Apesar de queda no número de passageiros, redução na frota faz com que ônibus continuem lotados no Rio

Luiz Ernesto Magalhães
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RIO — Se o total de passageiros de ônibus transportados no município do Rio caiu durante a pandemia de Covid-19 e ainda não se recuperou — foram 73,6 milhões de viagens em janeiro de 2020 contra 47,1 milhões em novembro (último mês disponível) — o número de veículos em circulação caiu na mesma proporção. É o que aponta um indicador do estudo feito pela Secretaria municipal de Transportes com base nos dados de GPS dos coletivos: o chamado índice de passageiro por quilômetro rodado (IPK) se manteve estável ao longo do ano passado. O de janeiro do ano passado é praticamente idêntico ao de novembro: 1,7 usuário. Os cálculos incluem pagantes e gratuidades e podem explicar por que os ônibus, apesar das medidas de isolamento social e de muita gente ter ficado em casa, se mantiveram e sem mantêm lotados.

— Os passageiros viajam com lotação semelhante à da pré-pandemia. É fato que houve queda no número de usuários, mas, se os ônibus rodam menos, os custos operacionais também são menores. Mas cabe observar que, antes da pandemia, o sistema já estava ruim e a quantidade de usuários estava em queda — observa o engenheiro Licínio Rogério, representante do Fórum Permanente de Mobilidade Urbana (da sociedade civil) no Conselho Municipal de Transportes, ao analisar as estatísticas da Secretaria municipal de Transportes.

Ele acrescenta não ser possível pensar no reordenamento do sistema sem que seja implantado um plano de racionalização que inclua todos os modais: não apenas ônibus, mas também trens, barcas e o metrô. Hoje, observa, só existem tarifas integradas no caso do Bilhete Único Carioca entre os ônibus convencionais, o BRT, as vans e o VLT.

— A solução também tem que passar pelo combate ao transporte clandestino, principalmente na Zona Oeste. E, mesmo com uma racionalização dos serviços, não vejo uma solução a curto prazo por conta da mudança no perfil de passageiros e da economia — disse Licínio.

Moradora da Muda e funcionária de um restaurante na Barra, a cozinheira Suely de Camargo, de 37 anos, continuou a trabalhar mesmo na pandemia. Ela diz ter a sensação de que o que mudou em relação ao período pré-Covid foi só a frequência dos ônibus.

— Antes, tinha coletivos de 10 a 15 minutos. Agora, espero por 25 a 30 minutos. Dizem que há menos passageiros nas linhas. Como quase sempre não tem lugar para sentar, meus pés dizem exatamente o contrário — ironizou.

O engenheiro especializado em Transportes da Coordenação de Programas de Pós Graduação em Engenharia (Coppe), da UFRJ, Paulo Cezar Martins Ribeiro, também tem críticas:

— Hoje, a prefeitura nem sequer tem um órgão voltado para o planejamento do transporte público, desde a extinção da SMTU, há mais de dez anos. A consequência é que, ao longo do tempo, as próprias empresas passaram a planejar a operação do sistema, avaliando as demandas do sistema conforme a conveniência delas.

Ex-subsecretário de mobilidade urbana do governo do estado em 2019, Paulo Cezar também tem críticas às empresas. Ele diz que o sistema de bilhetagem eletrônica adotado tanto na Região Metropolitana quanto no Rio de Janeiro é mantido pelo Riocard, ligado aos empresários. Uma das alternativas que o município vem debatendo é licitar o sistema para ter acesso a informações pelo próprio governo, das demandas das linhas, seja por passageiros pagantes ou gratuidades:

— O Riocard é uma caixa preta. Quando estava no estado, as empresas enviavam os dados não em planilhas eletrônicas, mas cópias em PDF nas quais as informações já haviam sido manuseadas — argumenta Paulo Cezar.

O porta-voz do Rio Ônibus, Paulo Valente, rebate:

— Os dados sempre estiveram à disposição — afirma ele. — Vão mostrar, por exemplo, que na prática a tarifa para as empresas não é de R$ 4,05. Se levarmos em conta as gratuidades (estudantes e idosos), na prática as empresas ganham R$ 2,98 por passageiro.