Apesar de dia tranquilo, americanos se preparam para protestos violentos após eleição presidencial

Camila Zarur e Carol Marques
·2 minuto de leitura
Foto: ROBYN BECK / STF

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Foto: ROBYN BECK / STF

Com as eleições presidenciais, os Estados Unidos vivem uma escalada de tensão devido a um cenário político extremamente polarizado e uma disputa apertada entre o presidente Donald Trump, que tenta a reeleição, e o ex-vice Joe Biden. Organizações que monitoram conflitos armados pelo mundo emitiram alertas sobre o risco de uma violência armada. Apesar desta terça-feira, dia da votação, não ter registrado muitos episódios de confronto, ainda há apreensão para os dias seguintes ao pleito.

O jornalista Nilton Carauta, que mora e trabalha em Chicago, conta que muitos comerciantes locais se preparam para possíveis protestos violentos no desenrolar da apuração dos votos e até mesmo quando o resultado for anunciado.

— O clima já começa a ficar tenso. Meus amigos em Nova York estão postando fotos da cidade sendo preparada para um quebra-quebra. Comerciantes estão colocando tapumes nas lojas. Na Pensilvânia a movimentação é a mesma — diz Carauta.

Este ano, devido ao volume recorde de votos antecipados, a estimativa é que o resultado demore mais do que de costume para sair, o que pode aumentar ainda mais a tensão. De acordo com o International Crisis Group, a eleição americana de 2020 “apresenta riscos nunca vistos na história recente”.

A ONG aponta quatro fatores pelo aumento das tensões: cenário político polarizado, principalmente em questões relativas à raça e identidade; grupos armados com agendas políticas; chances mais altas do que de costume de o resultado ser contestado; e a posição de Trump, que possui, segundo a organização, uma “retórica tóxica” e uma disposição para acionar a Justiça afim de promover seus interesses pessoais. Esse último fator é um dos mais relevantes e não tem precedentes na história moderna dos EUA.

Esses grupos armados não estatais citados pela ONG são chamados de “milícias” e, embora o nome seja conhecido no Brasil, pouco tem a ver com as organizações criminosas que atuam aqui. Nos EUA, a porte e a posse de arma são mais flexíveis do que no Brasil. Esses grupos, que tem motivação política, também têm aval na Costituição americana.

Para David Kilcullen, especialista em insurgência armada, o risco da explosão de conflitos após a eleição é consequência direta da polarização política.

— O grande problema não é apenas que as pessoas tenham visões diferentes do que está acontecendo. É como se elas vivessem em um universo completamente diferente do outro — explica Kilcullen.

Segundo o especialista, a desconfiança do processo eleitoral também contribuiu para a possibilidade de confrontos, que, de acordo com ele, têm um grande potencial de serem letais devido à presença de grupos armados.

— O perigo é que ninguém pensa que pode perder a eleição, a menos que o outro lado trapaceie. Então, quando um dos candidatos perder, vão assumir imediatamente que o outro lado trapaceou. Daí sairão às ruas para protestar — estima Kilcullen, que acredita que esse cenário é possível tanto se a vitória for de Biden quanto de Trump.