'Apagão' expõe vidas que só existem se virarem conteúdo digital, alerta especialista

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O "apagão" mundial das redes sociais, que deixou fora do ar por cerca de seis horas na segunda-feira os principais serviços do Facebook, incluindo o Instagram e o WhatsApp, provocou diversos impactos na vida dos internautas.

No Twitter — que apresentou instabilidade, possivelmente devido ao pico de acessos, mas se manteve funcionando — alguns disseram estar aliviados com um dia de "folga" das redes. Por outro lado, diversos relatos evidenciam a dependência dessas plataformas seja para a comunicação com familiares, trabalho, entretenimento ou acesso a informações.

Uma estudante relata ter enviado para os pais uma mensagem dizendo que havia passado mal, mas a parte na qual explicava que já estava bem não chegou a ser enviada, deixando a família preocupada:

Em outra postagem, uma internauta conta ter encontrado as vizinhas reunidas na calçada reclamando do Whatsapp: "trouxeram o grupo para o presencial", diz.

Outro tuíte evidencia a necessidade do aplicativo como meio para a população acessar a Defensoria Pública. "Para milhares de pessoas, ficar sem Whatsapp é ficar sem direitos", afirma.

"Muito estranho a vida sem WhatsApp, estou tão acostumada com ele que nem parece que passei boa parte da vida sem", diz outra internauta, que conta ter se sentido "isolada do mundo".

O Facebook culpou "alterações de configuração em roteadores que coordenam o tráfego de rede" pela interrupção, que foi a maior já rastreada pelo grupo de monitoramento da web Downdetector.

A doutora em Saúde Mental Anna Lucia Spear King, professora da Pós-Graduação da UFRJ na disciplina sobre dependência digital e temas relacionados, destaca que a pane evidenciou a "fragilidade que estamos ao dependermos dessas redes sociais":

— Estamos fazendo nossa vida girar em torno disso. Profissional, pessoal, familiar, tudo passa por meio dessa interatividade com essas plataformas. A situação de ontem nos mostrou que criamos um mundo particular que funciona dependendo desses conteúdos. Se der uma pane, tudo para. Foram muitos prejuízos — diz a psicóloga, que também é fundadora do "Laboratório Delete - Detox Digital e Uso Consciente de Tecnologias".

Muitos internautas também relataram ter sentido ansiedade sem a plataforma. O efeito provocado dependeu da expectativa da pessoa para o dia, explica King: por exemplo, se ela dependia da plataforma para trabalhar ou estava esperando uma resposta afetiva, de alguém com quem se relaciona. Mas a especialista destaca que a dependência por lazer ou trabalho é diferente da patológica, que começa quando já existe um transtorno primário potencializado pelo uso abusivo diário dessas tecnologias.

Outros internautas, por outro lado, comemoraram estar sem acesso às redes e a ansiedade provocada por elas.

— Essas redes sociais causam estresse e conflitos dentro da gente. Temos que seguir o padrão que é imposto, tudo que você posta está sujeito a receber comentários agradáveis e desagradáveis... As redes mexem muito com nosso emocional — diz.

A psicóloga acredita que, ao evidenciar "a fragilidade da forma como estamos nos conectando", o episódio pode contribuir para uma maior reflexão sobre o uso dessas plataformas.

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