Após comentário sobre Holocausto, comentarista de TV é exonerado da Alesp

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José Carlos Bernardi fez comentário relacionando Holocausto com enriquecimento da Alemanha (Foto: Reprodução)
José Carlos Bernardi fez comentário relacionando Holocausto com enriquecimento da Alemanha (Foto: Reprodução)
  • José Carlos Bernardi, comentarista da Jovem Pan, também era assessor no gabinete do deputado estadual Campos Machado

  • Após comentário relacionando Holocausto com enriquecimento da Alemanha, Bernardi foi exonerado do gabinete

  • Campos Machado afirmou que não poderia compactuar com fala do comentarista

O comentarista da Jovem Pan News José Carlos Bernardi era, também, assessor do deputado estadual Campos Machado (Avante). Após comentários relacionando a morte de judeus pelo regime nazista com o sucesso econômico da Alemanha, ele foi exonerado do cargo comissionado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Segundo informações da colunista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a exoneração será publicada no Diário Oficial na quinta-feira (18). Ele ocupava o cargo desde maio e recebia salário de R$ 12,1 mil. Ao mesmo tempo, era comentarista da Jovem Pan.

A exoneração acontece após falas de Bernardi no Jornal da Manhã na última terça-feira (16). Ao falar sobre a Alemanha, ele disse que o país havia enriquecido por ter “assaltado todos os judeus”. O comentário causou indignação.

À Folha, Bernardi negou ter sido exonerado e afirmou que foi ele quem optou por deixar o cargo. Campos Machado, por outro lado, explicou que a opinião foi grave e, por isso, optou por exonerar o assessor.

“Por princípios, tenho o hábito de respeitar o inalienável direito de opinião de qualquer cidadão, inclusive a de todos os meus funcionários. No entanto, em face da gravidade da opinião emitida por meu assessor, e tendo em vista os excelentes laços de amizade e respeito que tenho com a comunidade judaica, não poderia deixar de manifestar meu repúdio ao comentário, como o fiz ontem mesmo, tão logo tomei conhecimento da referida notícia”, disse o deputado em nota.

Campos Machado lembrou ainda que foi autor do projeto de lei que criou em São Paulo o Dia Estadual de Lembrança do Holocausto, por isso “não poderia continuar contando com os serviços profissionais do autor desse absurdo pronunciamento”.

Entenda o caso

Em uma discussão com a comentarista Amanda Klein, Bernardi criticou a chanceler alemã Angela Merkel e a chamou de "globalista" - termo comum entre os seguidores de Olavo de Carvalho - e acusou países europeus de estarem tentando interferir na soberania da Amazônia, argumento já usado previamente pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Amanda Klein, então, respondeu: "Quem dera o Brasil chegar aos pés do desenvolvimento econômico da Alemanha", e ressaltou a igualdade social no país.

O colega de emissora associou o sucesso econômico do país ao Holocausto. "É só assaltar todos os judeus que a gente consegue chegar lá. Se a gente matar um monte de judeus e se apropriar do pode econômicos dos judeus, o Brasil enriquece. Foi o que aconteceu com a Alemanha pós-guerra", declarou José Carlos Bernardi.

O comentarista foi criticado por Amanda, que chamou as ideias dele de "reacionárias, obscurantistas e erradas", e também nas redes sociais, por disseminar acusações falsas, sem relação direta. Bernardi, então, se defendeu.

"O pessoal precisa aprender a interpretar texto. Ouvem palavras soltas e tiram conclusões erradas. Volta a gravação e ouça novamente", declarou.

Além da fala contraditória sobre a Alemanha, o comentarista também fez comentários islamofóbicos. Bernardi criticou Angela Merkel por "abrir as portas para o mundo árabe" e, sem problemas, acusou muçulmanos de estarem "estuprando mulheres alemãs em praça pública".

Críticas por parte da Confederação Israelita

A Confederação Israelita do Brasil (Conib) repudiou a fala do comentarista. Em nota oficial, a entidade afirmou que " forma como essa narrativa foi colocada à imensa audiência da JP gerou justificada consternação e revolta na comunidade judaica. Em atenção ao nosso compromisso de zelar pela memória e dignidade das vítimas do Holocausto e de seus descendentes, entendemos ser de fundamental importância alertar aos formadores de opinião que a comparação de situações contemporâneas com os horrores do Nazismo e do Holocausto, para qualquer finalidade, é extremamente dolorosa ao povo judeu".

"O Holocausto foi um ato sem paralelo na história humana e representa o capítulo mais trágico da história do nosso povo, que culminou no extermínio cruel de 6 milhões de judeus indefesos, dentre os quais 1.5 milhões de crianças judias. A preservação dessa memória é fundamental para que horrores como aqueles não se repitam e é uma das prioridades das comunidades judaicas em todo o mundo. Nesse sentido, informamos que temos como slogan da nossa luta e permanente campanha as palavras 'Não compare o incomparável', que traduzem a gravidade do assunto."

O que dizem o comentarista e a Jovem Pan

O tuíte inicialmente publicado pelo comentarista José Carlos Bernadi foi apagado. Mais tarde, ele divulgou uma nota oficial, em conjunto com a Jovem Pan, pedindo desculpas e alegando ter sido "mal entendido".

"Por meio desta nota, o jornalista José Carlos Bernardi pede desculpas após posicionamento feito no Jornal da Manhã, transmitido em 16/11/2021, em uma discussão com a comentarista Amanda Klein. 'Peço desculpas pelo comentário infeliz que fiz hoje no Jornal da Manhã, primeira edição, ao usar um triste fato histórico para comparar as economias brasileira e alemã. Fui mal-entendido. Não foi minha intenção ofender a ninguém, a nenhuma comunidade, é só ver o contexto do raciocínio. Mas, de qualquer forma, não quero que sobrem dúvidas sobre o meu respeito ao povo judeus e que, reitero, tudo não passa de um mal-entendido. Obrigado', diz José Carlos Bernardi. O grupo Jovem Pan reforça que as visões de seus comentaristas não refletem necessariamente a opinião da empresa."

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