Após resultado do PIB, analistas revisam projeções e já preveem crescimento de até 5,5% da economia este ano

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SÃO PAULO – A alta do PIB no primeiro trimestre do ano, de 1,2% na comparação com o registrado no quarto trimestre de 2020, foi superior às projeções do mercado e fez com que os analistas revisassem para cima suas projeções de crescimento da economia para este ano.

O otimismo com a retomada, contudo, ainda é modulada devido a incertezas como os efeitos da uma possível terceira onda da pandemia, o ritmo lento de vacinação contra o coronavírus e a crise energética vivenciada pelo país.

Entre os mais otimistas está o banco Goldman Sachs, que revisou sua previsão de crescimento para o PIB do país neste ano de 4,6% para 5,5%, considerando o ritmo da atividade econômica atual.

Em seu relatório, a instituição financeira diz que a estimativa considera que não haverá cortes no fornecimento de energia, uma melhora nas atuais limitações na cadeia de suprimentos (e consequentemente na escassez de matérias-primas) e um maior controle da pandemia a partir do segundo semestre.

“Esperamos que a economia se recupere visivelmente nos próximos trimestres com um (gradual) progresso na vacinação contra o coronavírus, a gradual reabertura da economia, novos estímulos fiscais, recuperação da confiança do consumidor e do empresariado, e termos de troca e cenário externo em geral muito favoráveis”, diz o documento.

O banco, no entanto, afirma também que os fatores positivos devem ser mitigados “pelo aumento das taxas de juros, a inflação alta e ruído e incertezas persistentes no campo político.”

Alessandra Ribeiro, sócia-diretora da área de macroeconomia da Tendências, vê com menos otimismo o cenário para este ano. A consultoria deve revisar sua estimativa de crescimento do PIB para este ano de 4% para 4,2%.

– Temos riscos importantes, como a terceira onda da pandemia, e a incerteza do ritmo de vacinação mais lento. Nosso cenário-base previa em julho ou agosto 40% da população adulta vacinada, mas maio fechou bem abaixo da expectativa – afirma ela.

E acrescentou:

– A maior surpresa no PIB do primeiro trimestre foi a formação bruta de capital fixo, que veio acima do que esperávamos, com 4,6%. Teve um efeito de plataformas de petróleo nestes primeiros meses do ano, mas a performance veio impulsionada por bens de capital, ligados à agropecuária e a transportes, além de construção civil – diz Ribeiro.

Uma aceleração importante da vacinação é importante para que se chegue ao fim do ano com 70% da população adulta vacinada, o que permitiria a imunidade coletiva contra o coronavírus e uma consequente reabertura da economia.

– A crise hídrica deve afetar o custo da energia também. Não esperamos uma crise similar à de 2001, mas teremos uma energia mais cara e riscos de blackouts mais localizados, que limitam crescimento econômico – afirma.

A taxa de desemprego, na avaliação da Tendências, ainda deve oscilar para cima e fechar em 14%, meio ponto percentual acima da registrada em 2020.

– Há geração de postos de trabalho, mas menos do que a quantidade de pessoas que volta a buscar emprego depois da pandemia – diz.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também ampliou sua projeção de alta do PIB (de 3,2% para 3,8%), mas vê com preocupação uma possível retração do consumo das famílias nos próximos trimestres.

– O impacto da segunda onda da pandemia sobre o nível de atividade foi menos acentuado que o da primeira, mas neste trimestre o consumo das famílias já caiu um pouco, 0,1%. Isso mostra que há sim um resultado negativo da pandemia sobre a atividade econômica – diz Fabio Bentes, economista da entidade.

Para ele, a agropecuária salvou o resultado da economia, com alta de 5,7% mas nos serviços o saldo não foi tão positivo (subiu 0,4%). O segmento representa cerca de dois terços da atividade econômica.

– No curto prazo, o setor de serviços até caminhou para frente, mas depende basicamente das condições internas da economia, que não propiciam uma expansão significativa. A taxa de desemprego é elevada, a inflação alta, os juros em ascensão e um quadro muito delicado da pandemia – afirma.

Bentes afirma que o ritmo lento de vacinação deverá pressionar o governo a reeditar novas versões de programas como o auxílio emergencial.

– Será um desafio achar espaço no orçamento para prorrogar os programas de auxílio, mas provavelmente será necessário – ressalta.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o resultado do PIB veio melhor que o esperado, mas muito influenciado pelo bom desempenho do agronegócio e pelos investimentos (formação bruta de capital fixo). Este último, porém, segundo o analista, tende a ser pontual.

– Os investimentos tiveram forte impacto da alta de preços, o que é pontual. Os preços de capital, quando vemos segmentos como construção, máquinas e equipamentos, tiveram alta por fatores como câmbio e dificuldade na obtenção de matéria prima, especialmente aço e minério de ferro. Esse cenário não é sustentável – diz Vale.

A consultoria revisou sua projeção para o PIB de 2021 de 3,2% para 4,1%.

– Temos alguns pontos de preocupação que evitam uma revisão mais otimista. Uma delas é sobre o efeito da terceira onda da pandemia. Por mais que seja parecida com a onda de março e abril, restringirá a atividade econômica. A crise de energia também tende a trazer restrição de demanda, e com a inflação ainda em alta, é possível que a Selic suba para 6,5% ainda neste ano, o que tende a afetar a economia – ressalta.

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