Após testemunhar crime de latrocínio, homem negro vira suspeito e é preso

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Familiares e Movimento Negro Evangélico de Pernambuco denunciam prisão e pedem a soltura do auxiliar de farmácia André Arcanjo, que passou de testemunha para suspeito de caso de um crime que presenciou
Familiares e Movimento Negro Evangélico de Pernambuco denunciam prisão e pedem a soltura do auxiliar de farmácia André Arcanjo, que passou de testemunha para suspeito de caso de um crime que presenciou

Texto: Victor Lacerda | Edição: Lenne Ferreira

Há 13 dias, familiares, amigos e conhecidos de André Arcanjo, homem negro de 41 anos, estão sem entender o motivo de sua prisão. Atuando profissionalmente como auxiliar de farmácia e membro de uma igreja evangélica progressista da capital pernambucana, André passou de testemunha de um caso de latrocínio - que presenciou no início do último mês de julho - a suspeito. Desde o dia 6 de outubro, data em que foi detido, articulações nas redes sociais sobre sua inocência e pedidos por sua soltura são feitas.

No dia 11 de julho deste ano, no bairro de Areias, na Zona Oeste do Recife, André foi até a casa de um vizinho que já conhecia há mais de 20 anos, identificado como Seu Valdo, a quem ajudava, como profissional da saúde, nos cuidados com a esposa, uma idosa, que já está em estágio avançado de Alzheimer. O que os dois não esperavam é que seriam surpreendidos por dois assaltantes.

Na casa, os criminosos encontraram, além de André e Seu Valdo, mais dois vizinhos, os parentes Rodrigo de Freitas, 24, e Fernando de Freitas, 51, que prestava serviços de manutenção na casa no momento do ocorrido. Ainda segundo testemunhas, os quatro foram rendidos por armas de fogo, pertences foram levados e, ao final, Seu Valdo foi a vítima escolhida para consumação do latrocínio, quando há roubo seguido de morte.

O episódio chocou a todos os moradores da comunidade e se tornou uma experiência traumática para as pessoas que cooperavam com a dinâmica do idoso e a esposa, ambos bem quistos onde moravam. De acordo com familiares, André, apesar do trauma cooperou com a polícia desde o princípio. Foi à delegacia sem advogados, prestou depoimento e forneceu até o próprio celular como prova de isenção no crime. Os outros dois vizinhos também deram suas versões sobre a presença na casa da vítima.

Entretanto, a Polícia Civil de Pernambuco, em investigação por cerca de três meses, decretou prisão preventiva aos rapazes, desde o último dia 6 de outubro. De testemunhas, os três passaram para possíveis suspeitos da condução da morte do idoso. A polícia acredita que, durante o assalto, André teria conhecimento da execução do crime e teria facilitado a entrada dos criminosos na casa do casal de idosos. O caso é acompanhado pelo delegado Vitor Meira Toscano Pereira, da 4ª Delegacia de Polícia de Homicídios do DHPP

Em conversa com a Alma Preta Jornalismo, a mãe de André - que pediu para não ser identificada por receio dos assaltantes, que ainda não foram identificados -, afirma que a ação da polícia surpreendeu familiares e amigos por André ser conhecido por sua solidariedade com a vítima e o tempo de companheirismo que compartilhavam durante todos os anos passados. Para ela, os verdadeiros criminosos estão soltos e André está preso injustamente.

“Eu avalio tudo isso como falha. Conheço meu filho e falo por ele, um homem, negro, trabalhador, evangélico, que é querido por onde passa. Um homem que estava ali ao lado de Seu Valdo por solidariedade, a quem conhecia por anos. Não consigo compreender essa prisão. Mesmo com emprego certo, residência fixa e depondo sobre a relação dele com a vítima, mesmo assim a polícia entendeu meu filho como suspeito. Isso não existe”, desabafa.

A mãe ainda relata que a confiança do casal de idosos era tamanha, a ponto de André servir de cuidador da idosa com Alzheimer, dando banho periodicamente na presença da vítima do crime. Ela denuncia que, mesmo com a boa vontade do filho em testemunhar sobre o latrocínio, a polícia não se conteve na abordagem, chegando à residência de André Arcanjo de forma truculenta e sem ouví-lo.

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“É revoltante presenciar tudo isso e não ter o meu filho por perto. A condução que a polícia está tendo não existe. André sempre ia para casa de Valdo, que tinha ele como um filho. Eu vi a tristeza e o trauma que ficou com a perda. Como isso pode ter se transformado dessa forma aos olhos da justiça?”, questiona.

O caso de André Arcanjo tomou grande proporção nas redes sociais. O Movimento Negro Evangélico de Pernambuco, publicamente, mostrou solidariedade ao auxiliar. Em nota, a organização afirma que André é um homem negro inocente, preso injustamente por um crime que não cometeu, e pede para que a investigação da polícia seja justa e transparente.

“Não iremos mais admitir a criminalização de pessoas negras sem provas, sem indícios e sem considerar todas as provas apresentadas pelo André”, declarou o Movimento.

André, Rodrigo e Fernando foram encaminhados para o Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), localizado em Caetés II, no município de Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife. Procurada pela Alma Preta Jornalismo, a Secretaria de Defesa Social, até o fechamento da publicação, não apresentou retorno. Caso haja resposta, a matéria será editada e complementada com o posicionamento da corporação.

Como forma de resistência à prisão do auxiliar de farmácia, lideranças negras da capital promovem uma campanha de abaixo-assinado contra a forma de condução do caso e pedem pela soltura de Arcanjo. Intitulada “#JustiçaPorAndréArcanjo”, ação prevê assinatura de 5.000 pessoas pedindo uma reavaliação do judiciário sobre o caso, ressaltando a inocência de André.

O link está disponível aqui.

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