Após vitória frágil, políticos e ambientalistas mostram decepção com COP26

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GLASGOW, ESCÓCIA (FOLHAPRESS) - "Peço desculpas pela forma como esse processo se desdobrou. Eu também entendo a profunda decepção", afirmou o presidente britânico da COP26 Alok Sharma durante o encerramento da conferência do clima, na noite do último sábado (13). "Foi uma vitória frágil", definiu ele.

O sentimento de frustração foi compartilhado por negociadores, observadores e ativistas na conferência do clima da ONU, cuja tensão final foi marcada pela disputa em que China e Índia conseguiram trocar o termo "eliminação" por "redução" do carvão.

"Estou muito decepcionado que o texto foi enfraquecido, para mim não há cenário em que a gente fique em 1,5ºC se não eliminar o carvão", disse ao jornal Folha de S.Paulo o ministro de Clima e Energia da Dinamarca, Dan Jorgensen.

Como a menção à eliminação dos combustíveis fósseis era considerada histórica em um documento da ONU, a defesa vitoriosa da sua continuidade ditou o tom das declarações desapontadas de líderes mundiais logo após a plenária final.

As críticas também se referiram à falta de novos compromissos dos países ricos com financiamento climático e à insuficiência das metas globais de redução de emissões --que ainda levam o mundo a cenário de aquecimento superior a 2,4ºC, enquanto a ciência aponta como seguro o limite de 1,5ºC.

"Estamos decepcionados com a promessa de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 545 milhões) pendente e apelo a todos os doadores para que tornem isso uma realidade no próximo ano", afirmou ao fim da COP26 a secretária-executiva da Convenção do Clima da ONU, a mexicana Patricia Espinosa.

O bloco desenvolvido havia prometido, em 2009, arrecadar US$ 100 bilhões até 2020 para financiar ações climáticas nos países em desenvolvimento, mas o anúncio na COP26 foi que o valor só deve ser completado em 2023.

"E todos nós sabemos que não se trata apenas de US$ 100 bilhões. Portanto, é fundamental iniciar o processo para a definição da nova meta global de finanças o mais rápido possível", disse Espinosa.

Os países mais vulneráveis também saíram decepcionados. Apesar do documento final da COP26 reconhecer a ocorrência atual de eventos climáticos extremos mais impactantes para países em desenvolvimento, não houve acordo para um fundo de compensação de perdas de danos.

"Nós colocamos nossos lares em risco enquanto aqueles que têm opções decidem quão rápido eles querem ajudar a salvar aqueles que não têm", afirmou a representante das Ilhas Maldivas na plenária final da COP26.

"Não é mais possível medir o progresso da negociação segundo a régua do texto anterior. A única régua possível é a da ciência do IPCC, e a COP26 não reflete a urgência vista no relatório do painel dos cientistas do clima da ONU. Duvido que alguém que está com a vida e a família sob risco numa ilha do Pacífico ou no Nordeste do Brasil vá ficar satisfeito com o resultado", afirmou Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, através de nota divulgada ao fim da conferência.

O enviado de clima dos Estados Unidos, John Kerry, afirmou ao fim da COP26 que Glasgow não é a linha de chegada. "Quem pensou que seria assim não entende o desafio que temos. Paris construiu a arena e Glasgow dá início à corrida", afirmou Kerry.

Após duas semanas de negociação entre diplomatas de 197 países, a COP26 também conseguiu chegar à conclusão do livro de regras do Acordo de Paris de combate às mudanças climáticas --que foi assinado em 2015 e só agora, completamente regulamentado, pode passar à fase de implementação.

"O documento final da COP26 é bem estruturado em torno do objetivo de limitar o aquecimento a 1,5ºC e pavimenta o caminho para sua implementação, com o compromisso de um financiamento mais substancial para adaptação e para o estabelecimento de um mercado de carbono", afirmou a presidente do Instituto Talanoa, Natalie Unterstell, que acompanhou as negociações da COP26.

Alvo de impasse que levou a COP anterior ao fracasso, o artigo 6, que regulamenta um mercado de carbono global, foi solucionado na COP26, sob pressão do setor privado. O sistema remunera atividades que geram a redução de emissões de carbono, através da venda de créditos que funcionam como licenças para emitir.

"O caminho para aumentar ainda mais a ambição climática passa também pela utilização de instrumentos de mercado", afirmou em nota o CEBDS, Conselho Empresarial Brasileiro pelo Desenvolvimento Sustentável.

Reunindo 77 dos maiores grupos empresariais do país, o CEBDS vem defendendo a regulamentação do comércio de crédito de carbono nos níveis nacional e internacional.

"A ausência de um mercado regulado doméstico vai gerar prejuízos e perda de competitividade internacional para as empresas brasileiras", aponta o Conselho.

A jornalista Ana Carolina Amaral viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade.

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