semelhante também na capital paulista devem sair até o fim de semana. Até lá, o infectologista diz que classifica ambos os quadros como “suspeitos”. Gorynchtein explicou que tanto o paciente internado no Emílio Ribas quanto o outro caso suspeito em São Paulo, o de uma mulher, apresentam a mesma sintomatologia: dores no corpo e nas juntas, além de lesões na pele. Ele diz que caso o exame no Adolfo Lutz dê negativo, os casos serão considerados “indeterminados”.

Protocolo da Anvisa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) elaborou uma série de recomendações a serem adotadas nas unidades da saúde do país para lidar com casos suspeitos da varíola dos macacos, a monkeypox. As orientações têm por objetivo prevenir e evitar a propagação da enfermidade. O órgão pede o isolamento de pacientes suspeitos de infecção pela doença e uso de máscaras por quem teve contato com ele.

Os sinais de alerta são dor de cabeça, febre, calafrios, dor de garganta e mal-estar, além de fadiga, lesões na pele com aparência de pústulas arredondadas, e o aumento de tamanho de linfonodos no pescoço. A temperatura de pessoas que tiveram contato com pessoas infectadas deve ser aferida duas vezes ao dia.

Caso haja diagnóstico positivo, a orientação é rastrear e identificar as pessoas, incluindo trabalhadores, que estiveram com o paciente. Uma vez encontradas, elas devem ser monitoradas a cada 24 horas durante 21 dias para verificar a presença de sintomas. É preciso ainda excluir outras doenças, como catapora, sarampo, infecções bacterianas da pele, escabiose, sífilis e alergias.

O atual surto da doença já atingiu cerca de 27 países, com 780 registros confirmados até a última segunda-feira. No Brasil, outros seis casos suspeitos estão em investigação no Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rondônia. Uma das suspeitas, no Ceará, foi descartada.

A varíola dos macacos é uma zoonose silvestre, ou seja, uma doença infecciosa que passa de animais para humanos. Ela é causada pelo vírus homônimo (também chamado de monkeypox) e pertence à família dos orthopoxvírus. Embora o nome remeta aos macacos, os primatas não são os hospedeiros principais. A suspeita é de que os reservatórios primários sejam, na verdade, roedores silvestres africanos.

Existem duas variantes da doença, conhecidas como África Ocidental e África Central. A primeira, associada ao surto atual, é mais leve, com taxa de cerca de 1%. Para a segunda, o índice é de 10%. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a transmissão da doença entre seres humanos não é muito frequente. Ao menos, não era, até o surto atual. Ela ocorre por contato próximo com lesões, fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama.

Risco relativo

Ainda não está claro o que provocou o atual surto mundial. Até o ano passado, era incomum o relato de casos fora da África e quando isso acontecia, em geral estava associado a viagens a países onde a doença é endêmica. “Embora o risco para a saúde humana e para o público em geral continue baixo, o risco para a saúde pública pode ser elevado se o vírus conseguir se estabelecer em países não endêmicos como patógeno humano generalizado”, disse a OMS.

Há duas linhas de prevenção da doença: manter os cuidados pessoais; e a vacina. Dados mostram que os imunizantes utilizados para erradicar a varíola tradicional são até 85% eficazes contra a doença. No Brasil, a imunização de rotina para a varíola cessou em 1973

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