Após um ano, oposição amplia espaço em prefeituras de cidades que realizaram novas eleições

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ÃO PAULO — Na cidade de Jaguaruana (CE), Roberto da Viúva (PDT) venceu as eleições de 2020 com uma diferença de 1,5 mil votos sobre a chapa formada por PT e PCdoB. A candidatura dele foi cassada devido a irregularidades com a inscrição da vice. A Justiça Eleitoral marcou uma nova eleição para domingo passado, e o humor do eleitorado virou. Elias do Sargento (PCdoB) derrotou Roberto da Viúva por 737 votos.

Assim como ocorreu no município cearense, o grupo derrotado na votação de novembro de 2020 acabou vencendo o novo pleito, um ano depois, em 37% das oportunidades. Isso ocorreu em 18 das 49 cidades, segundo levantamento obtido pelo GLOBO.

A mudança de posição dos eleitores pode ser explicada pela composição do Legislativo da cidade, diz a cientista política Marcela Tanaka:

— Na disputa suplementar, o candidato a prefeito já sabe com quem vai governar, isso muda todo o jogo. Essas disputas ocorrem principalmente em municípios pequenos, onde é preciso de poucos parlamentares para formar uma maioria na Câmara — disse a especialista, que foi responsável pelo levantamento.

Foi o que ocorreu em Jaguaruana, onde Elias, que havia sido eleito vereador em 2020, assumiu a prefeitura por ser o presidente da Câmara Municipal. Ao formar maioria na Casa, ele viabilizou a aprovação, durante os dez meses de gestão interina, de um novo piso salarial para professores e a criação de uma gratificação para agentes de saúde.

— No pleito de 2020, nós sofremos uma tremenda surra nas urnas. E em um curto espaço de tempo, viramos a eleição. Isso se deve ao fato de que parte do eleitorado que nos derrotou no ano passado, agora, percebendo a boa gestão, nos deu a vitória — disse o vereador Inaldo Lima (PT), atual presidente da Câmara.

Além de prefeitos interinos, é comum que eleições suplementares em municípios pequenos resultem na vitória do segundo colocado do pleito ordinário, como ocorreu em Carapebus (RJ).

Em novembro de 2020, Bernard Tavares (Republicanos) terminou em segundo lugar, com 29,9% dos votos, atrás de Christiane Cordeiro (PP), prefeita eleita que, há três meses, teve a chapa cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nas eleições suplementares do último domingo, Tavares saiu vitorioso contra Dandinho (Avante), integrante da coligação de Christiane.

Democracia consolidada

Para Marcela, o fato de a população ter mudado de lado indica também a existência de um eleitorado que está aberto a contestações.

— Mostra que estamos caminhando no sentido da consolidação democrática. Ou seja, nessas cidades, a oposição de fato está jogando o jogo, e não apenas preenchendo espaço — disse.

Na maior parte das cidades com eleição suplementar neste mês, no entanto, a situação manteve a vitória. Em 20 municípios, o mesmo partido levou a melhor no novo pleito. Teve cidade que até repetiu o eleito em 2020, como João Dourado (BA). Di Cardoso (PL) teve a chapa cassada pelo TSE, mas foi novamente consagrado prefeito agora.

Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP, diz que uma das explicações para a insistência da população com o mesmo grupo político é a percepção de que o motivo para cassação não foi bem fundamentado. Outra explicação é a força de arranjos familiares locais.

— Há casos em que a sociedade entende que o prefeito é um bom governante e eventuais desvios de conduta não são suficientes para penalizá-lo. Soma-se a isso o discurso de que uma eventual mudança possa fazer a cidade deixar de receber emendas de deputados, por exemplo.

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