Apesar do medo, moradores de Kherson praticam atos de resistência à ocupação russa

Apesar do medo, os habitantes de Kherson afirmam usar várias formas de resistência contra a ocupação da cidade pelas tropas de Moscou há oito meses. As atitudes vão desde falar em ucraniano até apontar os movimentos do inimigo, ou se recusar a comprar produtos russos.

Contatados pela AFP, vários moradores desta importante cidade do sul da Ucrânia explicaram os meses da ocupação russa. Alguns deles mostraram seus atos de resistência para enfatizar o repúdio à tentativa russa de anexação do território.

Eles também contam sobre o medo de que simpatizantes pró-Rússia ainda estejam na cidade, escondidos desde a chegada de soldados ucranianos neste fim de semana.

"Há tantas pessoas, que ainda vejo todos os dias, que sei que nos denunciaram" aos russos, diz Olga à AFP, que não informou seu sobrenome por motivos de segurança.

"Nem todos esses desgraçados foram embora", diz a mulher de 47 anos, alguns dias após o exército russo, encurralado pela contra-ofensiva ucraniana, sair da margem oeste do rio Dnieper.

- "Muito medo" -

Desde a retirada dos russos e a chegada dos soldados de Kiev na sexta-feira (11), os moradores de Kherson se reuniram em uma praça no centro da cidade, com lágrimas de emoção e bandeiras ucranianas.

Eles falam sobre esses meses de ocupação enquanto esperam para conseguir algum sinal para seus telefones da Starlink (internet por satélite), única estação disponível na cidade.

Volodimir Timor, de 19 anos, conta à AFP sobre como ele e seus amigos passaram meses observando os movimentos dos soldados russos na cidade.

"Você observa com atenção e depois vai para casa e anota tudo, antes de enviar. Absolutamente tudo: telefones, papéis, roupas", explica esse jovem que antes da guerra queria ser músico.

“Relatamos tudo: onde estavam seus equipamentos e os depósitos de munições, onde dormiam, onde iam beber”, acrescenta.

Com essas informações, o exército ucraniano conseguiu definir as posições russas durante sua contraofensiva lançada em setembro.

- Evitar o contato -

Iryna Bovkun e Natalia Smyrnova também encontraram uma maneira de resistir.

As duas mulheres recolhiam a água do rio Dnieper, que atravessa Kherson, para banhos ou para limpar o solo. Isso limitava o consumo de água potável, um bem escasso.

"Algumas pessoas do nosso povo esperaram quatro ou cinco meses para comprar a comida trazida pelos russos", diz Bovkun, 55.

Há alguns meses, a Rússia introduziu o rublo como moeda, embora tenha deixado a possibilidade de usar as grívnas ucranianas restantes. No entanto, isso mudou após a anexação da região de Kherson por Moscou, no final de setembro.

Segundo Bovkun e Smyrnova, uma ex-contadora, os russos trouxeram produtos da Crimeia, anexada em 2014, que eram até 10 vezes mais caros do que os alimentos antes da guerra.

"Não posso dizer o quanto odiei tocar nesses rublos", diz Smyrnova.

- "Falava ucraniano" -

Lada Kolosovska, jornalista da rádio local, explica que sua arma de resistência era falar ucraniano.

"Eu falava ucraniano. Meus amigos falavam ucraniano entre si, como todo mundo. Até os habitantes de língua russa mudaram", diz a mulher de 47 anos.

Os serviços de segurança ucranianos limitaram as saídas de Kherson desde sexta-feira. Isso foi feito para evitar a fuga de possíveis colaboradores russos que não poderiam ter saído e se vestiram de civis para evitar os soldados de Kiev.

Analistas militares temem que a Rússia queira deixar células adormecidas e unidades de sabotagem em Kherson.

"É perigoso falar na rua", diz Olga, uma moradora.

Assim pensa Lada Koloskova. "Quando os russos chegaram em 1º de março, entendemos rapidamente que pretendiam ficar por muito tempo", explica.

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