Após 1 mês, MPRJ investiga fraude da PM na morte de Kathlen Romeu

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Kathlen Romeu, missa de sétimo dia, Rio de Janeiro. Foto: Reprodução.
Kathlen Romeu, missa de sétimo dia, Rio de Janeiro. Foto: Reprodução.
  • Reconstituição do crime foi marcada para o próximo dia 14, com a presença da avó da vitima;

  • Auditoria militar do Ministério Público investiga fraude processual;

  • "As operações acontecem, matam inocente e tudo volta ao “normal”. Menos a nossa vida!", diz a mãe de Kathlen.

Nesta quinta-feira, completa-se 1 mês desde a execução de Kathlen de Oliveira Romeu, morta em operação da Polícia Militar no Complexo do Lins, zona norte do Rio de Janeiro. A jovem estava grávida de 4 meses e foi atingida por um tiro no tórax. Chegou a ser levada para o Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e o Ministério Público do Rio de Janeiro investigam a morte, com suspeitas de fraude processual por parte do PMs envolvidos no caso, que configura em alteração da cena do crime. A reconstituição do assassinato está marcada para o próximo dia 14, quarta-feira. 

Jaqueline Lopes, mãe de Kathlen, acredita que as investigações estão avançadas. Porém, não espera superar tão cedo a morte da filha. "Não existe uma rotina. Tudo mudou pra pior. Durmo e acordo chorando, sem aceitar e sem acreditar no que aconteceu. Existem abraços, orações, mensagens de carinho. Através disso me mantenho de pé e sobrevivo ao caos", contou. 

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Questionada sobre a solução do caso, ela diz: "Não sei qual será o desfecho, mas não posso ter perdido tão grande pra ser em vão". Jaqueline voltou ao local do crime para o memorial feito em homenagem a filha, e crê que o dia a dia na comunidade não mudou. "As operações acontecem, matam inocentes e, como sabemos, tudo volta ao “normal”. Menos a nossa vida! O Estado falido, doente, insano, sanguinário com essa necropolítica segue nos silenciando".

"O assassinato dela é mais um episódio de uma politica baseada em armas, mortes e produção de insegurança. É muito triste que uma mulher grávida perca a vida, e mais triste ainda que ela seja uma entre as milhares de vidas ceifadas co tempo inteiro com este tipo de política", afirmou Guilherme Pimentel, ouvidor da Defensoria Pública do Estado. 

Missa em homenagem a Kathlen. Foto: Reprodução.
Missa em homenagem a Kathlen. Foto: Reprodução.

"Não sei qual será o desfecho, mas não posso ter perdido tão grande pra ser em vão", disse Jaqueline, mãe da jovem.

Investigação do MP suspeita de alteração da cena do crime

Rodrigo Mondego, procurador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, vem acompanhando os familiares de Kathlen em depoimentos na Delegacia de Homicídios da Capital e Ministério Público. Foram ouvidos a avó paterna, Sayonara Fátima, no último dia 29, e os pais da jovem. 

Mondego adiantou que o promotor do Ministério Público junto à auditoria de Justiça Militar, Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, revelou que há indícios de fraude processual na operação - que indica que o local do crime não foi preservado, podendo ter sido alterado pela própria PM. Em entrevista ao Yahoo Notícias, a esteticista Monique Messias, madrinha da vítima, contou que conhecidos da comunidade viram policiais retornando ao local do crime para retirar cápsulas de balas do chão, na intenção de ocultar os responsáveis pela morte da modelo.

Moradores da comunidade Barro Vermelho, no Complexo do Lins, afirmam que o tiro de fuzil que matou Kathlen Romeu partiu da Polícia Militar. Três moradores foram contactados para serem testemunhas da investigação, mas ainda não prestaram depoimento por medo de represálias. 

"Não se sabe ainda informações sobre o número de policiais, além dos cinco já investigados pelo MP. Dois deles, especificamente, já contaram que atiraram durante a operação. Agora, é ouvir a versão deles e confrontar com a versão da avó sobre o que ocorreu", avalia Mondego. 

Conforme publicou o jornal Extra no último dia 29 de junho, 12 PMs estão afastados do cargo durante as investigações. A Polícia Civil investiga o caso e apreendeu 21 armas de policiais.

Grafite em homenagem a Kathlen Romeu. Foto: Arquivo pessoal.
Grafite em homenagem a Kathlen Romeu. Foto: Arquivo pessoal.

Há duas investigações em curso: uma parte criminal, onde a auditoria militar do Ministério Público do Rio de Janeiro suspeita de crime militar; e outra que busca responsabilizar o autor do tiro. Procurado, o MPRJ confirmou que "existem investigações em andamento pela 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro e pela Promotoria de Justiça junto à Auditoria Militar do MPRJ".

Não se sabe ainda informações sobre o número de policiais, além dos cinco já investigados pelo MP. Dois deles, especificamente, já contaram que atiraram durante a operação. Agora, é ouvir a versão deles e confrontar com a versão da avó sobre o que ocorreu", avalia Mondego, da OAB RJ

Testemunha diz que policial matou Kathlen: 'Não existiu troca de tiros'

Uma moradora do Complexo do Lins, que estava no momento em que Kathlen foi morta, afirmou que os disparos partiram de um policial. A testemunha prefere não ser identificada por medo de represália dos agentes da UPP do Lins, mas contou que não havia no momento da morte nenhum confronto entre policiais e bandidos, diferente da versão oficial divulgada até o momento.

"Eu estava na hora exata, eles (os policiais) já estavam escondidos dentro da comunidade desde as 6h da manhã. Não havia confronto, o que tinha eram as crianças e moradores circulando pela favela", afirmou a testemunha ao Yahoo Notícias.

Kathlen foi levada pela viatura dos policiais até o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, zona norte do Rio, onde sua morte foi confirmada. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) constatou que ela e o filho morreram por causa de um tiro de fuzil no peito.

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