Após se declarar presidente, senadora boliviana se reuniu com militares

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após se declarar presidente da Bolívia nesta terça (12), Jeanine Añez se encontrou com o alto comando militar e da polícia do país, no Palácio Quemado, sede do governo.

Uma fotografia publicada pelo senador Oscar Ortiz Antelo em uma rede social mostra um militar ajeitando a faixa presidencial utilizada pela senadora de oposição.

Imagens divulgadas pela rede de TV boliviana Unitel mostram Añez —já vestindo a faixa presidencial— sentada à mesa com militares, e em seguida cumprimentando o general Williams Kaliman, comandante das Forças Armadas.

Não se sabe o que foi discutido nem quanto tempo durou o encontro.

Em uma entrevista para jornalistas logo em seguida, Añez disse que quer "fortalecer a nossa polícia, que nos demonstraram nestes dias, com o Exército, que trabalhando de maneira conjunta nos dão bons resultados". Ela acrescentou que "a única coisa que os bolivianos querem é viver em paz".

Na tarde desta terça, Añez empossou na sede do governo o novo comandante do Exército, Carlos Orellana Centellas, que substitui Kaliman. Centellas pediu que a população se acalme. "Somos irmãos; informe à Bolívia que as Forças Armadas estarão sempre ao lado do povo", disse.

Embora a Bolívia seja um Estado laico, a cerimônia de posse dos novos comandantes das Forças Armadas contou com um crucifixo e velas ao lado da Constituição.

Em sua primeira entrevista coletiva desde que chegou ao México, o ex-presidente Evo Morales disse que está disposto a voltar à Bolívia para pacificar seu país, "se meu povo pedir". "Vamos voltar cedo ou tarde. Quanto antes melhor para pacificar a Bolívia."

Mais tarde, ele escreveu em uma rede social que legisladores foram "brutalmente reprimidos e impedidos" de entrar na Assembleia Nacional nesta quarta (13). "O golpe racista e facista se afunda na ilegalidade."

Apesar de não ter reunido quórum nem na Câmara de Deputados nem no Senado, a senadora opositora Jeanine Añez, 52, declarou-se presidente da Bolívia na noite de terça (12), ocupando o vácuo de poder deixado pela renúncia de Evo Morales e de seu vice, Álvaro García Linera.

Após a sessão parlamentar, ela caminhou até a sede do Executivo, em La Paz, e disse que "a Bíblia voltou ao palácio [presidencial]".

Evo renunciou no domingo (10), depois de 13 anos no poder, pressionado pela oposição e pelas Forças Armadas, que sugeriram que ele deixasse o poder. Kaliman, que se encontrou com Añez logo após a senadora se declarar presidente interina, foi o responsável por fazer o pronunciamento dos militares.

O líder indígena deixou o país e se exilou no México, que lhe ofereceu asilo político.

Añez prometeu pacificar o país e convocar novas eleições o mais rapidamente possível. Evo classifica sua saída como golpe e diz que foi ilegal a autoproclamação da senadora. "A Bolívia sofre um assalto ao poder do povo", publicou em uma rede social.

Depois de se declarar presidente interina, Añez excluiu ao menos duas mensagens racistas publicadas em sua conta no Twitter.

A primeira, de 14 de abril de 2013, dizia: “Sonho com uma Bolívia livre de ritos satânicos indígenas, a cidade não é para os índios, que saiam daqui para os Andes ou para o chaco [região boliviana]”.

Já a outra mensagem era contra o Ano Novo aymara, etnia chamada por Añez de “satânica”, porque “a Deus ninguém o substitui”.

Ambos os tuítes começaram a circular a partir do fim da tarde desta terça-feira (12).

Em uma mensagem mais recente, ela lamenta a soltura do ex-presidente Lula. "Uma pena que eles gostem de ladrões!!!", escreveu no sábado (9), um dia após a saída do brasileiro da prisão em Curitiba.

Nesta quarta, La Paz foi palco de confrontos violentos entre policiais e militares, e apoiadores leais ao ex-presidente Evo Morales.

Membros das forças de segurança lançaram bombas de gás lacrimogêneo na direção dos manifestantes enquanto um blindado percorria o perímetro da praça de San Francisco, sem efetuar disparos, aparentemente com fins dissuasivos.

Muitos dos apoiadores de Evo vieram de El Alto, reduto do ex-presidente que integra a região metropolitana da capital, e levavam bandeiras dos vários grupos indígenas presentes no país.

As emissoras locais mostraram um grande número de policiais em torno da praça Murillo, no centro de Laz Paz, que pareciam bloquear a entrada de parlamentares do MAS na sede do Congresso.

Entre eles estava Adriana Salvatierra, que foi líder do Senado até renunciar publicamente no sábado, junto com outros membros de seu partido. Ela afirmou a repórteres que sua carta de renúncia não havia sido apresentada à Casa, e que, por isso, continuava no cargo. "Ainda sou senadora", disse.

As manifestações se concentraram em La Paz, Cochabamba, Sucre e Santa Cruz, onde os indígenas bloquearam várias estradas.

Até a terça-feira, os protestos na Bolívia já haviam deixado sete mortos. Na tarde desta quarta, um homem de 20 anos morreu em Montero, no departamento de Santa Cruz, durante um confronto entre apoiadores do MAS e membros do Comitê Cívico antigovernamental da cidade.

A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, defendeu nesta quarta a posse de Jeanine Añez no cargo de presidente interina da Bolívia para "evitar o vazio de poder" e "convocar novas eleições" após a renúncia de Evo.

"A União Europeia apoia uma solução institucional que permita que um governo interino prepare novas eleições", disse durante uma sessão do Parlamento Europeu.

Mogherini também afirmou que o novo pleito seria uma forma de preservar as conquistas do governo de Evo, como a redução da pobreza e a integração dos povos indígenas.

A maioria dos parlamentares deu seu aval ao pedido de novas eleições e ao envio de uma missão eleitoral da UE, mas não houve consenso quanto aos responsáveis pela crise boliviana.

A chancelaria do Reino Unido reconheceu o que chamou de "governo interino" de Añez. "Eleições livres e justas reconstruirão a confiança do povo boliviano na demcoracia", afirmou o órgão em um comunicado.

O Brasil e os EUA reconheceram Añez como presidente interina, assim como o autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó. Já a Argentina, segundo informação de um alto oficial do governo ao jornal Clarín, não a reconhece no cargo por enquanto.

O ministério de Relações Exteriores do Uruguai divulgou comunicado na segunda (11) em que condenou os atos que "forçaram a saída do presidente Evo Morales", que classificou como um golpe de Estado. A pasta não se manifestou desde então.

A chancelaria de Cuba criticou o "golpe de Estado contra o presidente legítimo da Bolívia" no sábado, e desde então, também não se posicionou sobre os últimos acontecimentos.