Apaixonado pelo Rio, Vidal encarna o torcedor do Flamengo e lidera pelo exemplo, não pelo nome

Em pouco mais de três meses de Flamengo, Arturo Vidal está em casa. E como uma boa visita, soube chegar sem sentar na janela, mas logo virou um dos que pilotam o bonde rubro-negro. Aos 35 anos, o chileno passou os últimos 15 na Europa, e reencontrou a Libertadores que disputou no início de carreira, pelo Colo Colo, com possibilidades de ser campeão pela primeira vez. São 22 jogos disputados com o Flamengo até a chegada na final de sábado contra o Athletico-PR, que Vidal não perderia por nada. Após a lesão no tornozelo, que o levou a fazer uma drenagem cirúrgica, teve alta na última segunda-feira e pediu ao clube para treinar no mesmo dia. Logicamente foi vetado, iniciou a recuperação na terça, e viajou para o Equador. Mas a raça constante e a forma como encarna o espírito rubro-negro surpreendem em tão pouco tempo, até pelo peso de sua carreira.

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Trabalhador, de grupo, “um animal” ou “maluco”, como muitos dizem no Ninho do Urubu, o meio-campo vestiu naturalmente o papel de liderança diante de um elenco em que antiguidade é posto. Apesar de seu tamanho no futebol internacional, com passagens por Inter de Milão, Juventus, Barcelona, Bayern de Munique, sempre apresentou um comportamento humilde desde que chegou, com boa relação junto aos demais atletas, e sobretudo uma atenção diferente dada ao torcedor. Nas ruas do Rio e no Maracanã, é comum ver e ouvir relatos de Vidal solicito, sempre sorrindo e com prazer de construir a relação com o público que já o idolatra tão rápido.

No estádio, mesmo na reserva de João Gomes, de 21 anos, costuma entrar para o aquecimento para cima, acena para a arquibancada mais do que o normal, e chama atenção de funcionários e até de companheiros do clube, que estão acostumados com essa rotina. Para Vidal, tudo é novidade, tudo é festa, menos na hora do jogo, quando exibe raça particular e experiência sem igual para orientar os companheiros.

No vestiário, não precisou nem impor o que normalmente estaria atribuído a uma hierarquia do futebol. As próprias lideranças do grupo, como Diego, Felipe Luis, David Luiz e Gabigol já o colocaram em um pedestal semelhante, ou até maior. Raros foram os momentos em que Vidal precisou exercer esse papel de forma mais ativa. O mais marcante até hoje ocorreu quando “decidiu” que Marinho cobraria um pênalti contra o Cuiabá. O atacante sofreu a falta, pegou a bola, mas o primeiro cobrador seria Cebolinha, o segundo Vidal e Marinho em seguida. Diego, então em campo, intercedeu, mas Vidal conversou com Marinho e autorizou a cobrança, antes de pedir para que o torcedor presente apoiasse o atacante, que vivia momento ruim. No último jogo, contra o Santos, o chileno entrou em campo ao lado do camisa 10 segurando a taça da Copa do Brasil conquistada diante do Corinthians. Mais uma fez foi só sorrisos e interação com a arquibancada.

Fora dos gramados, Vidal se apaixonou pelo Rio. Está adaptado, assim como a mulher, que vive com ele na Barra da Tijuca. Aos mais próximos, diz que ama o povo carioca e a cidade. Seus familiares vieram a passeio e também se encantaram. Quando chegou ao Brasil, logo deixou claro que o objetivo era ser campeão da Libertadores. Ídolo da seleção chilena, Vidal quer ser o maior campeão da América pelo seu país, depois de conquistar duas Copas pela seleção. A única participação na Libertadores até aqui foi em 2007, pelo Colo Colo, quando jogou oito vezes. Titular com 19 anos, tem quatro vitórias e quatro derrotas pelo clube onde despontou. Depois de tanto insistir para vestir a camisa do Flamengo, retribuir em campo tem sido puro prazer.