Após suposta oferta de propina, Saúde marcou reunião com Davati em cinco horas

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Medical staff prepares a syringe from a vial of the AstraZeneca coronavirus vaccine during preparations at the Vaccine Village in Ebersberg near Munich, Germany, Friday, March 19, 2021. (AP Photo/Matthias Schrader)
Às 10h30, o governo brasileiro respondeu marcando uma reunião para o mesmo dia, menos de cinco horas depois (Foto: AP Photo/Matthias Schrader)
  • O Ministério da Saúde marcou reunião com a Davati Medical Supply, menos de cinco horas depois de receber a proposta da empresa para aquisição de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca

  • Segundo a TV Globo, Hernan Cardenas, diretor da Davati, encaminhou email a Roberto Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde no dia 26 de fevereiro

  • Na denúncia de Dominghetti ao jornal Folha de S. Paulo, ele disse que Roberto Ferreira Dias cobrou propina de US$ 1 por dose de vacina em um shopping no dia 25 de fevereiro

O Ministério da Saúde marcou reunião com a Davati Medical Supply, menos de cinco horas depois de receber a proposta da empresa para aquisição de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca. Na reunião, Luiz Paulo Dominghetti, suposto representante da empresa, teria recebido pedido de propina de US$ 1 por cada dose para fechar um contrato.

As informações constam em emails obtidos pelo Fantástico, da TV Globo. Segundo reportagem exibida neste domingo (4), o programa teve acesso a emails e a mensagens enviadas por Dominghetti, que é o autor da denúncia de corrupção e pedido de propina, feita ao jornal Folha de S. Paulo e confirmado na semana passada, por ele próprio, na CPI da Covid.

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Segundo a reportagem da TV Globo, Hernan Cardenas, diretor da Davati, encaminhou email a Roberto Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde. Na mensagem, ele ofereceu as doses da vacina. Era dia 26 de fevereiro. 

Às 10h30, o governo brasileiro respondeu marcando uma reunião para o mesmo dia, menos de cinco horas depois.

"Este ministério manifesta total interesse na aquisição das vacinas. Agendar uma reunião, hoje, às 15h", diz o email do Ministério da Saúde em resposta à Davati.

Na denúncia de Dominghetti ao jornal Folha de S. Paulo, ele disse que o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, cobrou propina de US$ 1 por dose de vacina. Segundo Dominguetti, a cobrança de propina foi feita durante um jantar em um restaurante no Brasília Shopping. Era dia 25 de fevereiro de 2021 — ou seja, um dia antes do email obtido pelo Fantástico.

"Nos chama a atenção essa rapidez com que a Davati acessou os altos escalões do Ministério da Saúde. Se o governo tivesse tido a mesma serenidade com a Pfizer, que teve com a Davati, nós já teríamos brasileiros imunizados desde dezembro", disse o vice-presidente da CPI da Covid, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), em entrevista ao Fantástico.

Em nota, a Davati infomou não ser representante do laboratório AstraZeneca e que não detinha a posso das vacinas. 

"[A emrpesa] jamais se apresentou ao governo federal ou a qualquer outro órgão como tal. Como esclarece o documento de oferta (Full Corporate Offer) feita ao Ministério da Saúde, a Davati Medical Supply não detinha a posse das vacinas, atuando na aproximação entre o governo federal e "allocation holder" que possuía créditos vacinas do laboratório AstraZeneca".

Luiz Paulo Dominguetti, the representative of Davati Medical Supply, attends a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil July 1, 2021. REUTERS/Adriano Machado
A negociação não foi feita entre os dois, mas que o deputado teria tentado, de forma insistente, comprar vacinas da Davati (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Depoimento na CPI da Covid

Na última quinta-feira (1º), durante a CPI da Covid, Dominghetti afirmou que a empresa que supostamente ele representa foi procurada pelo deputado federal Luis Miranda (DEM) para negociar vacinas.

A negociação não foi feita entre os dois, mas que o deputado teria tentado, de forma insistente, comprar vacinas da Davati.

"O que acontece, excelência, muita gente me ligava dizendo 'eu posso isso', 'eu posso aquilo', mas eu nunca quis avançar nessa ceara porque esse 'eu posso isso, eu conheço fulano' já tinha tido um processo todo doloroso dento do Ministério. Eu, particularmente, nem a Davati, queria vivenciar isso novamente. Agora, que eu tenho a informação que parlamentar tentou negociar busca de vacina diretamente com a Davati, eu tenho essa informação", afirmou Dominghetti.

Ele reproduziu um áudio que supostamente comprovaria sua versão. No entanto, reproduzida na CPI por três vezes, a fala do deputado não se refere a vacinas, mas a "produtos".

CPI apreende celular de Dominghetti

Após Dominghetti reproduzir um áudio do deputado federal Luis Miranda, a CPI da Covid determinou a apreensão do celular do vendedor de vacinas.

Segundo informações da jornalista Ana Flor, da GloboNews, Miranda afirmou que o áudio dizia respeito à negociação de luvas cirúrgicas, não de vacinas.

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), relevou que conversou com o deputado federal e este afirmou que o áudio era de 2020 e não tratava de imunizantes.

Os senadores governistas tentaram frear a apreensão do celular de Dominguetti e pediram que o telefone de Luis Miranda também fosse apreendido — a requisição foi negada.

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