Após pronunciamento sobre coronavírus, base de apoio bolsonarista se isola nos debates nas redes sociais

Alice Cravo
Presidente, Jair Bolsonaro, em pronunciamento sobre novo coronavírus em rede nacional

RIO — O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e televisão nesta terça-feira, quando defendeu o fim do "confinamento em massa" e afirmou que a infecção pelo Covid-19 era uma "gripezinha", evidenciou o isolamento da base de apoio bolsonarista nos debates sobre o novo coronavírus nas redes sociais. O grupo, que já vem perdendo o protagonismo nas discussões desde o início de março, foi responsável por 6% a 8% das interações no Twitter, segundo estudo publicado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV.

O grupo, que acompanha a discussão sobre a pandemia no Brasil desde o início do mês, observou, pela primeira vez, a união de grupos considerados de esquerda e os "não alinhados", caracterizados por um alto engajamento e postagens mais informativas e factuais do que ideológicas. A base de apoio bolsonarista nas redes vem perdendo espaço na discussão geral sobre o coronavírus, tendo tido uma melhor organização no episódio de defesa do deputado federal Eduardo Bolsonaro nas críticas à sua fala sobre a China.

"A reorganização de um grupo unificado entre perfis à esquerda e de outros lados do espectro político acentua a relevância da resposta de diferentes setores da sociedade em oposição ao presidente, inclusive entre antigos apoiadores. Só permanece como mobilizador da base pró-governo o conjunto estável de parlamentares bolsonaristas, influenciadores alinhados a Olavo de Carvalho e os perfis do presidente e de sua família", destaca o estudo.

No total, foram 6 milhões de postagens no Twitter nesta terça-feira sobre o coronavírus e a conjuntura política, maior número registrado pela FGV DAPP desde o começo de março. Entre às 20h30, horário do pronunciamento, e 0h, 3,5 milhões de menções foram registradas, um volume muito grande. A hashtag #ForaBolsonaro chegou a ocupar o primeiro lugar nos trending topics Brasil. No período total de monitoramento, foram 50 milhões de postagens na rede social relacionada à pandemia.

Após o pronunciamento, organizou-se no Twitter um movimento unificado da esquerda à centro-direita de perfis questionando a permanência do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no cargo. Mais de 80% das interações foram articuladas a partir de contas que defendem a renúncia do ministro, que tiveram como principal argumento a questão moral, contrapondo a formação médica do ministro à posição do presidente.

O restante do engajamento foi de grupos pró-Bolsonaro que repercutem positivamente as postagens do ministro, do Ministério da Saúde e iniciativas do governo, defendendo que o país não pode parar.

Youtube

A FGV DAPP acompanhou a evolução das interações do vídeo do pronunciamento no canal TV BrasilGov. Ao todo, foram 3,9 milhões de reproduções até às 12h de quarta-feira, sendo avaliado 529 mil vezes, das quais 175 mil avaliações positivas e 453 mil negativas.