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300 anos de Nossa Senhora

Agência Plano

De Aparecida a Padroeira do Brasil: 300 anos de fé no Vale do Paraíba

Por Lucas Reginato, da Agência PLANO
Fotos: Rosana Pinheiro, da Agência PLANO

Quando lançaram a rede ao rio Paraíba em 12 de outubro de 1717, três pescadores – João Alves, Domingos Garcia e Filipe Pedroso – estavam cumprindo ordem da Câmara Municipal de Guaratinguetá, que precisava de alimentos para ofertar banquete em homenagem a D. Pedro Miguel de Almeida Portugal, recém-empossado Governador da capitania de São Paulo e Minas do Ouro e de passagem pela região.

No rio sobravam canoas e faltavam peixes. A ciência não consegue explicar como, mas em vez de peixes eles pescaram um milagre. Primeiro, o corpo de Nossa Senhora Aparecida e, logo em seguida, a cabeça. O trabalho rendeu a partir dali – voltaram para casa com o barco cheio de alimento e uma história que é de todos os brasileiros.

Hoje, a imagem está preservada em um dos maiores santuários do mundo. Não há quem trafegue naquele trecho da Rodovia Presidente Dutra sem reparar na suntuosa basílica em estilo neorromântico, seja pelo prédio de mais de 100m de altura, seja pela famosa passarela da fé, uma estrutura de 400m de extensão e 30 de altura.

A primeira casa de N. Sra. Aparecida foi uma pequena capela de pau a pique à beira do Paraíba, no Porto de Itaguaçu. Iluminada por duas velas e sob o cuidado das famílias dos pescadores, lá ela começou a ser objeto de fé e responder por milagres. Já nesses primeiros anos peregrinos de outras partes do país iam até lá à procura de benção. Tantos que em 1745 a Igreja Católica assumiu os cuidados com a santa e construiu uma capela não muito longe, no alto do Morro dos Coqueiros.

Por cem anos, foi aquela a casa da santa, e apesar de muitas reformas empreendidas, fiéis cada vez mais numerosos tornaram-na insuficiente. Em 1845 foi construída a matriz que hoje é conhecida como basílica velha. Em altar de mármore, adornada de flores, ficava a imagem, à qual tanto fazendeiros como escravos pediam proteção. Entre os visitantes estava tanto quem viajava de muito longe como quem estava de passagem e há muito não rezava mais. A imponência da Santa no imaginário popular fez dela merecedora da coroa doada pela Princesa Isabel em cerimônia histórica no ano de 1904.

A Vila de Aparecida cresceu em torno da fé. A festa de 200 anos da aparição foi celebrada com merecida grandiosidade, em 1917, e em dezembro de 1928 a cidade emancipou-se administrativamente de Guaratinguetá. A partir da década seguinte, um movimento de restauração católica no governo de Getúlio Vargas fez a santa viajar de trem para a então capital federal. Em 1931, mesmo ano da inauguração do Cristo Redentor, um milhão de fiéis acompanharam no Rio de Janeiro a proclamação de Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil.

A construção do Santuário Nacional começou na segunda metade dos anos 40, no Morro das Pitas, ainda mais perto do Porto de Itaguaçu, local da aparição. Suportar as multidões de romeiros foi prioridade no projeto grandioso, que contava com espaçoso estacionamento e uma passarela que facilitava a chegada de peregrinos. A inauguração aconteceu já sob égide do governo militar, em 1980, com a presença do Papa João Paulo II. No mesmo ano, o Presidente João Figueiredo decretou o dia 12 de outubro feriado nacional.

Desde então, tanto o Papa Bento XVI, em 2007, como o Papa Francisco, em 2013, estiveram na basílica. Tão ou mais importante que eles são os brasileiros de toda parte que anualmente saúdam a imagem em sua imponente catedral. Só em 2016, foram 12 milhões. É gente que vem agradecer e pedir ajuda nas dificuldades que a vida apresenta.

Localizado na Nave Sul do Santuário, o Nicho de Nossa Senhora Aparecida, onde a imagem atualmente se encontra, tem 37 metros de altura e nas paredes desenhos em azul e dourado ilustram a trajetória da Santa. Os pescadores nunca imaginariam a proporção que tomaria o objeto de fé que eles recuperaram do rio. Da capelinha de pau a pique à maior catedral do mundo fora do Vaticano, Nossa Senhora Aparecida abençoa os brasileiros e é a prova viva do poder da fé que está em nós.