Após saída de Roberto Alvim, classe artística faz reunião no Rio para discutir rumos da Cultura no governo Bolsonaro

Letícia Cardoso
A partir da esquerda: o presidente da APTR, Eduardo Barata, a deputada federal Benedita da Silva, o vereador Reimont e o deputado federal Marcelo Freixo

RIO - Artistas, intelectuais e políticos se reunem neste sábado em Botafogo, na Zona Sul do Rio, para discutir os rumos da Cultura no Brasil após a demissão de Roberto Alvim do governo federal na última sexta-feira. Como o nome de "Encontro Cultura Agora", o evento tem entre as suas pautas o futuro da Secretaria Especial da Cultura, da Funarte e do Prêmio Nacional das Artes (anunciado por Alvim na véspera de sua queda).

A iniciativa foi organizada pela Associação dos Produtores de Teatro (APTR). Presidente da instituição, o produtor cultural Eduardo Barata afirma que Alvim, demitido após fazer um vídeo oficial com referências nazistas, "expressa o que grupo que está no poder pensa".

— O Alvim era o representante de governo. Foi escolhido, porque pensa daquele jeito. Quem entrará em seu lugar poderá até pensar um pouco diferente, mas seus chefes, não. Para nós, da sociedade civil organizada, o grande desafio, e exercício, é a prontidão, a atenção. 24 horas ligado, 24 horas antenados.Legislativo, Judiciário, imprensa, redes sociais, organização, inteligência, diálogo, tolerância e entendimento nas diferenças para barrar as tentativas de autoritarismo, fascismo e agora, até, nazismo — defendeu.

Integrante da diretoria da APTR, a atriz e produtora Gaby de Saboya diz que o objetivo do encontro é lutar pelo fim de direcionamentos ideológicos na área.

— Nossa reivindicação é ter um ministério imparcial, ter políticas públicas voltadas para a cultura sem discriminação, não ter diretrizes porque cultura é uma arte livre.

Presente no evento, a atriz Stella Miranda, defendeu que Alvim só foi demitido porque "exagerou".

— O acontecimento (a declaração do Alvim) foi o estopim que escancarou a posição do governo. Na verdade, como ele conhece a profissão, fez uma encenação perfeita do que é o pensamento de outros integrantes do governo. É o momento dramático. Me sinto impotente. Me sinto ofendida como mulher, como brasileira e como profissional. Temos que ficar atentos porque a coisa pode degringolar de uma maneira incontrolável. — afirmou.

Políticos do Rio de esquerda também estiveram presentes no evento, como os deputados Marcelo Freixo, do PSOL, e Benedita da Silva, do PT.

— Qualquer que seja o secretário que vá para a pasta, ele vai estar enquadrado no mesmo pensamento. Não é possível se alegrar com a demissão do Alvim porque a perseguição vai continuar. Vão acabar com as artes que expressam a escravidão que existiu nesse país e falam das torturas que tiveram nesse país. Eles estão fazendo, via cultura, o marketing deles — afirmou Benedita.