Apesar de investigado pela própria corporação, delegado chefe de esquema foi mantido no cargo

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O delegado Maurício Demétrio Afonso Alves, titular da Delegacia do Consumidor (Decon), e outros quatro policiais civis foram presos na manhã de ontem acusados de exigirem propina de lojistas da Rua Teresa, em Petrópolis, para permitir a venda de roupas falsificadas. Demétrio é suspeito de chefiar o grupo, que cobrava R$ 250 por semana dos comerciantes do polo comercial. Segundo o Ministério Público do Rio, cerca de 40 lojistas eram explorados pelo esquema, que movimentou aproximadamente R$ 1 milhão quando o delegado estava na Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), do início de 2018 até março passado. Apesar de ser investigado pela própria corporação, Demétrio não só foi mantido no cargo de titular da DRCPIM até março passado, como foi transferido para outra delegacia especializada, a Decon, quando deixou a unidade.

Procurada para comentar o caso, a Polícia Civil afirmou, em nota, que Demétrio “começou a ser investigado na gestão passada, pelo então corregedor, e não foi afastado de sua titularidade na DRCPIM”. Ainda de acordo com o texto, “a atual administração entendeu que seria melhor mudá-lo da delegacia onde existia a apuração e colocar em outra unidade enquanto as investigações prosseguiam”.

Demétrio também é acusado de tentar obstruir as investigações e de forjar um flagrante contra um dos delegados que o investigava. Segundo a denúncia, o titular da Decon e seus comparsas sabiam que estavam sendo alvos de um inquérito na Corregedoria da Polícia Civil desde agosto do ano passado, quando o advogado do policial Celso de Freitas Guimarães Junior, apontado como homem de confiança de Demétrio e um dos integrantes do esquema de recolhimento de propinas, pediu para ter acesso aos autos. A partir desse momento, o MPRJ instaurou um procedimento independente para investigar a quadrilha, “diante do envolvimento de policiais civis e das notórias dificuldades da instituição para investigar seus próprios quadros”. A operação de ontem não teve participação da Polícia Civil.

A investigação que culminou na ação desta semana teve início em julho do ano passado, com as prisões de dois vendedores de roupas falsificadas pela 105ª DP (Petrópolis). De acordo com a denúncia, os presos — Alex Sandro Gonçalves Simonete e Rodrigo Ramalho Diniz — foram cooptados pela quadrilha para que cobrassem o pagamento de propinas de outros comerciantes e entregassem o dinheiro aos policiais da DRCPIM. A partir dos depoimentos dos presos e das apreensões feitas na ocasião, a participação dos policiais civis foi descoberta, e o caso passou a ser investigado pela Corregedoria da Polícia Civil.

O esquema de recolhimento de propina chegou a bancar, segundo testemunhas, uma festa de fim de ano dos policiais que integravam a organização criminosa. A denúncia do MP detalha um episódio ocorrido em dezembro de 2019, em loja na Rua Teresa, em que comerciante discutiu com Ana Cristine de Amaral Fonseca, denunciada pelo MP, porque se recusou a pagar a propina exigida para “custear a celebração de final de ano de policiais”.

A denúncia do MP aponta que Demétrio lavava dinheiro comprando carros de luxo. Na casa dele, agentes apreenderam R$ 240 mil em espécie, além de armas, joias e dinheiro estrangeiro. Os promotores descobriram que o delegado alugou, em fevereiro passado, uma mansão no condomínio Porto Belíssimo, em Mangaratiba, Costa Verde do Rio, pela qual pagou R$ 80 mil. Após ser preso, Demétrio acusou o MP de retaliação e disse que os valores apreendidos são fruto de herança e que seus carros estão declarados à Receita Federal

O delegado Mauricio Alves se passou por uma mulher para forjar a prisão em flagrante de um outro delegado que o investigava, segundo o MP. Os promotores descobriram que Demétrio — fingindo ser a funcionária de uma ONG de nome “Ana” — fez uma encomenda de camisas na confecção do também delegado Marcelo Machado Portugal, com o objetivo de apreendê-las e incriminar o dono da loja.

A apreensão, de fato, foi realizada: em março passado, Demétrio foi à estamparia, na Tijuca, e recolheu as mil peças que ele mesmo havia encomendado semanas antes, com desenhos de Minions — personagens da animação “Meu malvado favorito”. O delegado justificou a operação alegando que os produtos eram falsificados. Machado, que era lotado na Corregedoria da Polícia Civil e já investigava Demétrio por cobrar propina de comerciantes, foi preso.O MPRJ informou ter descoberto a farsa ao analisar dados de um celular apreendido. Paralelamente à encomenda, Demétrio preparou a operação contra a loja. “Ana” passou a postergar a retirada da encomenda até o pedido de busca e apreensão ser autorizado. Demétrio batizou a operação de “Raposa no Galinheiro”

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