Apesar das medalhas na Olimpíada de Tóquio, CBDA tenta sobreviver a dificuldades financeiras

·5 minuto de leitura

Em Tóquio, a natação brasileira teve o seu melhor desempenho em olimpíadas. Ao todo, foram três medalhas, uma de cada, com atletas diferentes as ganhando. Foi também a primeira conquista de uma mulher na modalidade, e logo um ouro, com Ana Marcela na Maratona Aquática. No entanto, quem vê o bom desempenho dos nadadores nas piscinas mal sabe as dificuldades que o esporte tem passado financeiramente. Com nova administração, após dirigentes terem sido presose um presidente ter renunciado, a Confederação Brasileira de Natação (CBDA) tenta soluções para quitar suas dívidas e pensar no futuro do esporte. A CBDA deve hoje aproximadamente R$ 12 milhões, sendo que cerca de R$ 8 milhões são ao governo. O montante é referente a má prestação de contas do ciclo olímpico de 2016 durante a gestão de Coaracy Nunes.

— Hoje eu gasto 90% do tempo pensando na sobrevivência da entidade, ao invés de gastar 90% do meu tempo em planejamento esportivo, o que infelizmente não estamos podendo fazer — disse Renato Cordani, vice-presidente da CBDA.

As contas da Confederação começaram a ruir após a Polícia Federal desencadear a operação Águas Claras, em 2017, que levou Coaracy Nunes e três diretores para a prisão. Eles foram acusados de desvio de recursos públicos. A partir daí, a Confederação passou a perder patrocinadores, inclusive o Banco do Brasil.

A nova administração, que assumiu provisoriamente em setembro de 2019 e foi eleita em dezembro do ano seguinte, já conseguiu reduzir R$ 5 milhões do valor devido — foi alvo também de alguns bloqueios judiciais. Mas o calcanhar de Áquiles são irregularidades apontadas pelo governo em prestações de contas pelo uso de dinheiro público, no ciclo de olímpico de 2016. Com isso, até que regularize a situação, a CBDA deixa de receber recursos da Lei Agnelo Piva, que é essencial para a sobrevivência de qualquer entidade esportiva.

— O nosso principal montante de dívida é esse que nós temos com o governo que é o dinheiro público que foi usado no ciclo olímpico de 2016, que foi utilizado realmente no esporte, não estou fazendo acusação da gestão anterior. Mas como é um dinheiro público você tem que ter uma prestação de contas muito minuciosa — disse Cordani.

No entanto, a Confederação tem dificuldades para resolver essa prestação de contas por diversos motivos. Um deles é que a contestação foi feita muito depois dos gastos, o que torna algumas comprovações difíceis. E a principal de todas é que a Polícia Federal ainda não devolveu à CBDA os computadores apreendidos na operação de 2017. Há a esperança de que ainda haja comprovantes de gastos nos HDs apreendidos para que o valor da dívida diminua. A Confederação já solicitou a devolução dos equipamentos, mas ainda não teve sucesso. A Polícia Federal foi procurada para informar o porquê da demora na devolução dos computadores, mas não respondeu.

Como não tem como comprovar os gastar ou pagar a dívida, coube à CBDA recorrer à Justiça. A Confederação tenta que a obrigação da comprovação seja transferida para o espólio de Coaracy Nunes — morto em maio de 2020 — e para Miguel Cagnoni, que assumiu a CBDA após a operação Águas Limpas, cujo a gestão também sofreu com problemas de transparência. Os processos, entretanto, estão em tramitação.

Sem acesso aos patrocínios robustos de outrora e a verba da lei Agnelo Piva, que este ano seria de R$ 5,2 milhões, sendo que R$ 1,3 milhão seria usado na administração da CBDA e o restante aplicado no esporte, a entidade tem adotado algumas estratégias para manter seus campeonatos ativos. A principal delas é usar o dinheiro de inscrições para que campeonatos superavitários, como de natação e maratona, possam pagar aqueles deficitários, como nada artístico. Outra ponta, é a tentativa de parcerias com o setor público para que a confederação assuma projetos sociais.

Uma outra ação estudada pela CBDA é processar o COB. Porém, a estratégia seria para criar uma jurisprudência para que o Comitê possa ajudar financeiramente as confederações endividadas, o que hoje não está entre as atribuições do COB. Independentemente de haver processo ou não, Cordani também faz críticas ao sistema esportivo brasileiro. Ele lembra que quando Carlos Arthur Nuzman foi afastado da presidência do COB, o comitê passou por problemas, mas conseguiu recuperar o acesso a verbas públicos, o que não tem acontecido com as confederações.

— Por que temos um sistema esportivo em que o COB é milionário e as confederações são pobres? Não fomos nós que fizemos essa má prestação de contas, foram os outros. O COB foi a mesma coisa. Depois que o Nuzman caiu em 2017, o Paulo Wanderley realmente remodelou. Fez o código e o comitê de ética, reformulou o estatuto, ele fez a lição de casa certinha e o COB voltou a receber recursos. Eu não, eu fiz minha lição de casa, fizemos uma eleição, estou certinho, mas ainda tenho que pagar pela prestação de contas do passado — ponderou o vice-presidente da CBDA.

Cordani disse também que há conversas com entidades em Brasília para tentar resolver o problema da dívida:

— Conversamos com a CGU, TCU, mas ainda não desatamos esse nó. Quando falo que a solução é jurídica, ela envolve política também. Então é jurídico/política a solução. E nós temos feito gestões nesse sentido. Como eu te disse, o COB conseguiu. Lá atrás, em 2017, 2018, eles limparam a barra deles, limparam o passado e continuaram dali pra frente. Eu ainda não consegui. Quem sabe a gente consiga. Mas quero só bater na tecla: nosso sistema ele é deturpado. O COB é milionário e nossos Confederações miseráveis.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos