"Quero me tornar uma lenda do esporte", diz Isaquias Queiroz

Isaquias quer se tornar uma lenda do esporte (Foto: Flickr Ministério do Esporte)

Por Guilherme Costa, de Montemor-o-velho, Portugal

Todas as vezes que o baiano Isaquias Queiroz disputou um Campeonato Mundial adulto de canoagem, ele foi ao pódio. Na competição encerrada no último domingo em Montemor-o-velho, em Portugal, não foi diferente. O canoísta de 24 anos foi campeão do C1 (canoa para uma pessoa) e do C2 (duas pessoas, ao lado de Erlon Souza) na distância de 500 metros, além de ter sido bronze no C1 1000m. Com isso, ele soma dez medalhas, cinco ouros e cinco bronzes, na história do evento.

Você já viu o novo app do Yahoo Esportes? Baixe agora!

– Eu estava pensando comigo, eu quero me tornar uma lenda viva do esporte, não só da canoagem. Eu ainda tenho muito o que aprender. Para me tornar esse atleta, como o Bernardinho do vôlei, ou um Cesar Cielo, eu preciso treinar muito. Tenho muitos anos para conseguir esses feitos. Ainda sou peixinho no meio dos tubarões – disse.

O medalhista olímpico sabe diferenciar muito bem suas conquistas. O programa dos Jogos Olímpicos é diferente do Campeonato Mundial. Em Tóquio 2020, apenas as provas do C1 e C2 1000 metros serão disputadas. Portanto, os títulos mundiais em Portugal foram em provas que não serão realizadas na Olimpíada. O bronze nos 1000m, para Isaquias, valeu mais do que os ouros.

–  A prova do C1 1000m com certeza vale mais do que o C1 500m porque é uma prova olímpica, e o resultado que importa é o da prova que é disputada na Olimpíada. O ouro do 500m não tem um peso tão grande como uma prova olímpica, mas para mim vale muito porque é metade do C1 1000m, e eu cheguei na frente de todos. Eu tenho que melhorar os outros 500m dos 1000m- disse.

Leia mais:

– Marcelo admite: “É claro que sentimos a falta de Cristiano”

– Reinaldo vibra com boa fase e pensa em seleção

– Período de Valdir no Vasco irá ajudar início de Valentim

Isaquias Queiroz começou sua história em Mundiais em 2013, quando foi campeão do C1 500m e bronze no C1 1000m. No ano seguinte, voltou a levar o título no C1 500m, e ainda foi bronze no C2 200m, ao lado de Erlon. Em 2015, foi campeão do C2 1000m, de novo com Erlon, e ainda foi bronze no C1 200m. Do Mundial do ano passado, voltou com um bronze: C1 1000m. Portanto, com os três pódios desta semana, são dez medalhas.

Confira o bate-papo com Isaquias:

Dez medalhas em Campeonato Mundiais e você tem apenas 24 anos. Como você se sente?

Eu estava pensando comigo, eu quero me tornar uma lenda viva do esporte, não só da canoagem. Eu ainda tenho muito o que aprender. Para me tornar esse atleta, como o Bernardinho do vôlei, ou um Cesar Cielo, eu preciso treinar muito. Tenho muitos anos para conseguir esses feitos. Ainda sou peixinho no meio dos tubarões. Eu não penso daqui a dez anos, eu quero ir no passo a passo, ano a ano, ciclo a ciclo.

E como fazer para isso não deixar você com uma certa soberba, ou algo parecido, afinal, os resultados são muito bons

A gente tem Jesus Morlán (técnico espanhol, considerado o melhor do mundo, que treina a seleção brasileira desde 2013), além de treinador, é um ótimo conselheiro. Se a gente crescer a unha, achar que vai ganhar sem treinar, ele corta nossas unhas na hora. “Opa, venha cá”, ele não deixa a gente se achar. A gente aprendeu que cada campeonato é um campeonato e o foco é total na Olimpíada. Ali que é importante.

O que mudou na sua vida depois das medalhas olímpicas no Rio?

Eu acho que continua a mesma coisa, continuo o mesmo cara, a mesma rotina. Eu acho que mudou a responsabilidade, de estar sempre entre os três primeiros colocados. O resultado não pode cair para a próxima Olimpíada. Tenho que estar sempre melhorando, sempre com o foco na Olimpíada

Quais são suas chances na Olimpíada?

O C2 1000m, que eu faço com o Erlon, é mais aberto, muita gente brigando, é mais confuso. Tem quatro, cinco barcos na disputa. Não tem nenhuma dupla muito favorita. No individual, os três primeiros estão na frente dos demais, nós três brigamos entre sí. O Brendel está sempre preparado, e para 2020 eu vou estar mais focado e posso ganhar dele. Eu e o (Martin) Fuksa temos muito o que aprender com ele.

O alemão Sebastian Brendel é o atual bicampeão olímpico e é seu grande adversário no C1 1000m. Você sente que você está mais perto dele?

Olha, referente aos outros mundiais, um que eu estava muito bem foi o de 2014, eu estava muito bem, mas acabei tendo a fatalidade no final (Isaquias virou o barco nos últimos metros, quando era líder). Fiquei perto de ganhar dele. Mas ele é o rei da prova, ele é o cara…Mas dá para ver que, aos poucos, eu estou chegando. Ele (Brendel) é um monstro. Eu e Fuksa ainda temos muito o que aprender com esse cara. Temos que buscar inspiração nele, é um fenômeno.

Você até deu o nome do seu filho de Sebastian em homenagem a ele…

Sim, aliás, meu filho fez um ano no sábado (dia 25), um beijo para ele. Vou chegar com as medalhas e, conhecendo ele, já vai querer ficar levando de um lado para o outro, de um lado para o outro…

O Jesus Morlán chegou ao Brasil em 2013 e mudou tudo. Ele é considerado um dos melhores técnicos do mundo. Conte um dos métodos de treino do Jesus…

Olha, esse Mundial, por exemplo, eu não estava 100% preparado. Jesus tem o método de  treinamento que é uma escadinha, vai subindo pouco a pouco. Ano que vem vou estar 95%, a Olimpíada é 100%. Ano que vem a gente faz o c2 1000m, e está descartado o c1 1000m

Qual é essa estratégia do Jesus?

É uma estratégia, não vou remar o c1 1000m no Mundial do ano que vem para focar no C2 1000m e a vaga olímpica. Assim como em 2015. Lá deu certo.

Mas você não remou o C2 1000m neste ano…

Esse ano foi para descansar um pouco. Nunca gostei de remar o C2, como a gente viu a oportunidade de ganhar no Rio, a gente treinou. Ai o Jesus deixou de fora, para eu poder remar só o meu c1. Ano que vem talvez eu reme o c1 500m, mas o foco é a vaga olímpica. Quero encaixar o feito de 2015, quando nós fomos campeões mundiais.

O Jesus Morlán chegou em 2013 ao Brasil. Foi difícil se adaptar a tantas estratégias diferentes do que você já tinha vivido?

No começo a gente achava o Jesus meio suicida, mas vimos os resultados, tudo dando certo. Nunca chegamos ao mundial e não ganhamos medalha. O que ele falar a gente sabe que vai ser melhor para a equipe.

O quanto você dedica essas medalhas ao Jesus?

Eu acho que não tem como falar se foi 50% ou 80%… Foi 100% por causa dele que eu consegui esse resultado, não só esse resultado, como os resultados de toda minha carreira.

Ele assiste à prova tão calmo, na arquibancada. Você fica nervoso?

Eu pergunto para ele “Você não sente nervosismo”? Ele disse que não. Eu falo, “Caraca, como assim?”. Eu fico com receio antes da prova, fico preocupado com vento, fico nervoso…Mas ele é tranquilo. Ele fica na arquibancada, percebe algumas coisas, “ó lá, remou bem”, mas fica tranquilo, supertranquilo.

Você já ganhou diversas medalhas individuais e muitas outras em duplas. Qual é a diferença entre os dois treinamentos?

Individual você tem um trabalho seu, obrigação sua, no barco de equipe, tem que ser um barco, uma pessoa. O barco tem que andar como se fosse uma pessoa sí. Tem que ser um barco, uma pessoa no barco, temos que achar que só tem uma pessoa no barco

E sua relação com o Erlon, seu parceiro em tantas conquistas?

As vezes, quando estou mal ele me aconselha muito, me ajuda, tem vezes que ele fica para baixo, eu ajudo. É uma família, se eu estou mal, ele me ajuda, se ele tá mal, eu ajudo. Mesmo sem treinar, o barco encaixa, temos uma sintonia

Vocês não treinaram juntos para esse Mundial?

Caímos na água só cinco vezes juntos. Uma no Brasil, uma no aquecimento da eliminatórias, outro na eliminatória, depois o aquecimento da final e aí sim, a final. Só cinco vezes. E conseguimos essas medalhas, chegamos bem na frente dos alemães no c2 500m. Mas o que importa agora é a prova dos 1000m, que é a olímpica.

Na Área com Nicola – Palmeiras se planeja bem para 2019