'Quem se beneficia é quem prega o medo', diz produtor de show em Israel cancelado por Gilberto Gil

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'Quem se beneficia é quem prega o medo', diz produtor de show em Israel cancelado por Gilberto Gil

'Quem se beneficia é quem prega o medo', diz produtor de show em Israel cancelado por Gilberto Gil

RAFAEL GREGORIO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Produtor do show cancelado por Gilberto Gil em Tel Aviv, o brasileiro Daniel Ring pediu ao músico baiano que reconsidere sua decisão.

"Quem se beneficia com o cancelamento são setores que pregam o medo e que se mantêm no poder com essa estratégia", afirmou Ring em uma publicação no Facebook, nesta quarta-feira (23).

Na terça (22), a produção de Gil comunicou que o artista cancelou apresentação que faria em Tel Aviv, em julho, devido à "apreensão" com "um momento sensível" que Israel atravessa.

O comunicado informou que Gil ama Israel e que "haverá outras oportunidades" em "tempos melhores".

O cancelamento acontece após o Exército israelense matar cerca de 60 palestinos durante um protesto na faixa de Gaza, em Israel. Desde março, mais de cem palestinos foram mortos.

O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu alega a defesa de sua fronteira. Outros países e entidades de defesa dos direitos humanos, porém, condenam o emprego de armamento letal.

Há 11 anos vivendo em Israel, para onde se mudou para estudar música, Ring afirmou que a seletividade do boicote é incoerente e reforça acusações de antissemitismo.

"Se fosse assim, teria de boicotar também o Brasil, porque a situação política e de violência e desrespeito aos direitos humanos é muito pior do que aqui. Teria de boicotar os EUA, a Venezuela, Cuba."

Segundo Ring, "em qualquer país do mundo vai haver políticas das quais a gente discorda" e uma forma melhor de protestar seria "vir, fazer o show e deixar sua crítica dando entrevistas a jornais daqui, visitando movimentos sociais com os quais se identifica".

O show reuniria Gil e amigos, como Mayra Andrade, Bem Gil (seu filho), Chiara Civello e Mestrinho, em torno do repertório do clássico disco "Refavela" (1977).

Em sua publicação, Ring -que também é músico e membro de um conjunto de choro chamado Chorolê, que faria o show de abertura no evento- defendeu que a gravidade da situação no Oriente Médio deveria incentivar, e não desestimular a presença de artistas como Gilberto Gil.

"É nessas horas que a música tem sua maior importância (...) de trazer a mensagem de que a gente não vai se render a esse ou àquele governo, por mais fascista que seja. Que a gente acredita no diálogo", escreveu o músico e produtor.

No texto, Ring afirma ainda que ele e sua equipe ficaram sabendo do cancelamento através da imprensa, e não da produção do artista, "apesar de estarmos em contato constante".

Ele também afirma que "os 600 fãs que já haviam adquirido ingresso saem enfraquecidos e prejudicados", e, citando respeito e admiração, termina com um apelo:

"Há uns 20 anos meu pai me colocou pra ouvir o disco 'Expresso 2222'. Minha memória não é muito boa, mas desse dia me lembro como se fosse ontem. Em uma das músicas você diz assim: 'O sonho acabou/ Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou'. Peço que reconsidere a decisão. Até lá, vou dormindo no sleeping bag..."

BOICOTE

A decisão de Gilberto Gil foi elogiada por pessoas e entidades ligadas à causa palestina.

O movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), por exemplo, disse que recebeu "calorosamente" a notícia do cancelamento.

O grupo-movimento defende o boicote econômico, acadêmico, cultural e político a Israel para pressionar pelo pelo fim da ocupação de territórios palestinos.

O baiano também foi elogiado por bandas e artistas, como o grupo americano Portishead.

Caetano Veloso, junto de quem Gil se apresentou em Tel Aviv em 2015, também sob críticas até do ex-Pink Floyd Roger Waters, defendeu o eventual caráter "emocional" da decisão do amigo:

"Penso que existe um respeito à seriedade da questão, mas não é só uma atitude política; a gente deve levar em consideração a economia emocional da pessoa. Você fazer uma viagem aos 75 anos, quase 76, para o Oriente Médio e ficar dias sob tensão e com sentimentos complexos...", afirmou, na terça (22), ressalvando que ainda não havia conversado com Gil.