Após superar abuso sexual, câncer e Covid-19, psicóloga luta para manter projeto social

Regiane Jesus
·4 minuto de leitura

RIO — A vida de Daniela Generoso tem elementos de sobra para uma biografia dramática. A infância foi roubada por abusos sexuais. A adolescência foi marcada por agressões físicas que a fizeram fugir de casa. Provisoriamente, encontrou abrigo em lares vizinhos. Até que um dia, sem ter um teto para acolhê-la, foi para a Rodoviária Novo Rio. Lá, fez amizade com pessoas em situação de rua e, sim, tornou-se uma delas. Dez meses depois, após conhecer o frio e a fome, foi levada para uma obra social religiosa. Não demorou muito para conhecer um príncipe encantado real, com quem se casou. Juntos, venceram até o desequilíbrio emocional causado pelo trauma do corpo violado por um agressor quando tinha 8 anos. O tempo passou.

Após a formação em psicologia, ela criou o Instituto É Possível Sonhar para ajudar vítimas de violência. Quando a bonança parecia, enfim, ter chegado, um câncer de mama tirou a sua paz. No fim do ano passado, a Covid-19 colocou a sua vida mais uma vez à prova. Obstáculos devidamente superados, é hora de conseguir mais uma vitória: manter abertas as portas do seu projeto. Como força é algo que sobra no DNA desta mulher poderosa, de 40 anos, ela mantém acesa a fé de que conseguirá o valor necessário para pagar os custos do espaço localizado em Rocha Miranda. A véspera da Páscoa é tempo de esperança para Daniela.

Amor e fé em prol de uma causa nobre

Seu nome é Daniela Generoso. Mas pode chamá-la de Senhora Superação. A fundadora do Instituto É Possível Sonhar explica de onde vem a sua infinita capacidade de recomeçar.

— O que me faz ficar em pé é a paz de ver os meus filhos dormindo, de saber que tenho o meu marido ao meu lado, é o instituto e é a minha fé em Deus. Tenho certeza de que Ele sempre me resgatou nos momentos mais difíceis da minha vida. Na hora em que coloco a cabeça no travesseiro, converso com Ele e sinto que Ele reafirma que está junto comigo e que tudo não passa de um processo de evolução. Os meus olhos me limitam, me fazem enxergar a dificuldade, mas a minha fé consegue ver a vitória lá na frente — diz a mulher de Jefferson, o pai de Pedro, de 18 anos, e Daniel, de 16.

Nessa caminhada, Jefferson é um incansável companheiro para todas as horas.

— O meu marido sempre diz que estará comigo na alegria e na tristeza, e esta é a mais pura verdade. Até fralda minha, em um momento em que estava muito doente, este homem trocou. Ele é meu companheiro, inclusive no instituto. Jefferson é o responsável por administrar a nossa falta de dinheiro — diverte-se.

O humor dá um breve respiro ao desafio atual, que é grande. O aluguel da sede do projeto social está atrasado. Se a dívida não for quitada até a próxima segunda-feira (dia 5), o imóvel terá que ser devolvido ao dono. Isso é tudo que Daniela precisa impedir. No espaço, ela e outros profissionais voluntários ajudam crianças e mulheres vítimas de violência.

— Não quero ter que entregar as chaves. Seria como ver um sonho indo embora. Mas tenho certeza de que não vou morrer na praia. Sigo lutando, e algo vai acontecer para que a gente continue podendo receber as crianças que são encaminhadas, por exemplo, pelo Conselho Tutelar e pelo Ministério Público. Quem chega até o instituto passa por uma avaliação. Em seguida, recebe o apoio necessário, que pode ser orientação jurídica, reforço escolar ou atendimento psicológico. Todos os custos sempre foram mantidos por mim e por doações. Eu separava parte da minha renda para colocar no instituto, mas, como tratei um câncer recentemente e não consigo trabalhar no mesmo ritmo de antes, fica difícil fechar as contas. Não recebo qualquer tipo de verba pública — frisa, disponibilizando o perfil @institutoepossivelsonhar no Instagram para quem quiser saber como ajudar ou conhecer mais detalhes do projeto.

Acolher crianças vítimas de abuso sexual é uma necessidade vital para Daniela, que sentiu na pele a dor de passar por este tipo de experiência.

— Todo o apoio que eu não tive quero oferecer às crianças, que, como eu, sofrem nas mãos de um agressor. Até hoje, lembro perfeitamente que, aos 8 anos, o meu agressor me obrigava a ter uma conjunção carnal com ele. Este homem dizia que eu precisava passar por aquilo e que, se eu contasse algo para alguém, mataria a minha família inteira. Faço tudo o que estiver ao meu alcance para impedir que outras crianças sejam abusadas, tanto no aspecto físico como no emocional — afirma.

Na véspera da Páscoa, Daniela faz questão de transmitir uma mensagem de otimismo:

— O meu renascimento é constante. Todos os dias, eu escolho o autoamor, o autocuidado e o amor ao próximo. Eu sempre sonhei muito, me imaginava dando palestras e entrevistas e ajudando pessoas. Eu conquistei tudo isso! Então, é possível sonhar, sim! Mesmo com todas as dores da vida, eu escolho passar por cada uma delas sorrindo. Apesar dos pesares, sempre tive alguém para me dar a mão. Nada mais natural do que eu estender as minhas para quem precisa.

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