Aplicou FGTS em ações da Petrobras? Saiba o que fazer com o derretimento na Bolsa

Patrícia Valle
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RIO - A semana começou com as ações da Petrobras em queda livre. Desvalorizaram, na segunda-feira, mais de 20%, com os analistas revisando suas recomendações para os papéis, alguns inclusive indicando venda. Tudo por causa da intervenção do presidente Jair Bolsonaro, insatisfeito com aumento de combustíveis, para trocar comando da estatal.

E para os trabalhadores que usaram parte do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para comprar cotas dos fundos FGTS-Petrobras? O que fazer enquanto as ações derretem na Bolsa?

Os especialistas em finanças orientam quem está nessa situação a pensar em quando será necessário o recurso antes de decidir vender as cotas. Isso porque quem investiu parte do FGTS não pode ter o dinheiro agora.

Se decidir vender as cotas em meio à baixa das ações da Petrobras, os recursos voltam para a conta do FGTS na Caixa.

O acesso só se dá nas condições previstas em lei, como demissão sem justa causa ou aposentadoria. A decisão então é entre esperar a poeira baixar e continuar apostando na estatal ou remeter os recursos de volta à gestão do FGTS, com os rendimentos nem sempre tão atraentes.

Rentabilidade do FGTS tem ganhado

No ano 2000, o governo implementou um programa em que os cotistas do FGTS tinham a opção de colocar parte dos recursos de suas contas em um fundo de investimento em ações da Petrobras.

De lá para cá, esses fundos renderam em média 743%, segundo dados da empresa de informações financeiras Economática. Já o FGTS acumulou cerca de 163,8% de alta no período, segundo o Instituto Fundo de Garantia do Trabalhador.

Mas, nos últimos anos a rentabilidade dos fundos FGTS-Petrobras deixaram a desejar. Nos últimos dez anos o fundo teve perdas (-7,9%), e o FGTS, considerando apenas o rendimento de 3% ao ano (sem TR e distribuição nos lucros), de 46,31%.

E nos últimos 12 meses, os fundos que investem em ações da Petrobras tiveram um retorno médio de -7%, enquanto, o FGTS valorizou 3,12%.

Melhor hora de sair passou

Para especialistas, decidir estar ou não em um fundo que investe em ações deve passar primeiro por analisar se a pessoa pode aceitar oscilações, e depois, se ela acredita que a empresa tem potencial de valorização futura.

— O investidor deve sair da renda fixa e ir para a renda variável quando acredita que mesmo a ação de uma empresa dará mais retorno no longo prazo que a renda fixa. Então, tudo depende do tempo que a pessoa tem para esse investimento e a sua perspectiva dele — afirma Valter Police, planejador financeiro.

Quem pode precisar dos recursos mais no curto prazo, está perto de se aposentar, ou usar os recursos para financiar a casa própria, por exemplo, é preciso ficar atento e pensar em uma estratégia. O valor pode oscilar muito e prejudicar planejamentos.

— Em geral não é recomendado sair quando se tem uma grande força de queda, mas também não se deve ficar em renda variável quando se pretende usar os recursos no curto prazo — diz Police.

Outra avaliação é que, mesmo que o investidor decida que não quer mais estar investido na Petrobras, pode não ser o melhor momento para sair, já que a queda já aconteceu e não há informações novas para saber o que será daqui para frente.

— Acredito que qualquer movimentação por conta do desgaste com a Petrobras já parece um tanto tardio. O ideal seria acompanhar como vai ser a condução da companhia agora. Usualmente, o mercado reage no começo de forma mais intensa do que o movimento se prova no final — afirma Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

Expectativa de rendimento baixo para FGTS

E comparando com a alternativa do FGTS, apesar de ter tido um rendimento atrativo frente a atual Selic em 2% ano, a expectativa é que o rendimento não fique mais tão interessante assim, pois a inflação tende a subir e a corroer a rentabilidade de 3% do FGTS.

— Agora é o momento do maior estrago, e olhando para o longo prazo, ainda não há nada que nos leve a achar que a Petrobras será uma empresa menos competitiva com as reservas do pré-sal que ela tem. E se a alternativa é ir para o FGTS, com retorno muito baixo, que não deve cobrir a inflação, é melhor ficar e não realizar a perda —afirma Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos.

A perspectiva geral é que a Petrobras ainda dê mais retorno do que o FGTS no longo prazo. A companhia se reestruturou, vendeu ativos e ficou mais eficiente e tem boas perspectivas para o pré-sal.

Mercado exagerou?

Para alguns analistas, o mercado está exagerando e a precificação ainda não tem um motivo claro. E, talvez, as intenções de intervenção mudem ao longo do tempo.

— Ficou barato demais. A empresa está avaliada em cerca de 50 bilhões de dólares e está previsto de gerar de caixa 28 bilhões de dólares. Como em dois anos ela vai gerar mais do que vale? E precisamos ver de fato o que pode haver de intervenção. O combustível está caro por causa do dólar, não do preço do petróleo. Se os juros subirem e o dólar recuar, esse problema pode ser resolvido sozinho. Precisamos esperar o que vai acontecer – avalia Ricardo Campos da Reach Capital.

Enquanto o mercado financeiro está aguardando informações sobre o novo presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna, para decidir o que a mudança pode significar para a companhia, as ações devem sofrer especulação.

— A gente não sabe o quanto essa crise de incerteza e um novo executivo pode impactar na empresa de fato. Ainda haverá um período de transição, e é preciso ver se de fato o novo presidente quiser intervir o que ele vai conseguir fazer. O mercado está penalizando a incerteza. E nos próximos três meses pelo menos ainda haverá muita volatilidade. A ação pode tanto subir quanto cair mais — afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.