Apesar de denúncias de má conduta sexual, três Papas deixaram arcebispo ascender na Igreja, mostra relatório

O Globo com agências internacionais
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CIDADE DO VATICANO - O Vaticano divulgou nesta terça-feira um relatório de 14 páginas que apresenta resultados de inestigação sobre como o ex-arcebispo Theodore E. McCarrick ascendeu na hierarquia católica romana para se tornar um dos cardeais mais poderosos da insituição, apesar das acusações de má conduta sexual que acabaram levando ao seu afastamento do sacerdócio. O documento mostra que o Papa João Paulo II teria optado pela sua nomeação ao cardinalato mesmo ciente das alegações.

Influente, McCarrick desempenhou por décadas papel central na arrecadação de fundos para a Santa Sé por ricos doadores americanos e se autodenominava "Tio Ted". Ele foi destituído de seu título de cardeal em 2018 e de sua condição de sacerdote em 2019. Esta decisão inédita foi tomada ao final da investigação iniciada pelo arcebispado de Nova York, após a denúncia em 2017 de um homem que acusou o prelado de ter sido abusado sexualmente pelo religioso nos anos 1970.

O relatório de 450 páginas foi preparado pela Secretaria de Estado do Vaticano a pedido do Papa Francisco. Dada a longa carreira de McCarrick na Igreja, o relatório perpassa três Papados, mas o documento não atribui a proteção indevida diretamente ao Papa Francisco ou seus predecessores. Porém, um resumo de 14 páginas, que incluía um 'Quem é Quem' dos poderosos do Vaticano e oficiais da Igreja americana, o coloca a um passo de João Paulo II.

“O Papa João Paulo II pessoalmente tomou a decisão de nomear McCarrick”, diz o relatório, apesar de ter recebido uma carta do cardeal John O'Connor, o arcebispo de Nova York, que resumia as denúncias, algumas anônimas, de que McCarrick havia se envolvido sexualmente com outro padre em 1987, que teria cometido crime de pedofilia contra seus “sobrinhos” e que dividia a cama com jovens e seminaristas.

O Papa João Paulo II ordenou uma investigação para determinar se as alegações eram verdadeiras. Os bispos não chegaram à conclusão de que McCarrick havia cometido qualquer ação de "má conduta sexual", mas que havia "se deitado com jovens", de acordo com o relatório. O documento considera as informações fornecidas por aqueles bispos como "enganosas".

“O que agora se sabe, através da investigação realizada para a preparação do relatório, é que três dos quatro bispos americanos forneceram informações imprecisas e incompletas à Santa Sé sobre a conduta sexual de McCarrick com jovens adultos", afirma.

McCarrick também apelou diretamente ao arcebispo polonês Stanislaw Dziwisz próximo do Papa João Paulo II, insistindo em sua inocência.

“As negativas de McCarrick foram consideradas verdadeiras”, diz o relatório, e as alegações foram rejeitadas como se fossem boatos.

As acusações de má conduta sexual feitas por um padre na época também foram rejeitadas, porque o próprio padre havia abusado de dois meninos adolescentes, ainda de acordo com o relatório.

O Vaticano argumentou que "a experiência anterior de João Paulo II na Polônia em relação a acusações falsas contra bispos" para prejudicar a Igreja "desempenhou um papel em sua disposição de acreditar" em McCarrick.

Novo papado

Novos detalhes sobre as alegações feitas contra McCarrick surgiram em 2005, e o sucessor de João Paulo II, o Papa Bento XVI, "procurou urgentemente" substituir McCarrick como arcebispo de Washington, diz o relatório. Em 2006, ele foi forçado a renunciar.

Naquela época, o arcebispo Carlo Maria Viganò, que foi núncio apostólicordo Vaticano nos Estados Unidos, escreveu duas cartas instando seus superiores a iniciar um procedimento legal da Igreja para tratar das alegações e rumores.

A questão foi levada diretamente à atenção do Papa Bento XVI, que, no entanto, decidiu não seguir esse caminho. “Em vez disso, a decisão tomada foi a de apelar à consciência de McCarrick” e para que ele “mantivesse um perfil mais discreto”.

O Vaticano argumenta que na época não havia acusações críveis de abuso infantil contra McCarrick e que Bento XVI não foi "informado das atividades de McCarrick" nos EUA depois disso. Quando o arcebispo Viganò se tornou núncio apostólico, o Vaticano disse que ele, por sua vez, não conduziu um inquérito conforme solicitado.

O Papa Francisco, de acordo com o relatório, recebeu notificação sobre as indicações anteriores de Bento XVI de altos funcionários da Igreja, mas não recebeu documentação sobre as alegações contra McCarrick até 2017. Acreditando que já haviam sido completamente revisados, Francisco “não viu necessidade e mudar a abordagem que havia sido adotada em anos anteriores", de acordo com o relatório.

Após a divulgação do relatório nesta terça-feira, o Vaticano afirmou em nota publicada na Vatican News: "No momento da nomeação de Theodore McCarrick como arcebispo para Washington, no ano 2000, a Santa Sé agiu baseada em informações parciais e incompletas. Verificaram-se, infelizmente, omissões e desconsiderações, foram feitas escolhas que se demonstraram erradas, mesmo porque, durante as verificações na época solicitadas por Roma, nem sempre as pessoas interrogadas contaram tudo o que sabiam. Até 2017 nenhuma acusação fundamentada jamais disse respeito a abusos ou assédios contra menores: assim que chegou a primeira denúncia de uma vítima menor na época dos fatos, o Papa Francisco agiu de modo rápido e decidido em relação ao ancião cardeal já retirado da condução da arquidiocese desde 2006, primeiro, tirando-lhe a púrpura e, depois, demitindo-o do estado clerical".