Após trabalhar 30 anos com cirurgia plástica, instrumentadora cirúrgia abre plataforma de arte para apoiar artistas periféricos

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Foi na Espanha, em 2001, ao adentrar oMuseu do Prado, que o destino deMargareth Telles, de 50 anos, mudouradicalmente. Instrumentadora cirúrgica ebraço-direito do badalado cirurgião plásticoCarlos Fernando Gomes de Almeida, elaestava em Madri para acompanhar opós-operatório de um paciente. “Não tinhaconexão alguma com arte. A partir daquele momento, passei ame interessar por museus, artistas e exposições”, conta. Oprimeiro passo nessa direção ela deu adquirindo trabalhos. “Aprimeira obra que comprei foi do Cabelo. Depois, de Heitor dosPrazeres e Helio Oiticica. E assim por diante”, contaMargareth. Em seguida, passou a estudar o assunto compaixão. No fim de 2020, desligou-se de suas funções aolado do cirurgião e criou a MT Projetos de Arte, (comespaço na Avenida Beira-Mar, no Centro, e na Lapa),plataforma de apoio a artistas novos e veteranos.

A relação de Margareth com a arte é a de quem pormuito tempo se sentiu excluída desse mundo. “De onde euvenho, não tem museu, achava totalmente fora da minharealidade”, diz ela, que nasceu em Nova Iguaçu e cresceuem Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A influênciade Carlos Fernando, com quem começou a trabalhar aos19 anos, de pacientes envolvidos com o tema e asconstantes viagens para fora do país foram determinantes.“Carlos Fernando é muito ativo no colecionismo e foi oprimeiro a me falar sobre Tunga, Portinari, Di Cavalcanti...Também aprendi muito com a (curadora) Ana CristinaBurlamaqui, a quem chamo de madrinha, grandecolecionadora de Lygia Clark.”

Em cursos do Parque Lage e com nomes como MarceloCampos (curador chefe do Museu de Artedo Rio), ela foi aprimorando o olhar e, aoabrir a MT, já tinha delineada a direção quedesejava seguir. “Já vinha investindo emquem não tinha galeria, como a MarcelaCantuária (atualmente representada pelaGentil Carioca), que me atraiu por pintarmulheres fortes e guerreiras. Ao inaugurar aMT, quis dar visibilidade para jovens artistasda Baixada, de São Gonçalo e do Complexodo Chapadão, e ressignificar nomes dasdécadas de 1970 e 1980”, diz. A exposição “Órbita Oiticica”, quereúne trabalhos de artistas que conviveram com Hélio Oiticica(1937-1980), como Marcos Bonisson e Andreas Valentin, éresultado de uma de suas metas. “Margareth é uma mulher dasartes generosa e sagaz. Ela é experimental”, observa o fotógrafoMarcos Bonisson. Visitas à mostra, em cartaz na sede da MT, naAvenida Beira-Mar, devem ser agendadas pelo telefone.

O outro objetivo, o de apoiar artistas de lugares“periféricos”, também está sendo cumprido com louvor. Pormeio das redes sociais, conheceu Jota, de 20 anos, morador doComplexo do Chapadão, e abrigou, na Lapa, a primeiraexposição do rapaz. “Jota tem um traço genuíno. Suas obras seesgotaram”, conta.“Minha intenção é quetalentos como ele meusem de trampolim.” Acolecionadora tambémdestaca Rafa Moreira, deBelém — “ela estámorando no nossosobrado, na Lapa, quefunciona comoresidência artística. Rafaretrata mulheres trans etravestis” — e Gervanede Paula, da Geração 80.

Hoje, dona de umacoleção com cerca de cemobras de artistasbrasileiros, Margareth estárealizada: “Acreditei naminha sensibilidade”.

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