Após retomada de testes com a Coronavac, Bolsonaro diz que "tem coisa esquisita aparecendo" na vacina

Marcelo Freire
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Ministra Damares foi a convidada do presidente na live desta quinta (Reprodução/YouTube)
Ministra Damares foi a convidada do presidente na live desta quinta (Reprodução/YouTube)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a questionar a Coronavac, que teve seus testes interrompidos momentaneamente pela Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) nessa semana, e afirmou que há "coisas esquisitas" aparecendo na vacina contra a Covid-19.

Apesar disso, Bolsonaro afirmou que o governo fará a compra de uma eventual vacina que for autorizada pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde, indicando que não vetará a CoronaVac – que é patrocinada pelo seu rival político, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

A Anvisa ordenou a suspensão das pesquisas com a CoronaVac – desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac – na noite de segunda-feira (9) alegando que houve o registro de um "evento adverso grave". Na ocasião, o Butantan alegou surpresa com a decisão e disse que o evento em questão não era relacionado à vacina.

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O evento adverso grave foi o suicídio de um voluntário, segundo a TV Globo, e sua morte não teria ligação com os testes da CoronaVac.

A agência permitiu a retomada dos testes na manhã de quarta (11), afirmando ter "subsídios suficientes para permitir a retomada da vacinação" e que "segue acompanhando a investigação do desfecho do caso para que seja definida a possível relação de causalidade entre o EAG [evento adverso grave] inesperado e a vacina".

Nesse meio tempo, Bolsonaro citou a interrupção dos testes ligando à CoronaVac a "morte, invalidez e anomalia". "Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", escreveu o presidente nas redes sociais, na ocasião.

Apesar da autorização da Anvisa, o presidente colocou em dúvida, durante transmissão nas redes sociais nesta quinta, os testes com a CoronaVac. "Sobre a vacina, parece que tem coisa esquisita aparecendo, mas não vou falar, para evitar polêmica."

Na sequência, ele negou ter "comemorado a morte de uma pessoa" e levantou a hipótese de que a causa da morte pode ter sido ligada a um efeito colateral da vacina, sem mencionar que a Anvisa autorizou a retomada dos testes com a CoronaVac.

"Geralmente, quando a pessoa comete suicídio, tem histórico de depressão, histórico familiar. Vão apurar a causa do suicídio, e aí não tem a ver com a vacina. Pode ser efeito colateral da vacina, tudo pode ser. Não sei se já chegaram à conclusão. Esclarece e volta a pesquisar a vacina – no caso, a CoronaVac, que é da China – e continua fazendo a testagem", disse o presidente.

Na sequência, ele indicou que deve comprar qualquer vacina autorizada pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa, ao mesmo tempo que provocou Doria.

"Da minha parte, havendo a vacina, comprovada pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde, [o governo] vai fazer uma compra, mas não num preço que um caboclo aí quer", disse, em alusão a Doria.

"Ele está muito preocupado que seja comprado a toque de caixa. Mas vamos querer planilha de custo. E, da minha parte, quero saber se esse país usou a vacina lá no seu país", declarou Bolsonaro, ressaltando novamente que é contra a obrigatoriedade da vacina.

Damares condena advogado do caso Mari Ferrer

Acompanhando o presidente em sua live semanal nesta quinta-feira, a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) condenou a postura do advogado de defesa Cláudio Gastão da Rosa Filho pela forma como ele tratou a promotora de eventos Mariana Ferrer, vítima em um processo criminal por estupro, durante uma audiência virtual.

Na audiência, o advogado humilhou Ferrer, afirmando, entre outras coisas, que ela faz poses "ginecológicas" no Instagram e dizendo que "jamais teria uma filha no nível" da promotora.

Damares afirmou que apoia uma proposta do Ministério Pública de Santa Catarina de proibir perguntas e referências relativas à experiência sexual anterior da vítima, visando aumentar a proteção à dignidade de vítimas de crimes sexuais.

"Apoiamos essa proposta e temos uma proposta semelhante, para que a mulher seja ouvida uma única vez, e que esse depoimento seja gravado. A mulher chega a falar a mesma coisa oito vezes, e ela sofre oito vezes", disse a ministra, listando as várias ocasiões que a vítima precisa contar sua própria história, tanto na delegacia quanto em outras audiências.

"O que aconteceu naquele caso, a postura do advogado, que reprovamos, não é comum no judiciário. O judiciário é acolhedor. Muitas mulheres deixam de denunciar com medo de que aquilo aconteça com elas, na audiência. Continue denunciando", pediu Damares.

Ministra e presidente atacam colégio que adota neutralização de gêneros

A presença da ministra também fez com que Bolsonaro retomasse a pauta dos costumes, motivando críticas a um colégio do Rio de Janeiro e apoiadores da ideia da utilização oficial do terceiro gênero – como em "querides alunes" – como forma de combate ao preconceito.

Damares afirmou que estão "querendo fazer uma reforma ortográfica sem conversar com o Brasil". "Essa história de mudar palavras soa como uma grande palhaçada. Não é dessa forma que se impõe à nação o combate ao preconceito. Estou horrorizada com a qualidade dessas escolas, famosas, embarcando nessa de querer destruir a nossa língua trazendo palavras como essa", atacou a ministra.

Bolsonaro, por sua vez, afirmou que "a garotada não sabe fazer nada" e "não vai ser útil nem para si" se ficar "se preocupando com esse tipo de besteira". Ele também afirmou que tiraria seus filhos de uma escola que adotasse essa política. "Inadmissível se pregar isso em escola", disse o presidente.

"Escola é lugar de aprender física, química, geografia, não ficar aprendendo essas besteiras. A gente vê fotografia de um professor de um colégio usando saia. Barbadão de saia. Vai pra ponta da praia", declarou o presidente, citando um termo que definia um lugar onde a ditadura executava opositores.

"A gente fica triste com o que acontece no Brasil, e uma porcaria dessa reverbera no Brasil. Ainda nos chamam de preconceituosos", lamentou o presidente.