Após relatos de sobra de vacinas, cariocas buscam 'hora da xepa' sem sucesso

JÚLIA BARBON
·4 minuto de leitura

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A agente de saúde Lúcia passou a manhã inteira desta quinta-feira (4) respondendo às mesmas duas perguntas: "Qual vacina contra a Covid-19 vocês estão aplicando? Vão sobrar doses?" A resposta, conta ela atrás da bancada, também é sempre a mesma: não. Essa tem sido sua rotina desde a semana passada, quando surgiram relatos de que pessoas fora dos grupos prioritários estavam sendo vacinadas com doses remanescentes do imunizante da AstraZeneca/Oxford ao fim do dia em unidades de saúde do Rio de Janeiro. É que esse fluido chegou ao Brasil em frascos compostos de dez doses que, se abertos, devem ser consumidos em até seis horas. Se forem deslacrados perto do horário de encerramento do expediente e não aparecerem pacientes preferenciais, portanto, pode haver sobras. Por isso, a Secretaria Municipal de Saúde tem orientado as unidades a usar apenas a Coronavac quando for chegando o fim da tarde. Ela vem em frascos únicos, então não traz esse problema da validade. "A recomendação é clara desde o início. Não é para abrir frasco de dez doses no fim do dia. Se abrir e não tiver gente, é para aplicar em pacientes prioritários em domicílio, idosos ou profissionais de saúde. Não se recomenda aplicar em pessoas fora do grupo, só em último caso", diz à reportagem o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz. Lúcia, que teve o nome trocado para evitar retaliações, conta que já viu gente ficar na frente da clínica municipal João Barros Barreto, em Copacabana, desde as 10h da manhã sem almoçar, esperando a "hora da xepa" da vacina. O serviço vai até as 17h. A funcionária acha que a alta procura é resultado de supostas "fake news" acerca da sobra de imunizantes. Mas as amigas Aline Arruda, 38, e Jully Rocha, 23, dizem que conhecem ao menos cinco colegas que conseguiram de fato receber as doses dessa forma em unidades variadas. "Ouvimos que quando sobrava dose, na 'hora da xepa', eles estavam aplicando no pessoal da área da saúde, mesmo abaixo dos 60 anos. Foram duas veterinárias, uma auxiliar de veterinária, uma estudante de medicina e um médico de 40 anos", afirma Jully, que também estuda medicina. No Rio, a fase atual prevê a vacinação de profissionais da saúde acima dos 60 anos e da linha de frente contra a Covid-19, além dos idosos com 75 anos ou mais. Cada dia corresponde a uma faixa etária; nesta quinta era a vez de quem tem a partir de 92 anos. "Como moro aqui pertinho, não custava nada vir perguntar", diz Aline, que é bombeira e está se especializando em atendimento pré-hospitalar (APH). As duas, porém, ouviram que não havia doses remanescentes. Além do boca a boca, o assunto também apareceu em reportagens dos jornais "O Dia" e "O Globo" na última semana, o que fez outra mulher na casa dos 50 anos que não quis se identificar procurar a clínica Píndaro de Carvalho Rodrigues, na Gávea. "Não está sobrando vacina? Será que eu posso perguntar lá dentro?", questionava ela ao funcionário da entrada. Ao receber a negativa, ela replicou: "Está acontecendo, sim. Meu amigo tomou na semana passada, isso até saiu no jornal". Ali, uma funcionária lhe disse que os frascos da AstraZeneca/Oxford já haviam terminado. Na clínica de Copacabana, Lúcia também afirma que eles acabam rápido porque vêm em menor quantidade. Considerando o Brasil inteiro, foram distribuídas aos estados apenas 2 milhões de doses do imunizante inglês, ante 8,7 milhões da Coronavac. Apesar dos relatos da "xepa da vacinação", a prefeitura do Rio orienta que pessoas que não integram os grupos prioritários não procurem as unidades de saúde. "Na hipótese de ter frasco da Oxford/AstraZeneca aberto, as doses remanescentes devem ser direcionadas a pessoas que façam parte de algum dos demais grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde", reforça a Secretaria Municipal de Saúde. A pasta segue diretriz do Governo do Estado: "Ao final do prazo de abertura do frasco multidose que é de 6 horas, em situações onde haja risco de perda da oportunidade de vacinar, a equipe deverá ofertar a dose criteriosamente aos profissionais que estiverem aptos dentro dos grupos elencados pelo MS", recomenda um ofício enviado aos secretários em 24 de janeiro. Questionado sobre o número de vacinas que eventualmente já "sobraram" ao fim do dia em unidades de saúde, o secretário Daniel Soranz afirma que "não há constatação disso". Ele diz que a prefeitura recebeu três denúncias anônimas de irregularidades, mas até agora elas não foram confirmadas. "As denúncias de imunização fora dos critérios devem ser feitas por meio da ouvidoria da Central 1746 e serão rigorosamente apuradas", informa a pasta.