Após 3 casos de transfeminicídio em um mês, parlamentares criam "frente popular" em defesa das pessoas trans em PE

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Em Recife, capital de Pernambuco, foram registrados três casos de transfeminicídio contra mulheres trans em apenas um mês; mais recente ocorreu na última segunda-feira (Foto: Reprodução)
Em Recife, capital de Pernambuco, foram registrados três casos de transfeminicídio contra mulheres trans em apenas um mês; mais recente ocorreu na última segunda-feira (Foto: Reprodução)
  • Recife registrou três casos de transfeminicídio contra mulheres trans em apenas um mês; mais recente ocorreu na última segunda-feira (5)

  • Após a repercussão desses casos, parlamentares articulam a criação de uma “frente popular” em defesa dos direitos da população trans

  • Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo

De acordo com levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), houve número recorde de assassinatos contra travestis e mulheres trans em 2020. Ao todo, foram 175 ao longo do primeiro ano de pandemia no Brasil. Em 2021, apenas nos quatro primeiros meses do ano, foram registrados 56 assassinatos: 54 mulheres trans/travestis e dois homens trans/transmasculinos.

O número pode ser ainda maior. Isso porque, apenas em Recife, capital de Pernambuco, foram registrados três casos de transfeminicídio contra mulheres trans em apenas um mês. O mais recente ocorreu na última segunda-feira (5).

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A cabeleireira negra e travesti Crismilly Pérola, de 37 anos, foi encontra morta às margens do Rio Capibaribe, na comunidade da Beira-Rio, no bairro da Várzea, com marcas de tiro. O homicídio foi encaminhado para o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e segue em investigação.

No último dia 24, apenas seis dias depois, a travesti Roberta da Silva teve 40% de seu corpo queimado no Cais de Santa Rita, na região central da cidade. Ela teve seus dois braços amputados por complicações das queimaduras na pele e segue internada. Um adolescente foi identificado como autor do crime.

No último dia 18 de junho, a transexual negra Kalyndra Selva foi encontrada morta com marcas de estrangulamento dentro de sua própria residência, no bairro do Ipsep, na Zona Sul do Recife. O ex-companheiro é o principal suspeito.

A criação do grupo foi definida nesta terça-feira (6), após uma reunião on-line entre mandatários e representantes de movimentos ligados a pessoas trans (Foto: Sumaia Villela/Agência Brasil)
A criação do grupo foi definida nesta terça-feira (6), após uma reunião on-line entre mandatários e representantes de movimentos ligados a pessoas trans (Foto: Sumaia Villela/Agência Brasil)

"Frente popular" em defesa da população trans

Após a repercussão desses casos de violência, parlamentares da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e de Câmaras municipais da Região Metropolitana articulam a criação de uma “frente popular” em defesa dos direitos da população trans.

Segundo o jornal Folha de Pernambuco, a criação do grupo foi definida nesta terça-feira (6), após uma reunião on-line entre mandatários e representantes de movimentos ligados a pessoas trans.

A codeputada Robeyoncé Lima (PSOL), do mandato coletivo Juntas, afirmou que o objetivo é reunir deputados e vereadores que defendam a adoção e criação de políticas políticas voltadas para essa população.

"Não tem a oficialidade de uma frente parlamentar, até porque a gente está no mês de julho e as casas parlamentares estão em recesso. Mas nada impede que a gente trabalhe em uma frente ampla com organizações da sociedade civil para cobrar demandas em relação aos direitos da população LGBTQIA+”, explicou ao jornal.

No entanto, a codeputada não escondeu que pretende formalizar a proposta o quanto antes. Segundo ela, na reunião foram debatidas também outras propostas como a construção de uma casa-abrigo para pessoas LGBTQIA+.

A frente será composta, além das Juntas, pelos vereadores Ivan Moraes (PSOL), Dani Portela (PSOL) e Cida Pedrosa (PCdoB), do Recife; Vini Castelo (PT), de Olinda; e Flávia Hélen (PT), de Paulista, cidade na Região Metropolitana. 

Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo

Embora os dados da pesquisa realizada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mostrem uma suposta queda no número de mortes de assassinatos contra pessoas trans neste ano em comparação a 2020, a associação ressalta que "não há o que comemorar".

"Qualquer pesquisa simples em um mecanismo de busca na internet, denuncia o quanto a violência direcionada a pessoas trans segue presente no cotidiano dessas pessoas", afirma a associação.

No documento, a ANTRA cobra uma ação ou implementação de política pública por parte de estados e governo federal para enfrentar a "epidemia do assassinato de pessoas trans no país".

"Até o momento não foi tomado qualquer tipo de ação ou implementada qualquer política pública por parte dos estados e do governo federal para enfrentar a epidemia do assassinato de pessoas trans no país, que seguiu como o que mais assassina pessoas trans do mundo em 2020".

Crismilly Pérola foi encontrada morta na Comunidade da Beira Rio, às margens do Rio Capibaribe; o caso de transfeminicídio já o terceiro registrado na capital em apenas um mês
Crismilly Pérola foi encontrada morta na Comunidade da Beira Rio, às margens do Rio Capibaribe (Foto: Reprodução)

Isso porque o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Se no Brasil houve 175 casos de assassinatos de pessoas trans em 2020, nos Estados Unidos, por exemplo, foram 44 no mesmo período, de acordo com levantamento da ANTRA.

Já em 2021, nos quatro primeiros meses, enquanto nos EUA 19 pessoas trans assassinadas, no Brasil, o número foi 56 assassinatos.

O que diz a Polícia

A Polícia Civil informou que o delegado Victor Meira, da 4ª Delegacia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), é o responsável pelo inquérito que investiga a morte da cabeleireira Crismilly Pérola, baleada na comunidade Beira-Rio, no bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife.

Porém, em nota, informou que não irá dar mais informações sobre as diligências “para não atrapalhar o andamento das investigações”.

Prefeito em silêncio

No caso da travesti Roberta da Silva, que teve 40% de seu corpo queimado e, como consequência, os dois braços amputados, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), usou as redes sociais para comentar o caso, classificando o episódio como "intolerável".

Nos outros dois casos em menos de um mês, o prefeito não se manifestou nas redes sociais. Procurada pelo Yahoo! Notícias, a administração municipal ainda não se posicionou. 

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