Após renúncia de premier, Itália terá eleições antecipadas em 25 de setembro

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

Os italianos irão às urnas no dia 25 de setembro para escolher seu próximo governo, confirmou nesta quinta-feira o presidente do país, Sergio Mattarella, após dissolver o Parlamento. A eleição antecipada foi catalisada pela renúncia do primeiro-ministro Mario Draghi, resultado de um processo posto em marcha por ex-aliados de direita que estão bem cotados para assumir o poder em algumas semanas.

Entenda: Após colapso de coalizão governista, primeiro-ministro da Itália renuncia

Alta rotatividade: A cada 14 meses, em média, um novo governo assume na Itália

Em um discurso após reunir-se com os presidentes da Câmara e do Senado, Mattarella disse "ser evidente que não há apoio parlamentar ao governo" e que não havia outra solução além de convocar o pleito antecipado. Draghi continuará interinamente no poder até que um novo governo seja formado — processo que pode se prorrogar por meses após 25 de setembro.

Tecnocrata e ex-presidente do Banco Central Europeu, Draghi foi eleito há 17 meses sob a promessa de promover a recuperação pós-pandemia, destravando o potencial econômico de uma nação cuja dívida pública equivale a 150% do seu Produto Interno Bruto. Para isso, reunia na coalizão todos os principais partidos do país, da esquerda à direita. A exceção era o ultradireitista Irmãos da Itália.

Foi a dissidência de três dos integrantes-chave da frente única que desencadeou o caos político: o Força Itália, de Silvio Berlusconi, a Liga, de Matteo Salvini, e o Movimento Cinco Estrelas (M5S), de Giuseppe Conte.

As legendas de direita lideradas por Berlusconi e Salvini se recusaram na quarta a votar uma moção de confiança para manter Draghi, popular entre os italianos, no poder. Os parlamentares do antissistema M5S se abstiveram, e o trio pôs a pá de cal derradeira em um governo que andava na corda-bamba desde a semana passada, quando o premier chegou a apresentar um pedido de renúncia rechaçado por Mattarella.

Se o M5S anda mal das pernas após perder influência na política e busca reconstruir sua identidade, os outros dois partidos tinham segundas intenções evidentes. São cotados para conseguirem uma maioria na Câmara e no Senado se formarem uma aliança com o Irmãos da Itália, de Giorgia Meloni.

Apesar do alinhamento ideológico, há obstáculos no caminho, a começar pela competitividade entre três líderes notórios por seus egos. Se a eleição fosse hoje, contudo, os números estariam a seu favor.

Roma: Novos hotéis, restaurantes e museus na cidade, que volta a ter voos diretos para o Brasil

Leia também: Itália decreta estado de emergência diante dos impactos da seca

As pesquisas mostram que a legenda ultradireitista teria o apoio de 22,5% dos eleitores, quase cinco vezes mais que os 4,8% obtidos nas eleições gerais de 2018. A Liga e o Força Itália, juntos, têm 22,8%. Os mais de 45% somados quase certamente seriam suficientes para o bloco de direita se consolidar, algo que gera preocupações maciças em Bruxelas.

Parte do clamor popular para que Draghi permanecesse — apenas três em cada dez italianos queriam novas eleições — devia-se ao desejo por estabilidade. Em junho, a inflação no país chegou a 8%, o maior nível desde 1986, cenário complicado pela perspectiva de recessão na Europa.

A necessidade de aprovar reformas para ter acesso aos € 200 bilhões (R$ 1,1 trilhão) do fundo da União Europeia para a retomada pós-pandemia também é um desafio. Foi a confiança em Draghi e na sua ortodoxia política e econômica que fez a Itália pôr as mãos, no ano passado, em uma parcela inicial de € 21 bilhões.

Há quem defenda, contudo, que a percepção de traição ao primeiro-ministro pode custar caro. O líder do Partido Democrático, que aparece nas pesquisas com quase 22% das intenções de voto, argumenta que a campanha “levará os eleitores a entenderem quem foi responsável e quem não foi”.

— Apoiamos Draghi até o fim e tentaremos continuar lutando por seu programa na campanha — disse Enrique Letta.

Todos os planos de reforma na terceira maior economia europeia devem ser escanteados diante da perspectiva de novas eleições, assim como as deliberações sobre o Orçamento italiano para 2023. Sob o comando de um governo guiado por pautas ultradireitistas, as reformas defendidas pelo premier demissionário tornam-se ainda mais improváveis.

Em uma nota pouco após a renúncia do premier demissionário, Salvini já disse que está nos preparativos para que o "futuro governo" implemente medidas como um reforma da Previdência, cortes de impostos e decretos de segurança. À imprensa italiana, Berlusconi disse que está pronto para a campanha.

"Vamos lutar para dar ao povo italiano o que os cidadãos de todas as outras democracias do mundo têm: liberdade para escolher quem os representa", disse Meloni.

A Itália é também um calcanhar de Aquiles para a estratégia europeia frente a Moscou, que tinha em Draghi um de seus homens-fortes. O premier, que chegou a visitar Kiev ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, e do chanceler alemão, Olaf Scholz, mantinha que a Península Itálica deveria continuar fornecendo armas para Kiev, alinhada a Bruxelas.

A política sobre a Ucrânia foi uma das primeiras faíscas para a crise atual, causando o rompimento do M5S. Giuseppe Conte, o ex-premier que lidera o M5S, era contra a posição oficial, defendendo o foco em negociações de paz — posicionamento que fez o chanceler Luigi Di Maio romper com a legenda em junho, abalando o governo.

Em um tuíte, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que está “sinceramente grato” pelo “apoio inabalável” de Draghi a seu país na “luta contra a agressão russa”. Di Maio, por sua vez, expressou preocupação com o futuro:

— Não é coincidência que o governo tenha sido derrubado por duas forças políticas que fazem aceno para Vladimir Putin — disse Di Maio.

Ele referia-se a um temor compartilhado por Bruxelas de que o novo governo italiano seja demasiadamente próximo do líder russo. Salvini é um admirador declarado de Putin, que chegou a se preparar para uma viagem a Moscou em meio a guerra. A visita, contudo, nunca aconteceu.

Berlusconi, por sua vez, desenvolveu uma amizade com o ocupante do Kremlin quando era primeiro-ministro. Os dois, inclusive, chegaram a passar férias juntos.

A dependência italiana da energia russa pode complicar ainda a estratégia comunitária diante de Moscou. Sem usinas nucleares ou carvão, o país importa 70% da energia que consome, e os combustíveis russos representam sozinhos um quinto do consumo italiano. A dependência é ainda maior no que diz respeito ao gás natural: 93% do combustível vêm do exterior.

Bruxelas teme também que a opinião pública em países como a Itália e a Hungria se volte contra as sanções comunitárias contra a Rússia em meio à crise no abastecimento de gás. A Itália, segundo uma pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores, já é a nação do bloco onde menos pessoas consideram a Rússia culpada pela guerra: 56% dos italianos defendem a ideia, bem menos que a média continental de 80%.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos