Apoio de Lucas a Bolsonaro confronta valores do Tottenham

Lucas Moura com o prêmio de melhor jogador da Premier League em agosto (Henry Browne/Getty Images for Premier League)

Por Pedro Reinert (@reinertp_)

Torcedores de todos os cantos do mundo foram surpreendidos nesta segunda-feira (10) quando o meia-atacante Lucas Moura, ex-São Paulo e PSG, hoje jogador do Tottenham, declarou abertamente seu apoio ao candidato à presidência, Jair Bolsonaro, do PSL.

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No Twitter, o atleta foi inicialmente criticado por um fã brasileiro que notou que Lucas havia curtido diversas publicações do candidato direitista. O camisa 27 dos Spurs questionou a crítica e abriu precedentes para que outros torcedores desapontados com seu posicionamento político expressassem suas opiniões — da mesma forma, é claro, Lucas também recebeu o apoio de outros tantos perfis que compactuaram com seu ponto de vista.


Munido por centenas de considerações em resposta ao post original, o jogador publicou mais de vinte tweets — todos em defesa de Bolsonaro e de seus ideais —, comentando sobre racismo, homofobia, militarização policial e a realidade política do Brasil.

As redes sociais concedem às figuras públicas um poder de voz que a imprensa nunca seria capaz de oferecer por conta própria, e em virtude dessa evolução, cada vez mais celebridades (artistas, atletas, influenciadores e, por que não, jornalistas) usam deste espaço democrático — e muitas vezes irrestrito — para fazerem suas opiniões ouvidas e, consequentemente, propagadas.

Para além da esfera popular das redes sociais e do julgamento de cada um sobre a posição de Lucas, porém, há um desacordo substancial entre o teor das opiniões do atleta e o perfil da organização que atualmente o emprega.

O bairro de Tottenham, que abriga o clube há 136 anos, fica numa periferia do norte de Londres. Sua comunidade é majoritariamente composta por imigrantes, entre negros, árabes, judeus, irlandeses e brancos de classe média ou baixa, e a história dessa região (e de sua população) é parte integrante da história do clube (e vice-versa).

Existe uma forte relação entre o clube e as minorias locais, resistente ao tempo e à modernidade do esporte, que ainda não foi e provavelmente não será desfeita. Gerações que tem suas raízes longe da Inglaterra, ou mesmo ingleses que não conseguiram tiveram no White Hart Lane (o antigo estádio dos Spurs, demolido no ano passado) um espaço acolhedor ao longo da vida.

Não é coincidência que o Tottenham foi o primeiro time da divisão de elite a contratar um jogador negro em 1909, ou que recentemente tenha sido fundada logo ao lado do estádio a Lilywhite House — um centro comunitário que possui escola técnica, supermercado e enfermarias acessíveis para a comunidade de baixa renda. Dentro do plano de construção de seu novo estádio, inclusive, há um projeto de revitalização do bairro que inclui novas moradias populares, manutenção da infraestrutura de saneamento e segurança e, por consequência, geração de diversos empregos.

A torcida já sofreu certa opressão dentro deste retrato. Nos anos 1970 e 1980, as torcidas organizadas autodeclaradas nazistas dos rivais (lideradas pela famosa Combat 18, do Chelsea) cantavam “Hitler vai mandá-los para o gás outra vez; Ponha um judeu no gás, coloque-o no forno, cozinhe até o fim!”, pregando não só o antissemitismo, mas também a xenofobia e o ódio deliberado. Mais recentemente, torcedores do West Ham também proferiram cânticos como “Hitler está vindo te pegar!” em jogos no White Hart Lane.

O Tottenham não é um time fundamentalmente de esquerda, mas sempre representou uma visão progressista e construtivista dentro de seu meio (tanto no que diz respeito à bola rolando quanto em suas ações nos bastidores), além de por diversas vezes ter revelado uma preocupação singular com as minorias da população que ajudaram a construir sua história. Ou seja, pelo menos essencialmente, estaria posicionado longe do conservadorismo.

Um caso próximo a este aconteceu no ano passado, quando o Tottenham iniciou negociações para contratar o lateral Serge Aurier, também ex-PSG. Em 2016, o marfinense foi condenado por agredir um policial em Paris e escapou por pouco de uma sentença na cadeia. No mesmo ano, Aurier fez uma transmissão ao vivo no Periscope, na qual insultou e atacou verbalmente alguns companheiros de equipe e o então técnico da equipe, Laurent Blanc — na transmissão, Serge se referiu ao goleiro Salvatore Sirigu como gay, chamou Blanc de ‘veado’ e disse que o técnico ‘aguenta de tudo’, além de sugerir que o comandante gostava de fazer sexo oral em Zlatan Ibrahimovic.

Sabendo do histórico polêmico e da índole duvidosa do lateral, a torcida londrina uniu forças de diversas formas para se posicionar contra sua contratação, num movimento semelhante ao de muitos corintianos que vetaram a compra do atacante Juninho. A Proud Lilywhites, torcida organizada LGBT do clube, pressionou diretamente a diretoria do clube e se fez ouvida até pelos conselheiros.

O Tottenham acabou contratando Serge Aurier, mas o marfinense foi apresentado ao lado de membros da Proud Lilywhites e abertamente reviu sua postura por meio de um discurso. No dia da apresentação, um dos líderes da organizada pontuou: “Numa situação como essa, temos a oportunidade de conversar sobre o tipo de jogo que queremos ver, o tipo de jogadores pelos quais queremos torcer e o tipo de clube que queremos ser. Queremos fazer mudanças muito bem enraizadas.”

Lucas recebeu o prêmio de Melhor Jogador do Mês da Premier League por suas atuações excepcionais em agosto, mas o carinho de boa parte da torcida parece ter sido colocado em cheque. Logo depois das declarações polêmicas do meia, a torcida dos Spurs expressou seu descontentamento com o jogador e a questão vem sendo cada vez mais debatida nas redes sociais.

Grupos, fóruns e até os perfis oficiais da equipe foram tomados por comentários de torcedores locais sobre o caso. “Triste ver que muitas pessoas estão achando que está tudo bem. Achei que fossemos um clube vastamente antifascista”, ressaltou um torcedor. “Já me arrependi de ter comprado uma camisa dele depois da vitória em Old Trafford”, disse outro.

Não é possível — nem apropriado— exigir que todos os atletas de uma equipe compartilhem dos mesmos valores defendidos pelo clube. Boa parte dos jogadores dos Spurs, inclusive, discutem questões políticas e sociais entre si, e naturalmente diversas opiniões contrárias devem ser levantadas e debatidas, mas nenhum deles faria certo ao levar estes assuntos para fora do vestiário. Existe algo muito maior do que a simples exteriorização de uma opinião pessoal quando essa expressão tem uma entidade pública (como um time de futebol) por trás.

Democraticamente, Lucas Moura é livre para pensar — e votar — como melhor entender, mas lhe faltou sensibilidade para compreender o contexto no qual está inserido atualmente. As ideias defendidas por seu candidato vão absoluta e agressivamente contra o que seu não-tão-novo time representa e patrocina. A torcida, além de seus colegas de equipe e superiores, por agora, já tem plena noção deste fato e do que ele pode representar para o clube. Resta, então, saber como todos os envolvidos vão tratar deste seu deslize ideológico.

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