Apneia com insônia e respiração estreita estão entre os desafios para se ter uma boa noite de sono

As pesquisas clínicas recentes na área da medicina do sono têm encontrado novos padrões de sintomas que vão muito além de identificar que o paciente ronca ou tem insônia. Em um congresso de neurociência que deu espaço ao tema, um grupo de pesquisadores apresentou quadros que variam de comportamento erótico noturno, uma nova síndrome de estreitamento das vias aéreas e a ocorrência simultânea de insônia crônica com apneia obstrutiva do sono.

Esses três tipos de quadro médico não são propriamente desconhecidos, mas ainda não são diagnósticos oficializados pela Classificação Internacional de Doenças. E apesar de não serem condições novas, têm aparecido cada vez mais em estudos e comunicações entre cientistas. Alguns desses novos distúrbios do sono já têm nome e sigla.

Um deles é a síndrome da resistência das vias aéreas superiores (SRVAS), um diagnóstico que começou a ser adotado para enquadrar aqueles pacientes que têm problema respiratório para dormir mas não possuem um quadro típico de apneia obstrutiva, a condição que bloqueia totalmente a passagem do ar e desperta a pessoa.

Como em geral ela não provoca danos tão graves quanto a apneia típica, a comunidade ainda debate sobre se a SRVAS é uma condição real, mas a epidemiologia da doença sugere ser um transtorno com um perfil diferente.

— A síndrome da resistência das vias aéreas superiores não é como a apneia, em que a pessoa basicamente para de respirar durante a noite em alguns momentos, mas ela provoca uma limitação de fluxo do ar que também acorda a pessoa — explica o neurorradiologista Sérgio Brasil Tufik, doutorado pela Unifesp e se especializando em administração pela Universidade Yale.

Jovens e mulheres

O pesquisador apresentou dados de pesquisa sobre a SRVAS no 21º Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções (Brain 2022), realizado na semana passada em Gramado (RS), dedicado a neurociência e comportamento. Essa síndrome tem frequência relativamente baixa no Brasil (3%), sendo mais frequente em jovens e mulheres. Esse padrão de ocorrência é exatamente o oposto da apneia, que apesar de ter 30% ou mais de prevalência, é mais comum em homens e idosos.

— A literatura sobre a apneia obstrutiva do sono cada vez mais mostra que existe em muitos casos uma neuropatia associada, e isso não é algo que a gente vê no paciente de SRVAS — explica Tufik. — Exite de fato, porém, uma limitação de fluxo respiratório, e provavelmente é por um motivo anatômico e morfológico.

É possível enxergar essa condição, ele afirma, como uma doença no “espectro” dos outros tipos de apneia, e o caso pode inclusive se agravar e passar para a apneia clássica.

Um outro tipo de quadro que tem ganhado uma visão diferente dentro da medicina do sono é a ocorrência simultânea de apneia obstrutiva e insônia crônica nas mesmas pessoas. Essa combinação é descrita na área pelo acrônimo Comisa (Comorbidade de Insônia e Sono com Apneia).

Combinação de problemas requer cuidado

Apesar de insônia e apneia serem duas condições bem conhecidas isoladamente, quando acometem ao mesmo tempo uma única pessoa o tratamento precisa ser mais cuidadoso, para que a solução para um dos males não agrave o outro.

— Estudos mostram que de 39% a 58% daqueles com apneia obstrutiva do sono têm também insonia. Do outro lado, de 29% a 67% dos pacientes com insônia têm algum grau de apneia obstrutiva — afirma Luciano Drager, do departamento de Clínica Médica da USP, que foi um dos participantes do 21º Congresso de Cérebro, Comportamento e Emoções.

Segundo ele, tratar a insônia antes da apneia em geral é a melhor estratégia, porque facilita o período de adaptação ao CPAP, aparelho usado para tratar a apneia.

Outros transtornos que têm atraído uma atenção particular na ciência do sono estão no campo das “parassonias”, que incluem sonambulismo e terror noturno. Muitas crianças que têm sono perturbado, por exemplo, não se enquadram dentro do quadro típico de “síndrome das pernas agitadas”, porque apresentam movimentação de todo o corpo durante a noite e o transtorno parece ter origem diferente, como deficiência de ferro.

Segundo Gustavo Moreira, pesquisador do Instituto do Sono da Unifesp, o diagnóstico adequado da condição requer uma videopolissonografia (monitoramento com filmagem), e o tratamento é diferente, podendo envolver suplementação de ferro.

‘Sexônia’ pode resultar até em ferimentos

Uma outra parassonia, apesar de mais rara, tem atraído atenção dos pesquisadores da área, porque tem o potencial de deixar os pacientes muito perturbados. A “sexônia”, que consiste em masturbação ou comportamento sexual durante o sono profundo, frequentemente resulta em ferimentos nos portadores ou em seus parceiros de cama, explica Monica Levy Andersen, professora da Unifesp, que palestrou sobre o tema no congresso.

Segundo Drager, da USP, a descrição de novas doenças na medicina do sono pode ajudar a direcionar pesquisa e tratamento, mas tem que ser criteriosa.

— É preciso mostrar que esse conhecimento é novo e que ele tem relevância. Não adianta ficar criando doenças se elas não têm impacto — diz o médico: —Eu não falo para meus pacientes “você tem Comisa”, que é nosso jargão nosso cientifico. A gente precisa mesmo combater essa criação de novas doenças. Mas tem que explicar para o paciente nesse caso que ele tem uma associação de doenças, usando termos adequados. A linguagem para o público tem que ser muito clara.

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