Apontar gordofobia no clipe de Taylor Swift não desmerece os transtornos da cantora

Taylor Swift em clipe de
Taylor Swift em clipe de "Anti-Hero". Foto: Reprodução/Youtube

Resumo da notícia:

  • Taylor Swift foi acusada de gordofobia por balança com palavra "gorda" em clipe

  • Vídeo de "Anti-Hero" precisou ser alterado após repercussão negativa

  • Acusações sobre a cena não anulam transtornos da cantora

Quem está por dentro das redes sociais ficou sabendo que Taylor Swift virou alvo de acusações de gordofobia, preconceito contra pessoa gordas, por um trecho específico do clipe de "Anti-Hero". A motivação foi a cena da cantora subindo em uma balança, em que aparece a palavra "Fat", traduzido para "gorda" em português, no lugar dos números.

Após pressão de internautas, o vídeo foi atualizado com a retirada dessa imagem, mas nem todos entenderam que o apontamento não é um ataque pessoal à artista. Além disso, também não é uma anulação dos transtornos alimentares da norte-americana, que já declarou ter sofrido disso no passado.

"Taylor Swift está sendo acusada de gordofobia por alguns internautas que assistiram ao video clipe de "Anti-Hero". A acusação é falsa, visto que a cena em específico que estão comentando fala sobre uma experiência pessoal da Taylor com o seu corpo e o T.A", diz uma publicação de fã-clube indignado no Twitter.

O fato é que usar a palavra "gorda" de forma pejorativa perpetua uma cultura que demoniza corpos gordos há décadas. Quando Taylor coloca esse termo na balança como algo negativo em sua trama, ela ajuda inconscientemente a alimentar a indústria do culto à magreza mesmo sendo a retratação de um drama pessoal.

Izabel Gimenez, influenciadora ativista contra a gordofobia com a conta Bel Sem Padrão, não considerou a cena em específico gordofóbica, mas enxergou que ilustra a gordofobia estrutural da sociedade por mostrar a forma como Taylor, de fato, se sentia perante sua história com distúrbios. No entanto, ela ressalta o quanto a visibilidade do trecho do vídeo sem contexto prévio pode ser prejudicial.

"É positivo que a cena tenha sido retirada, porque quem vai assistir ao clipe sem esse contexto de que aquilo era vivência dela pode acabar associando aquela palavra ou aquela cena a algo na sua vida. Aí pode dar algum gatilho, reforçar todos os estereótipos que a gente já conhece", opina.

Gordofobia x transtorno

Ter um transtorno alimentar não te anula de ser gordofóbica, já que a maioria dessas condições giram justamente em torno do terror por engordar. "Acho que o debate sobre o assunto é muito mais enriquecedor do que simplesmente tirar o clipe e ficar por isso mesmo. Fica como se fossem assuntos conflitantes e, na verdade, eles andam juntos. Muito da gordofobia acaba reforçando o transtorno alimentar para muitas mulheres. Uma coisa liga a outra", reflete.

No entanto, ela acredita que só apagar a cena não é o suficiente, já que é o objetivo é também aproximar o discurso de pessoas que não tenham entendimento da problemática e possam ser vítimas de transtornos que são motivados pela gordofobia. "A gente tem que explicar por que que vai apagar, explicar o que tem de errado em associar o peso ao ser gordo e a algo negativo", completa.

Logo, o ponto crucial dessa discussão é o fato de que reproduzir gordofobia é algo extremamente enraizado no comportamento da sociedade, principalmente em pessoas magras. Apontar essa questão é dolorido tanto para quem sofre quanto para quem é acusado, porque nos tira da zona de conforto, mas é a forma de conscientização para que possamos evoluir cada vez mais no diálogo.

Inclusive, corrigir a parte controversa do clipe não desandou a história contada pela diva pop. Sua briga com a balança continuou sendo exibida na intenção de reproduzir a angústia de passar por um transtorno alimentar, que atinge tantas pessoas. Apenas é preciso entender que não é necessário reforçar um problema para ilustrar outro, já que ambos são frutos de uma pressão estética inatingível.

Reproduzir gordofobia é algo extremamente enraizado no comportamento da sociedade

Quando gordo deixar de ser ofensa e voltar a ser apenas uma característica, poderemos parar de questionar o uso da palavra. Por enquanto, seguimos encontrando preconceito com pessoas gordas na moda, nas relações afetivas, no mercado de trabalho, na área da saúde, nos transportes públicos, no convívio social e em tantos outros meios.

Embora muito já tenha sido feito na última década, ainda andamos a passos curtos rumo a uma sociedade que, de fato, entenda o quanto desconsiderar a existência da gordofobia é insistir na invisibilidade e prolongar o sofrimento de quem não mora num corpo padrão.