Após tragédia, cresce denúncia de risco de desabamentos de prédios em Fortaleza

MARCEL RIZZO
FORTALEZA, CE, Edifício Modiglione, que foi interditado pela defesa civil de Fortaleza, mas que ainda está com moradores. (Foto: Marcel Rizzo/Folhapress)

FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS) - Valdeci Ferreira, 54, trabalha há 26 anos no edifício Modigliane, no bairro de Fátima, região central de Fortaleza.

Hoje é um dos porteiros, mas já foi de zelador a auxiliar de serviços gerais do prédio de seis andares e 18 apartamentos que no dia 30 de outubro foi interditado pela Defesa Civil após vistoria. 

Seis famílias não quiseram deixar o local, que segundo laudo tem "baixo risco" -os moradores alegaram não terem para onde ir e assinaram um termo de responsabilidade. Com pessoas circulando pelo imóvel, Ferreira continua seu trabalho na portaria. Sem medo.

"Acho que tem um pouco de exagero, o prédio passou por uma reforma tem uns 15 anos. Todo mundo ficou um pouco mais preocupado depois que caiu aquele outro edifício. Mas aqui já vai começar a nova obra, tudo vai ficar bem", disse Ferreira.

Uma reunião dos condôminos no dia 29 de novembro aprovaria a obra de reforma após exigência da prefeitura -quem denunciou à Defesa Civil que haveria problemas foi a administradora, após um morador achar rachaduras em obra que realizava em sua unidade.

O Modigliane é um dos sete imóveis, entre prédios e casas, interditado pela Defesa Civil na capital cearense após o desabamento do edifício Andrea, no dia 15 de outubro, que matou nove pessoas e deixou sete feridos.

A queda fez com que disparasse o número de denúncias de risco de desabamento em Fortaleza. Em outubro, 715 chamadas foram feitas via Ciops (Coordenadoria Integrada de Operação de Segurança) ou Corpo de Bombeiros, a maioria depois do dia 15. Em setembro foram 76.  

Em 2018, 681 ocorrência desse tipo foram relatadas o ano todo. Em 2019 já está em 2.524, 1.356 somente entre outubro e novembro.

Um grupo de trabalho foi criado e conta com representantes da Prefeitura de Fortaleza, do Ministério Público Estadual, do Crea-CE (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) e do Corpo de Bombeiros para atuar em todo o processo, do recebimento das denúncias até a atuação em vistorias. Desde o desabamento do Andrea, a Defesa Civil já fez mais de 500 visitas e notificou cem imóveis.

"Nós do Crea não temos a função de ir vistoriar. Funciona assim: é feita a denúncia e uma equipe de técnicos da prefeitura vai até o local constatar se há problemas. Se é constatado algo o imóvel é notificado a fazer uma inspeção para se descobrir o que precisa ser feito de melhorias, esse trabalho realizado por um engenheiro credenciado. A função do Crea é verificar se os engenheiros que fazem os laudos e depois as obras necessárias são habilitados", disse o presidente do Crea-CE, Emanuel Mota.

É obrigação do proprietário do imóvel, portanto, realizar a vistoria e pagar por isso, o que muitas vezes acaba inibindo que sejam feitos laudos sem que haja uma obrigatoriedade.

No dia 18 de novembro, um novo susto na capital cearense: parte da fachada de um prédio de sete andares desabou, abrindo um buraco no subsolo e atingindo dois carros.

Ninguém ficou ferido e o local foi interditado. As seis famílias que residiam no imóvel localizado próximo ao parque do Cocó, um das mais valorizadas regiões de Fortaleza, deixaram o local rumo à casa de parentes.

"As pessoas têm que entender que um imóvel é como um carro: teu automóvel você faz a manutenção, troca óleo, pneu, e no imóvel é preciso ter manutenção da mesma maneira. Senão, com os anos, pode entrar em colapso", disse Mota.

O edifício Andrea, que desabou em outubro, tinha ao menos 37 anos. Uma obra de reforma havia começado um dia antes da queda. O inquérito policial ainda está em andamento; foi prorrogado por mais 30 dias e deve ser finalizado até o próximo dia 16. 

Ninguém foi preso nem multado até o momento.

O engenheiro responsável, José Andreson Gonzaga dos Santos, responde um processo administrativo no Crea. Se for constatado que houve má conduta no procedimento ele pode ter seu registro suspenso por alguns anos, segundo o presidente do conselho.

"No depoimento ele nos disse que havia começado a obra no dia anterior, que havia delineado todas as etapas que iria proceder e que estava providenciando o escoramento das estruturas", disse Emanuel Mota. A reportagem não conseguiu contato com Gonzaga ou seu advogado.