Após quatro meses da denúncia sobre comentarista política, CNN afirma que ‘não houve racismo’

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A comentarista política Basília Rodrigues. Foto: Reprodução/Instagram
A comentarista política Basília Rodrigues. Foto: Reprodução/Instagram
  • Em abril deste ano, alguns trabalhadores afirmaram que Basília Rodrigues estava sendo alvo de perseguição de cunho racista dentro da CNN Brasil

  • A emissora não apresentou detalhes da investigação interna e funcionários relatam silêncio sobre o caso que envolve a jornalista e analista política Basília Rodrigues

Texto: Caroline Nunes Edição: Nadine Nascimento

O processo de investigação da CNN Brasil identificou que não houve racismo contra a jornalista e analista política Basília Rodrigues. A constatação do compliance é de que, na verdade, se trata de um comportamento inadequado por parte de alguns funcionários da casa. O tratamento ríspido, apontado pela apuração do caso, não é um fato inédito, segundo relatos de colaboradores da emissora.

Informações repassadas à Alma Preta Jornalismo apontaram que Basília Rodrigues foi vítima de comentários de cunho racista em abril deste ano. A fim de entender os desdobramentos do processo de compliance, a reportagem também perguntou à emissora a respeito da composição racial da equipe de investigação do caso e resultados da apuração. A CNN Brasil, por sua vez, enviou uma nota afirmando o seguinte:

“A CNN reitera o compromisso de combater toda a forma de discriminação, racial ou de outra natureza, contra qualquer colaborador. Toda e qualquer denúncia sobre o tema é investigada com rigor e cuidado, dentro dos princípios éticos e da defesa da diversidade que tem sido uma das prioridades da empresa. Por isso, o processo de apuração nesses casos é estritamente confidencial e tratado com extremo respeito pela CNN Brasil”.

Silêncio sobre o caso

“Não houve nenhuma mudança. Não teve nenhum desenrolar. Quiseram saber como essa informação vazou. Apenas”, informou um funcionário que também preferiu resguardar a identidade.

Mesmo com a exposição do silêncio sobre o assunto nos corredores da emissora e quase nenhuma mudança aplicada à rotina de trabalho, os colaboradores afirmam que há uma expectativa da equipe para atividades voltadas aos temas ligados aos chamados grupos minoritários.

“A única movimentação foi aquele e-mail lá no começo, falando que a empresa não aceita isso, etc. Teve uma palestra sobre racismo estrutural aqui também e vai ter uma série de palestras sobre minorias”, explica o funcionário da emissora.

O e-mail citado foi enviado aos colaboradores da CNN no mesmo dia em que a Alma Preta Jornalismo publicou a matéria: 15 de abril de 2021, às 18h. No texto, a emissora fala que a reportagem coloca Basília Rodrigues como vítima de racismo, o que, segundo a CNN, é uma “acusação gravíssima”.

Sobre o que relata a reportagem, a emissora afirma no e-mail que “não há qualquer fundamento em relação a não mostrar a imagem da jornalista. Nunca houve qualquer orientação neste sentido. Quem acompanha a nossa programação sabe que Basília é presença constante em nosso vídeo desde nossa estreia, sendo reconhecida por seu profissionalismo e amplo conhecimento dos bastidores políticos de Brasília. Depois de uma bem sucedida carreira em rádio, Basília fez sua estreia na TV justamente na CNN”.

No final do e-mail, a CNN afirma: “continuamos em busca de fatos que comprovem a reportagem publicada pelo Alma Preta para, de imediato, tomarmos todas as medidas cabíveis. O combate ao racismo é responsabilidade de todos”.

Segundo relatos de uma fonte, que prefere não se identificar, a CNN Brasil não adota medidas internas de combate ao racismo. “Se tem alguma coisa desse tipo, é bem sutil. A vida seguiu normal. Ninguém nunca abordou, ou tocou no assunto. Nunca houve uma roda de conversa que apontasse ‘isso ou aquilo é preconceito’. Todo mundo segue a vida normal como se não houvesse nada”, relata o funcionário.

“No racismo, o branco não quer ser branco”

“Quando se fala em diversidade, falta a parte diversa da tal diversidade. Faltam novos profissionais, como uma lufada de ar fresco nos padrões. Quando as empresas querem mudar de verdade o seu posicionamento, a alta liderança tem que se posicionar, para dentro e para fora. Essa liderança branca é quem está com a caneta na mão e define como vão ser tratados os casos de racismo”, é o que diz a doutora em psicologia social Cida Bento, conselheira do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert).

Para ela, o silêncio sobre as situações de racismo no ambiente de trabalho são comuns. No caso de Basília Rodrigues, a discriminação se desenvolve para que a vítima acredite que não está passando por tal situação. “O racismo é silenciado. A trabalhadora negra sabe que está sendo discriminada, e o discriminador branco muitas vezes também sabe. Isso impacta emocionalmente na trabalhadora negra, pois ela fica brigando com uma coisa que é invisível. Ela parece uma louca, porque sabe que todo mundo vai negar”, avalia a doutora.

A conselheira do Ceert ainda salienta que as organizações em geral negam e ignoram o racismo de maneira que não fique explícito a branquitude dessas pessoas, ou, como exemplifica Cida, “no racismo, o branco não quer ser branco”.

“Uma coisa é um chefe déspota. Outra coisa é um chefe déspota branco. Esse silêncio tem essa dimensão por parte do branco, uma coisa que é narcísica. A pessoa se sente confrontada por outro modelo de ser, que se explicita na aparência, mas que não é somente a aparência”, pondera.

Cida Bento explica que as pessoas sabem que o problema não é a presença negra, mas o que representa essa presença. “O que ela [Basília] traz de novo? O que ela confronta? Confronta quem fica ali, na escova progressiva. E aí ela vem, com o cabelo volumoso, assimétrico. O que representa esse confronto para quem se agoniza tanto se amarrando dentro de uma caixinha de padrões?”, questiona.

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Sobre a apuração de casos de racismo no ambiente corporativo, Cida Bento coloca que é impossível investigar com rigor a partir da ótica branca. “É preciso olhar para a compliance e como a instituição está verificando a violência racial que aconteceu. Quem olha para isso, olha a partir da visão da branquitude? Se sim, existe um problema aí”, pondera.

Relembre o caso

Em abril deste ano, alguns trabalhadores afirmaram que Basília Rodrigues estava sendo alvo de perseguição de cunho racista dentro da CNN Brasil. Eles relataram implicância com o cabelo de Basília Rodrigues, que é crespo, e não aparição da jornalista durante as reportagens. Incomodados, alguns funcionários comentaram “só não enxerga quem não quer”, em referência ao tratamento negativo e diferenciado dado à comentarista.

A apuração descobriu também que houve reclamações acerca das participações de Basília por conta do fundo do vídeo da sua casa, uma parede toda branca. No dia seguinte, a comentarista estava à frente de uma prateleira, o que também gerou reclamações. “Um dia reclamaram da parede branca, depois reclamaram que ela estava à frente de uma prateleira. A gente vê pessoas em um caos, com a parede repleta de coisas, e entra sem qualquer tipo de problema”, declara um funcionário.

Em outra entrada ao vivo da comentarista, a reclamação foi de que ela “estava olhando para cima no vídeo”. Segundo os profissionais ouvidos, diversas reclamações direcionadas ao trabalho da jornalista seriam resolvidas com um pedido de ajuste ou chamada. “Nesta situação faltou um briefing”, diz um dos entrevistados.

Em nota oficial enviada após a publicação da Alma Preta Jornalismo, a emissora afirmou que ia apurar as informações apontadas na matéria.

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