Após derrota na eleição, governo deixa de levar água para o Nordeste

Cerca de 1,6 milhão de pessoas foram afetadas após o governo deixar de levar água para Nordeste por falta de verba. (Foto: Alexandre Cruz-Noronha for The Washington Post via Getty Images)
Cerca de 1,6 milhão de pessoas foram afetadas após o governo deixar de levar água para Nordeste por falta de verba. (Foto: Alexandre Cruz-Noronha for The Washington Post via Getty Images)
  • Operação Carro-Pipa teve recursos cortados neste mês;

  • Suspensão começou a acontecer logo após o término do segundo turno das eleições;

  • Moradores apelam para que programa seja retomado e não deixe a população sem água e com sede.

A Operação Carro-Pipa, do governo federal, que leva água potável às famílias no semiárido nordestino, teve os recursos cortados neste mês, logo após o segundo turno das eleições. Os caminhões deixaram de fornecer o recurso aos moradores do interior no Nordeste, conforme apurado pela coluna de Carlos Madeiro, do UOL.

O primeiro estado a sofrer com o corte foi Alagoas, logo no início do mês. Já Pernambuco, Paraíba, Bahia e os demais estados registraram a paralisação apenas na quinzena final do mês. Segundo a planilha do Exército, oito estados têm direito ao abastecimento – o que configura um contingente de 1,6 milhão de pessoas afetadas.

A operação, que funciona há 20 anos, é financiada com recursos do Exército Brasileiro em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). À coluna, ambos disseram que a suspensão ocorreu por falta de verbas. O MDR destaca que informou o Ministério da Economia sobre a falta de recursos, mas não obteve retorno.

No dia 14 de novembro, o 72º Batalhão de Infantaria Motorizado, com sede em Petrolina (PE), informou as Defesas Civis de Pernambuco e Bahia que “o recebimento parcial de recursos financeiros para atender a execução do serviço será somente para até o dia 15 de novembro corrente”. O documento foi obtido pelo UOL.

Povo com sede

Orlando Vieira da Silva, 54, é apontador da operação na comunidade de Boa Esperança, em Ouricuri (PE). É ele a liderança local que ajuda a coordenar a distribuição de água no local. Segundo ele, das 30 famílias que vivem lá, apenas quatro receberam água recentemente e as outras 26 estão completamente desabastecidas.

“Eu queria que o apelo chegasse ao governo e que eles vissem isso. A situação aqui está triste, as mães de família estão precisando de água, e nós não sabemos o que fazer. Eu queria que a pessoa que fosse responsável pela operação tomasse logo uma decisão. Ele não vai deixar o povo com sede”.

Em Pesqueira (PE), o pipeiro Erandes Paulino, 29, diz que as famílias têm relatado dificuldades sem água. "Eu, particularmente, nunca vi antes uma paralisação geral como está acontecendo".

O apelo das famílias fez com que prefeitos do Nordeste procurassem a CNM (Confederação Nacional dos Municípios), que já cobra uma solução. O presidente da entidade, Paulo Ziulkoski, afirma que o programa “sob hipótese alguma deve ser interrompido, adiado ou paralisado”, já que “a população é sempre quem sofre os piores impactos causados por esse desastre”.

“[A CNM] ressalta a necessidade de o MDR avaliar o orçamento do programa para o final de 2022, assim como para todo o ano de 2023, alinhado com as ações necessárias para que a OCP não seja interrompida em nenhum momento no próximo exercício”, diz.

O que dizem os responsáveis

À coluna, o Exército informou que apenas executa a operação com os recursos enviados pelo MDR ao Ministério da Defesa. Os recursos, aponta, permitiram a operação até dia 16 de novembro. “O Exército Brasileiro aguarda nova descentralização de recursos para que seja retomada a distribuição rotineira de água", diz.

O MDR, por sua vez, explica que "as necessidades de recursos adicionais foram formalmente encaminhadas ao Ministério da Economia, para que seja possível retomar, o quanto antes, a operação”.

Após a publicação da matéria do UOL, o MDR mandou outro e-mail afirmando agora que "para assegurar a continuidade da Operação Carro Pipa a Junta de Execução Orçamentária (JEO) aprovou, na última segunda-feira (21), a liberação de crédito suplementar ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR)." "O recurso deverá ser disponibilizado pelo Tesouro Nacional na próxima semana”.