Apesar de derrota de Bolsonaro, direita ganha força no país, mas é heterogênea

A vitória da frente ampla formada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para derrotar Jair Bolsonaro (PL) na eleição presidencial desacelera, mas não estanca a guinada do país à direita. Esse movimento já se mostrava nos temas que mobilizaram o eleitorado na campanha e se materializou na composição do Congresso que saiu das urnas em 2 de outubro. Os 58 milhões de votos, quase metade do total, obtidos por Bolsonaro nas urnas reforçaram esse cenário, que tende a empurrar Lula mais ao centro, dizem analistas. Sustentar as pautas defendidas na campanha exigirá do novo presidente maior disposição para a negociação com o Legislativo e o diálogo com a sociedade.

Em Brasília, a esquerda terá como antagonistas partidos que vão ocupar 63% das cadeiras da Câmara dos Deputados. Trata-se de uma predominância nunca vista no período de redemocratização, capaz inclusive de formar maioria para aprovar emendas constitucionais. No Senado, que ofereceu maior resistência aos projetos do bolsonarismo, nomes como o da ex-ministra Damares Alves (Republicanos-DF) e do ex-juiz Sergio Moro (União Brasil-PR) chegam para reequilibrar as forças. O PL de Bolsonaro terá a maior bancada — 14 senadores—, tomando o posto que há 25 anos era do MDB.

Pesquisador do Centro de Estudos Legislativos (CEL), o cientista político Carlos Ranulfo ressalva que a direita que se tonifica agora é heterogênea, vai dos campos moderados aos mais extremos. Ele elaborou uma metodologia que aponta maioria absoluta de deputados dessas correntes na Câmara, classificando as legendas como esquerda, centro ou direita com base em estudos do CEL e em artigos acadêmicos. O pesquisador então avaliou a correlação de forças na Casa desde 1982, ponderando mudanças em siglas como o PTB, que virou à direita em 2014. Ele avalia que, se a esquerda elegeu este ano sua menor bancada desde 2002, foi o centro, onde situa siglas como MDB e PSDB, que teve seu pior desempenho em décadas.

Na direita, Ranulfo destaca a consolidação e o avanço do bolsonarismo, que se pulveriza entre várias siglas e não representa a totalidade nem do PL do atual presidente.

— O bolsonarismo não é um partido, mas um movimento descentralizado, coordenado pelas redes. Faz parte de um projeto de extrema direita mundial, articulado, que transforma tudo numa guerra ideológica. A direita tradicional brasileira é muito mais pragmática, e não se move tão ideologicamente — diferencia Ranulfo.

Para o cientista político, além de seus aliados, é também com esses setores que Lula precisará abrir interlocução. Ele diz serem significativos sinais de partidos como o União Brasil e o PSD, que nacionalmente liberaram seus integrantes a escolherem a quem apoiar.

— A direita fora da bolha bolsonarista tem receio do crescimento excessivo do bolsonarismo raiz — diz.

Mas não é só no Congresso que os campos políticos revelam novas configurações. Ainda no Legislativo, desde 2018 a direita se sobressai em assembleias estaduais, como a de São Paulo (Alesp) e a do Rio (Alerj), onde o centro ficou relegado à minoria. O mapa dos governadores eleitos também tende mais à direita a cada pleito. Com os resultados deste segundo turno, ano que vem serão 14 com essa orientação, sete ligados à esquerda, e seis de centro.

Antropóloga da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e uma das coordenadoras do Observatório da Extrema Direita, Isabela Kalil ressalta que as modificações se revelam também na sociedade civil, com ataques a ativistas, movimentos sociais e à atuação política como um todo. Debates como os relacionados às mulheres e aos direitos da população LGBTQIAP+ passaram a encontrar mais barreiras, num movimento, diz ela, que começa a ser alavancado antes mesmo das ascensão de Bolsonaro ao poder.

— Na década de 2010, há uma virada mais conservadora, parte dela capturada pela extrema direita. No Congresso, as bancadas da bala e da Bíblia são exemplos disso. É um processo que vai acabar na eleição de Bolsonaro, com uma forma diferente de fazer política também no campo da comunicação, com teorias da conspiração, fake news e ataques muito diretos aos opositores — analisa Isabela.

Nesse processo, ela concorda que o PT e a esquerda até agora não foram os grandes perdedores, ao conseguirem manter uma quantidade significativa de parlamentares, por exemplo. O centro, a centro-direita e a chamada terceira via acabaram mais esvaziados.

No entanto, independentemente da vitória de Lula, Isabela afirma que Bolsonaro inaugurou uma espécie de receita que deu certo e que continuará sendo replicada em disputas tanto do Executivo quanto do Legislativo.

— Muitos políticos, inclusive moderados, não importa a legenda, estão se valendo dessas estratégias — diz ela, corroborando que, diferentemente de outros países que recém-experimentaram ou estão sob governos de extrema direita, como os Estados Unidos da era Donald Trump ou a Hungria do primeiro-ministro Viktor Orbán, o bolsonarismo não está ligado especificamente a um partido político.

Segundo a especialista, ancorado nessas nuances, o bolsonarismo pode ter a capacidade, inclusive, de se emancipar do atual presidente. Ela não descarta, tampouco, uma disputa na extrema direita pelo espólio de Bolsonaro. Essa herança política, diz Isabela, pode ser reivindicada por seus filhos — o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Mas emergem também outros atores, como Damares, Moro e o governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Já na sociedade civil, Esther Solano, professora de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que, se há um eleitor de Bolsonaro mais radicalizado, também há outro moderado, que recebe criticamente as afirmações mais violentas do chefe do Executivo.

— Há uma estimativa da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) de que esse eleitor mais radical representa de 12 a 15% — diz ela.