Apesar de discurso pró-vacina do presidente, base bolsonarista não embarca na narrativa nas redes

Julia Noia
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RIO - No último mês, a guinada discursiva do Palácio do Planalto a favor da vacinação contra a Covid-19 foi nítida. O presidente Jair Bolsonaro passou a usar máscara em eventos oficiais e a apoiar a vacinação em massa da população, além de criar um comitê para o combate à pandemia. Nas redes sociais, os três filhos mais velhos do presidente — Flávio, Carlos e Eduardo — alavancaram campanhas para “viralizar” publicações a favor da vacina. A mudança de tom, no entanto, não foi acompanhada pelos bolsonaristas nas redes, segundo levantamento da Consultoria Quaest.

Em 3 mil perfis pesquisados de apoiadores do chamado “núcleo duro”, a média de postagens a favor da vacinação foi de 17,1% entre os dias 1 e 27 de fevereiro, mas não foi observado um aumento considerável em março, momento em que houve a mudança de postura do Palácio do Planalto: entre 28 de fevereiro e 14 de março, as postagens com teor positivo às vacinas chegou a 20,9% e, entre 15 e 24 de março, passou para 25,5%. O levantamento da Consultoria Quaest envolveu a análise de sentimentos de publicações realizadas nos últimos 60 dias em 3 mil perfis com maior alinhamento bolsonarista dos últimos dois anos.

O diretor da Consultoria Quaest e professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Felipe Nunes, destaca que o crescimento tímido do discurso pró-vacina em redes bolsonaristas é explicado pela desconfiança do grupo na nova guinada discursiva do presidente e pelo caráter altamente coeso dos que integram o “núcleo duro”.

— Os bolsonaristas do núcleo duro não mudaram sua posição, porque não acreditam que o presidente tenha mudado sua posição. É como se fosse um gesto público feito pelo Bolsonaro, mas que não tivesse credibilidade para as pessoas no geral. É um movimento de resposta pública, mas que na atuação real, não tem encontrado evidência empírica — afirma.

De acordo com o professor, o movimento de Bolsonaro em favor da vacina pode ser interpretada como uma “reação impulsiva” diante do complexo contexto econômico e político em que se encontra, com uma economia frágil e recordes do número de óbitos, mesclados com a retórica negacionista adotada pelo governo desde o começo da pandemia. Entretanto, ele aponta que essa mesma base aliada de primeira hora poderá influenciar a retomada do discurso negacionista pelo presidente, tendo em vista a alta estima que tem por essa parcela do eleitorado, o que, por sua vez, pode fragilizar sua imagem com o resto da população, que vê incongruência na mudança constante de discurso.

— O “núcleo duro” é muito coeso. Isso está mostrado tanto nas redes quanto em várias pesquisas de opinião. Do ponto de vista das suas atitudes, dos seus valores, das suas crenças, é, de fato, um grupo muito difícil de ser diminuído. Muitos se perguntam quando vai diminuir a parcela de 30% da população que apoia o Bolsonaro, mas é muito difícil ter essa mudança, porque é um grupo muito integrado e hiperconectado, por conta das redes e pela forma de receber e distribuir informação. Um grupo que se assemelha, na minha opinião, ao que a gente chamou no passado de lulismo, também muito coeso, identitário, com alto grau de similaridade, E não é à toa que a polarização hoje está dada — explica.

Para os próximos meses, entretanto, Nunes prevê uma contradição entre o discurso e a prática nas redes bolsonaristas. De acordo com o professor, vai permanecer a tendência de crescimento de publicações pró-vacina entre esse eleitorado, mas a maioria vai apoiar de forma velada, ou seja, irão tomar a vacina, mas continuarão com a retórica negacionista nas redes sociais.