Apesar de testagem, passageiros de cruzeiro que registrou 28 casos de Covid reclamam de falta de organização

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Após a identificação, pela secretaria municipal de Saúde, de que 28 passageiros do navio MSC Preziosa — que atracou no Pier Mauá na manhã deste domingo — receberam diagnóstico positivo para a Covid-19, a embarcação foi esvaziada por volta de 15h30. A previsão inicial era de que o desembarque ocorresse às 9h, mas a liberação foi ocorrendo aos poucos ao longo do início da tarde, o que gerou reclamações dos passageiros que ficaram aguardando para embarcar e desembarcar ao longo da manhã.

Hamilton Burde saiu do navio por volta de 14h e reclamou de desorganização. Ele conta que todos foram orientados a ficar 14 dias isolados em casa ou nos hotéis em que estão hospedados.

— Achei uma falta de respeito da Anvisa e da MSC com os passageiros. Fizeram uma fila e depois desorganizaram tudo. Ficou uma aglomeração danada à bordo. Tinha muita informação desencontrada até a saída. Depois que tudo estava resolvido, a (secretaria municipal de) Saúde orientou que temos que ficar 14 dias de quarentena. Tinham quatro filas para sair. Uma coisa terrível. Cada grupo de porto sairia em um horário. No entanto, foi uma bagunça — relata o militar.

A empresária Jakeine Rodrigues veio de Goiás aproveitar a virada do ano no cruzeiro, que durou sete dias. Segundo ela, houve um rigoroso processo para embarcar no navio: foi cobrada a apresentação do comprovante das duas doses da vacina contra a Covid, além de todos os tripulantes terem sido submetidos a um teste de PCR minutos antes da viagem.

— Na quinta-feira, nos chamaram para fazer outro teste de PCR, mas dessa vez por amostragem, com 10% dos hóspedes. Eu e meus amigos, 12 pessoas, fizemos e todos demos negativo. Parece que uma pessoa do nosso andar, o 11º, deu positivo: mesmo assintomáticos, eles ficaram em quarentena dentro do quarto e a área foi isolada, com avisos nas paredes e nas portas dizendo que era uma área restrita e que só se podia entrar com equipamento de segurança. As festas ocorreram normalmente e, da parte do MSC, não tenho do que reclamar. Acho que não houve contaminação dentro do navio: acredito que alguém já estava infectado, mas o primeiro teste não identificou o vírus — acredita Jakeline.

A passageira Glaucia Bueno faz parte do grupo que não foi testado durante a viagem, apenas antes de embarcar.

— Nos avisaram ontem (sábado) que eram poucos casos de Covid e que a situação estava controlada. Eles fizeram testes por amostragem, até porque não daria para testar todo mundo. Acho que houve bastante controle, por isso não aconteceu tanta contaminação — disse a paulistana, que viajou para o Rio com seus dois filhos menores e decidiu sair do navio por volta das 15h para evitar as grandes filas que haviam se formado após a liberação, que começou por volta de 13h15.

O piloto Pablo Feder, por sua vez, contou que havia uma fila com prioridade pra deixar o navio e que, durante a espera, a MSC distribuiu pizza para os tripulantes. Mas isso não atenuou a irritação de muitos com a demora.

— Existia uma fila muito grande que está dando voltas dentro do navio. O pessoal da recepção disse que a prioridade é para idosos e pessoas com crianças. No entanto, não anunciaram nada nos altos falantes sobre poder deixar o local — destaca.

Por telefone, uma passageira que preferiu não se identificar destacou que há dois dias o 9º andar foi “praticamente todo isolado”. Era nesse local, segundo a mulher, que estavam os infectados:

— Eu estava nesse andar e não sabia o que estava acontecendo. Víamos pratos nas portas e ficamos sem entender. Só depois que informaram que as pessoas daquelas cabines estavam com Covid. É assustador porque muitas pessoas não falam português e não sabemos muita coisa.

Segundo a secretaria municipal de Saúde, os passageiros com casos positivos, se forem moradores do Rio e cidades próximas poderão cumprir isolamento em domicílio. Os de fora, serão isolados em hotéis específicos. Destacou ainda que o Centro de Informação Estratégica em Vigilância em Saúde do município vai monitorar os casos em residentes na cidade. A orientação é de uma quarentena de 14 dias.

O bombeiro militar Orlando Frade, é de Belém do Pará. Ele lembra que muitas pessoas estavam desesperadas porque perderam os voos para suas cidades. Ele contou que após o diagnostico do casos, todos passaram a fazer testagens rotineiramente.

– Eu nunca fiz tanto exame na minha vida para sair dele. Essas horas que passamos lá foram terríveis porque muita gente não mora no estado do Rio e precisa voltar para seus estados de origem. Uma moça estava desesperada porque perdeu uma passagem de R$ 4 mil e teria que comprar outra. Graças a Deus a minha viagem é para a noite, para Belém do Pará, mas muitas pessoas perderam seus embarques – destacou o homem que desceu pouco depois das 14h20.

A viagem desse navio já havia sido desmarcada outras duas vezes. A primeira rota seria para a Argentina, em 2020, no auge da pandemia. O primeiro casal a chegar no Píer Mauá para entrar na embarcação entrou na fila às 5h50. Vindos de Santa Catarina, os dois disseram, pela manhã, que "a empresa não está informando nada para quem vai embarcar".

— Sabíamos de outros casos, não neste navio. Há um ano e meio estamos esperando por essa viagem. São sete dias que vamos tentar aproveitar. Espero que nada aconteça — disse o empresário, sem se identificar.

Fábio Carrilho contou que quem estava dentro do navio temia ter que ficar de quarentena no local. Ele disse que um áudio foi passado na embarcação orientado os passageiros a se isolarem em casa.

– Não ficamos sabendo de nada (sobre desembarcar ou não), era só boato. No final, eles passaram um áudio atribuído a Vigilância Sanitária dizendo que era para a gente ir para casa e ficar isolado e quem tiver algum sintoma é para procurar um Posto de Saúde – conta o farmacêutico, que completa:

– (Após descobrirem os casos) Todo dia saía um informativo e a gente foi testado. Depois dessa luta, estar em terra firme é aliviante. Não sabíamos o tempo que iríamos ficar aqui porque não tinha informação nenhuma do desembarque. O meu medo era não descer e ficar aqui por vários dias. Até porque, tenho que ir para casa porque vou trabalhar amanhã.

A fila para embarcar no MSC Precioza chegou a quase um quilômetro no Boulevard Olímpico. O transatlântico atracou no local pouco antes das 7h30, liberando os tripulantes só cerca de seis horas depois. Do Rio, a mesma embarcação repetirá o trajeto para Ilhéus, Salvador e Maceió por sete dias.

O carioca Felipe Melo e seus amigos tinham embarque previsto para as 13h, mas, às 15h45, ele ainda seguia na fila.

— Demorou mais porque, antes de entrar na fila de embarque, a gente teve que ser testado (para Covid). Passageiros que estavam saindo disseram que também estavam fazendo uma desinfecção no navio. Pelo que nos falaram na entrada, o último grupo embarca às 17h e o navio parte às 20h — disse o gerente comercial.

Às 15h55, quando todos já tinham deixado o navio, a organização do cruzeiro liberou o armazém 5 para os novos tripulantes despacharem suas malas. Uma delas era a gaúcha Fernanda Oliveira Kuhn, que viajava com sua mãe e cujo horário de embarque estava marcado para as 11h.

— A explicação que nos deram é que a demora estava acontecendo por causa da Anvisa, porque eles estavam testando todo mundo à bordo. Com a desinfecção e essa testagem prévia, fico mais tranquila para viajar. Até porque tem resorts, hotéis, festas e shows que a gente sabe que não estão cumprindo nenhum protocolo. E uma viagem de cruzeiro é algo muito programado, né. Envolve todo um planejamento de bastante tempo — disse a agente de viagens.

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