Após denúncias de racismo e vasectomia forçada, justiça da Angola analisa caso da Igreja Universal no país

Alma Preta
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Aumento de tensões já levou ao envolvimento dos governos do Brasil e de Angola; segundo diplomata, disputa não deve se transformar em política. Foto: DW/J.Beck
Aumento de tensões já levou ao envolvimento dos governos do Brasil e de Angola; segundo diplomata, disputa não deve se transformar em política. Foto: DW/J.Beck

Texto: Guilherme Soares Dias Edição: Nataly Simões

Dois processos sobre os escândalos que envolvem os bispos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola estão em instrução preparatória na Procuradoria-Geral da República (PGR) do país. O anúncio foi feito pelo ministro angolano da Justiça e dos Direitos Humanos, Francisco Queiroz, no final do encontro entre o governo e os deputados que abordaram o conflito.

De acordo com a agência Deutsche Valle (DW), as autoridades angolanas afirmam que a discórdia não deve ser transformada em fato político. A justiça angolana vai analisar a denúncia de 300 pastores angolanos que acusam a ala brasileira da igreja de praticar crimes de evasão fiscal, racismo e outros atos que atentam contra os hábitos culturais de Angola, como obrigar os pastores a fazer vasectomia.

O conflito aumentou em junho com a tomada de templos por parte dos dissidentes. Já os bispos e pastores da Igreja Universal acusam o grupo de mobilizar ex-pastores, alegando discordância com os brasileiros e “outras infâmias que servem de argumentos para sustentar a sua tese de rebelião e justificativa para cometimento de atos criminosos como: invasão, furto, agressão, calúnia, entre outros”, de acordo com uma carta aberta divulgada nesta semana.

O embaixador brasileiro em Angola considerou que se trata de um episódio muito específico, mas que naturalmente tem repercussão política. “Não cabe ao Estado tomar partido em uma disputa que é privada, cabe sim defender o interesse dos seus cidadãos desde que respeitem as leis locais”, afirmou Paulino de Franco Carvalho, que considerou que este “pano de fundo das relações bilaterais” não é afetado pelo disputa da Igreja Universal.

O aumento de tensões na Universal já levou ao envolvimento dos governos de ambos os países. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro escreveu ao presidente angolano João Lourenço pedindo proteção para os bispos brasileiros.

Já o chefe da diplomacia angolana Téte António assegurou que a relação com o Brasil é boa e que a justiça está “a tratar esta questão”. A ministra de Estado angolana, Carolina Cerqueira, anunciou que vai ser feito um relatório sobre os incidentes, notando que “há indícios de alguns crimes”.

De acordo com a DW, o pastor angolano Alberto Segunda, da direção da Igreja Universal em Angola, afirmou que deverá chegar ao país uma delegação brasileira para ajudar na disputa com um grupo de dissidentes da organização. De acordo com Segunda, a igreja em Angola tem recebido o apoio do líder brasileiro Edir Macedo, que todas as quintas-feiras realiza reuniões pastorais, havendo uma “relação boa, tranquila”, considerando que persiste “uma narrativa mentirosa para distorcer a ideia da opinião pública”, que quer colocar a cúpula contra os fiéis.

A Igreja Universal, no entanto, rejeitou nesta quinta-feira (30) qualquer possibilidade de diálogo com bispos e pastores angolanos, que nos últimos dias tomaram o controle de alguns templos, esperando que a justiça angolana resolva o caso.

A Universal está registrada em Angola desde 1992, onde conta com 500 mil fiéis e um total de 307 templos em todo o país, dos quais 90 estão em posse da ala angolana dissidente.